Copa do Mundo da FIFA Sub-17 Brasil 2019™

Copa do Mundo da FIFA Sub-17 Brasil 2019™

26 de outubro - 17 de novembro

Copa do Mundo Sub-17 da FIFA

Para trio de árbitras pioneiras, a arbitragem não tem gênero

Assistant referee Luciana Mascarana, referee Claudia Umpierrez and assistant referee Monica Amboya
© Getty Images

Claudia Umpiérrez, Luciana Mascaraña e Mónica Amboyo estão no centro das atenções quando o assunto é arbitragem na Copa do Mundo Sub-17 da FIFA Brasil 2019™. O grupo de árbitros do torneio se reuniu em Brasília para um treino a portas abertas e as mais buscadas pelos jornalistas foram elas, que compõem o primeiro trio de mulheres a apitar em um Mundial masculino.

A árbitra principal Claudia (36) e a sua assistente número um, Luciana (38), são uruguaias. A primeira é advogada e a segunda, professora de educação física. Já a assistente número dois, a equatoriana Mónica (37), é ex-atleta e professora de matemática.

As três possuem experiência nos campeonatos nacionais dos seus países - Claudia estreou em 2010 - e a sua última participação como trio de arbitragem em um evento internacional havia sido na Copa do Mundo Feminina da FIFA França 2019. Quando de repente apareceu o Mundial Sub-17 no Brasil...

Qual é a maior emoção de estar aqui?

Claudia: Primeiramente a nomeação, porque foi inesperada. O ano estava terminado para nós em termos de competições internacionais depois da França. Quando chegou a notícia foi uma grande emoção.

Mónica: Aquele foi o dia mais feliz. Estávamos todas indo para o trabalho. Temos um grupo de Whatsapp e nos comunicamos. A reação foi gritar e chorar, porque a verdade é que é uma oportunidade muito grande.

Luciana: Eu estava indo para o trabalho quando a Mónica me avisou. Tive que parar porque comecei a chorar. Passam muitas coisas pela nossa cabeça: o dia em que começamos na arbitragem e nos dizemos por que gostamos disso... a família e os amigos, que também nos perguntam por que gostamos de arbitragem.

C: São em momentos como esse que se sente que tanto esforço valeu a pena. Durante uma carreira nem tudo é cor de rosa. Mónica e eu somos mães, tivemos de passar pelo momento da gravidez, voltar depois da gravidez. Há momentos em que choramos de tristeza porque as coisas não saíram como queríamos, e agora choramos de felicidade porque sentimos que os sonhos estão se concretizando.

Como é a experiência com o grupo de árbitros?

C: O grupo que temos é maravilhoso. Estamos honradas por participar ao lado de companheiros que trabalham nos melhores campeonatos, observar e aprender. Não é só o torneio, é o que levamos da preparação para nós. O uso do VAR ou a possibilidade de ver e corrigir os trabalhos na hora, por exemplo, são coisas que nos enriquecem.

M: O intercâmbio com os homens nos faz aprender. E é indispensável a ajuda e o apoio deles, e que eles nos façam sentir parte do grupo. O grupo foi muito bom conosco e tentamos corresponder com esforço.

C: Eles sabem do esforço extra que tivemos de fazer e que estamos aqui porque ninguém nos deu nada de presente e lutamos como eles lutam, conquistando as coisas a cada partida.

Vocês também estão ensinando a eles com um olhar diferente...

C: Na primeira partida, [o peruano] Diego Aro foi o nosso quarto árbitro e destacou para nós algumas coisas de comunicação. Trabalhamos juntas há muito tempo e para eles isso também funciona, porque nos dizem: "Isso é bom, também vou aplicar".

L: Falaram para gente sobre tranquilidade. Embora seja um torneio masculino, a nossa comunicação e o nosso planejamento continuam sendo os mesmos.

Como evoluiu o tratamento dos jogadores em campo?

M: O nível de aceitação é amplo. No princípio pode ter havido esse impacto por verem três mulheres, mas com o trabalho que fazemos dentro de campo, terminam dizendo que estamos nas mesmas condições que os homens e que podemos tomar as mesmas decisões. Para isso nos preparamos.

C: Com os acertos vamos ganhando credibilidade. Já foi demonstrado que a arbitragem não tem gênero. O que é preciso existir é preparação e profissionalização, porque se ela ficar em casa vendo TV e a oportunidade chegar, as coisas não vão se sair bem. É preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar. Não existe outro caminho.

Referee Claudia Umpierrez looks on during the training session ahead of the FIFA U-17 World Cup Brazil 2019
© Getty Images

Para além do boletim de desempenho oficial, como vocês se analisam a si mesmas?

C: Temos a possibilidade de baixar, assistir e editar todas as partidas. No grupo de Whatsapp, inclusive antes do torneio, enviamos jogadas umas às outras e comentamos. Existiu alguma situação? Tenho o aplicativo no celular, depois do jogo edito e envio as jogadas para falarmos das coisas que se saíram bem ou nem tanto...

L: Sempre tentamos tirar o melhor. Por que aconteceu isso comigo? Onde me posicionei? Tentamos avaliar e talvez uma colega de fora possa ver melhor.

M: É importante ver-se a si mesma para saber o que corrigir, que uma colega identificar. Porque, além de ser uma equipe consolidada, somos excelentes amigas. Somos como uma família.

C: Sempre precisamos ter autocrítica porque às vezes eu me equivoco, às vezes elas se equivocam, mas no final o que buscamos é que o trabalho da equipe seja bem feito. Essa é a nossa fortaleza.

Vocês conversam entre si sobre dirigir a final, ou esse é um tema tabu?

L: Não queremos saber! Que seja surpresa! Cada partida é uma final, seja masculina ou feminina. Nunca se sabe se receberemos outra oportunidade. E o que for, vamos desfrutar como se fosse a final.

C: Conversamos sempre. É preciso ter foco no que depende de nós, e isso são os 90-95 minutos de cada partida. Tratamos cada uma como se fosse a última. Estamos muito felizes enquanto equipe com as oportunidades que tivemos, com o que crescemos durante essas semanas, com a nossa entrega e com a confiança por nos nomearem para três jogos.

Que conselhos podem dar às meninas que sonham em ser como vocês?

C: Quando me convidam para dar palestras nas escolas, sempre uso uma frase que é uma forma de vida: insistir, persistir, resistir e nunca desistir. Se alguém tem um sonho, é preciso trabalhar para alcançá-lo. Haverá obstáculos, mas é preciso demonstrar para os demais que esses obstáculos não vão nos barrar, e sim nos fortalecer.

M: É preciso sonhar sempre, mas para que o sonho se realize, é preciso entregar-se cem por cento. Tenho duas filhas e sempre digo para elas que nunca se abandona um sonho, porque é mais difícil recuperar o que se alcançou do que seguir lutando para querer chegar.

L: Sou professora de educação física e as alunas me contam que o pai ou a mãe não as deixam jogar futebol. Elas vão crescendo com esses mitos, mas se têm um sonho, que lutem por ele. Nós estamos aqui e o esforço vale a pena.

Match official and referees with team captains 
© Getty Images

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