
Embora a Zâmbia tenha voltado para a casa com o troféu, houve muitos vencendores ao final das três semanas da Copa Africana de Nações encerrada no último domingo. Além do título continental inédito dos zambianos, comemorado com gosto pelos azarões, o torneio registrou boas surpresas e uma inesperada ascensão para Gabão e Guiné Equatorial, que organizaram conjuntamente o evento.
A ideia de dividir a organização é uma forma de nações de menor expressão no futebol ocuparem o centro das atenções, e os vizinhos banhados pelo Oceano Atlântico passaram nos testes extracampo com excelente nota. "Esta foi a primeira vez que tivemos dois países apresentando candidatura e organizando o torneio juntos, e foi um grande sucesso", destacou o presidente da Confederação Africana de Futebol, Issa Hayatou. "Acho que ambos fizeram um trabalho maravilhoso."
Nos gramados, a experiência também foi positiva. As previsões mais pessimistas não se confirmaram e os torcedores foram brindados com algumas apresentações bastante elogiadas. O Gabão, em especial, impressionou os especialistas pelo futebol veloz e vistoso que não deu chance aos adversários de chave. O país derrotou Níger, Marrocos e Tunísia na primeira fase antes de cair nas quartas de final contra o Mali numa nervosa disputa de pênaltis. Com o desempenho, os gaboneses avançaram 46 posições no Ranking Mundial da FIFA/Coca-Cola e agora aparecem na 45ª colocação, logo atrás dos malineses, mas ainda a 15 postos da sua melhor classificação histórica, registrada em setembro de 2009. Já a Guiné Equatorial ostentava um modesto 151º lugar antes de a bola começar a rolar — o pior ranqueamento entre os participantes do torneio. Agora, porém, galgou 41 colocações e ocupa a 110ª posição.
O salto é um sinal das boas atuações, sobretudo para os gaboneses, que apresentaram uma das revelações da competição. Pierre-Emerick Aubameyang, de 22 anos, foi um dos artilheiros da CAN 2012. O atleta do Saint-Etienne teve o azar de ser o único jogador a errar o pênalti na decisão contra o Mali, mas foi eleito para a Seleção do Torneio entre os substitutos, ao lado do companheiro Eric Mouloungui, que também atua no futebol francês. O Gabão, que só havia alcançado as quartas de final uma vez, em 1996, também protagonizou a melhor partida do torneio: uma inesquecível vitória por 3 a 2 sobre o Marrocos, com direito a gols das duas equipes nos acréscimos do segundo tempo. O resultado levou os donos da casa aos mata-matas em grande estilo.
O técnico Gernot Rohr reconhece que o seu selecionado está no caminho certo em termos de aproveitamento e crescimento. "Montamos uma equipe jovem que tem potencial para pressionar os adversários e alcançar novas conquistas", disse o treinador franco-alemão, mais lembrado pela passagem pelo Bordeaux. "Pecamos em pequenos detalhes, mas vamos continuar trabalhando."
Boas lembranças e um incentivo
Enquanto o Gabão tem um histórico relativamente rico no futebol africano, a ambiciosa Guiné Equatorial era vista como a verdadeira incógnita da competição. O país jamais havia participado de um torneio continental e, para preocupar ainda mais o torcedor, trocou de técnico às vésperas do evento. O experiente Henri Michel deu lugar a Gílson Paulo, um brasileiro pouco conhecido que estava trabalhando na base do Vasco da Gama. Contudo, o selecionado escarlate se adaptou rapidamente à pressão e arrancou uma vitória por 1 a 0 contra a Líbia na partida de estreia. O autor do gol foi Javier Balboa, formado e revelado pelo Real Madrid.
Assim como os gaboneses, os vizinhos também venceram o seu segundo jogo de maneira dramática, derrotando o amplamente favorito Senegal no estádio lotado da cidade de Bata. O atacante Moussa Sow parecia ter garantido um ponto aos visitantes quando estufou as redes aos 44 do segundo tempo, mas o lateral direito Kily, que joga na Espanha, avançou pelo gramado e acertou uma bola cheia de efeito no canto superior da meta senegalesa, decretando a vitória por 2 a 1. No último compromisso da fase de grupos, o país perdeu para a futura campeã Zâmbia pelo placar mínimo. O resultado não chegou a decepcionar, mas colocou a Guiné Equatorial frente à poderosa Costa do Marfim nas quartas de final.
O desafio era pesado e, de fato, Didier Drogba confirmou a superioridade dos Elefantes e a vitória por 3 a 0. Apesar da eliminação, os guinéu-equatorianos desfrutaram da importante oportunidade de jogar em alto nível e, graças ao sucesso da campanha, Gílson Paulo teve o seu contrato renovado por um ano. O técnico brasileiro agora espera que a boa fase sirva de incentivo ao longo de 2012, quando a Guiné Equatorial e o Gabão brigarão por uma vaga na Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014, e também na Copa Africana de Nações do ano que vem, a ser disputada na África do Sul.








