Se há algo que caracteriza o Brasil ao longo da sua rica história futebolística é a facilidade para produzir laterais de grande categoria. Desde os áureos tempos de Nílton Santos e Carlos Alberto Torres, a lista ganhou recentemente nomes como os de Cafu, Roberto Carlos, Maicon, Marcelo e Daniel Alves. Este último é uma das peças de maior destaque do Barcelona, clube que revolucionou o futebol moderno com títulos e desempenhos espetaculares.

Aos 29 anos, o jogador baiano também se firmou como um dos integrantes mais experientes de uma Seleção Brasileira que luta contra o relógio na busca de uma identidade antes de disputar a Copa das Confederações da FIFA e a Copa do Mundo da FIFA diante da sua exigente torcida. Disso e bem mais, Daniel Alves falou com o FIFA.com.

FIFA.com: Como é ser eleito o melhor lateral direito de 2012 pelos próprios colegas? 
Daniel Alves: As sensações de estar na cerimônia de gala da Bola de Ouro são incríveis. Poder compartilhar esse pouco tempo com tanta gente do futebol, tanto do presente como do passado, para mim sempre é um privilégio. E mais ainda quando a participação é para reconhecer o nosso trabalho, pelo que fizemos durante todo o ano. É evidente que, com uma grande equipe, em um esporte coletivo, é mais fácil conquistar prêmios individuais. Acho muito legal.

Receber o voto dos jogadores torna tudo ainda mais especial?
Sem dúvida nenhuma, porque o reconhecimento já não depende de que um torcedor goste ou não da gente. Ele vem de gente que vive desta profissão e que sabe o quanto é difícil. Eles sabem do que estão falando, e isso torna tudo especial. Só tenho de agradecer o voto, o carinho e o reconhecimento. O nosso objetivo é sempre agradar aos outros, além de aproveitar a magia do futebol. Sei bem que há um montão de jogadores que poderiam estar aqui, e por isso me sinto um privilegiado.

Ao fazer um balanço pessoal de 2012, teria gostado de jogar um pouco mais? As lesões o atrapalharam um pouco…  
Sim, claro. Todas as lesões que eu nunca havia tido apareceram agora. Mas a minha filosofia é não buscar os "porquês", e sim saber "para quê". E acho que é algo que tinha de acontecer comigo para eu valorizar certas coisas que a gente não vê quando está tão concentrado na profissão. Foi bom para eu amadurecer e aprender. É assim que entendo. Acho que, ao ser fiel ao seu trabalho, ao ser um grande profissional, as coisas voltam ao seu lugar. Agora estou muito feliz por ter começado este ano jogando e por poder participar estando bem fisicamente.

O ano passado também trouxe várias mudanças na Seleção Brasileira. Com o que pode contribuir a chegada de Luiz Felipe Scolari?
Sempre que há mudanças, a gente espera que sejam para melhor. No nosso caso, esperamos que sirva para encontrar um ponto de equilíbrio, para que voltem a nos respeitar como seleção pelos jogadores e pela história que temos. Quem foi escolhido foi o último campeão do mundo, e isso quer dizer muitíssimo e exige respeito. Ganhar qualquer competição é difícil, ele conseguiu, e tomara que venha para contribuir com esse ponto de equilíbrio que talvez nos tenha faltado. Estamos muito próximos de duas competições muito importantes em casa, com a nossa gente, e por isso qualquer coisa que some e ajude nos deixará cheios de alegria e esperança. Queremos retribuir a esperança ao nosso povo.

Muitos acham que o Brasil, pelo fato de ser local, é o principal candidato a ganhar a Copa das Confederações da FIFA e a Copa do Mundo da FIFA. No entanto, quem conhece a paixão do brasileiro pelo futebol sabe que a pressão será muito forte. O plantel está pronto para conviver com isso? 
Quem não está preparado tem menos de seis meses pela frente. É necessário estar preparado. Tudo bem que temos jogadores jovens, mas eles contam com experiência e foram campeões com as suas equipes. Na minha opinião, a alegria que temos de poder jogar competições tão grandes no nosso país supera todas as outras dificuldades. A nossa alegria está acima de tudo.

Estão ansiosos por jogar uma competição oficial? A ausência nas eliminatórias os impediu de contar com essa possibilidade com mais frequência...
Exato, estamos com saudades de poder competir. Em um torneio oficial há competição de verdade, para valer. Por mais que sejam levados muito a sério os amistosos, falta a responsabilidade de saber que uma derrota significa a eliminação de algo como, por exemplo, uma Copa do Mundo em casa. Essa pressão é boa para o jogador, nos mantém vivos, concentrados e focados no que queremos. E isso constrói a equipe: a dificuldade e a alegria de uma competição servem para unir. Mas é assim, temos de conviver com isso. Inventar desculpas é coisa de perdedor. E na seleção não temos perdedores, porque para estar aqui todos precisaram superar coisas muito importantes. Jogamos futebol, fazemos e desfrutamos de algo que amamos. Não existe pressão para quem trabalha com amor e alegria.

Há pouco tempo, Ronaldo manifestou que o Brasil não está entre as cinco melhores seleções do mundo. Concorda?
Vejo algo mais ou menos parecido. Temos uma seleção que, por não competir, não vem podendo evoluir. Contamos também com jogadores muito jovens que atravessam um processo muito rápido e importante, e são eles que vão nos defender na Copa do Mundo. A ideia é aproveitar a Copa das Confederações para afirmar uma equipe e competir como tal. Ainda falta um ano e meio para a Copa do Mundo. Nesse tempo, precisamos fazer a equipe se encontrar de qualquer maneira. O Mundial não vai deixar de ser jogado se não nos encontrarmos. Com o que temos, precisamos ser responsáveis por todo um país. Queira ou não, é um peso, uma responsabilidade. O importante é que cada um olhe para si mesmo e saiba o quanto é importante defender esta camisa. Com esta ideia vamos construir uma grande equipe, porque qualidade há de sobra.

Vimos que você estava falando muito animado com Neymar há alguns minutos. Tentou convencê-lo a ir para o Barcelona? 
Sim, claro. Faz muito tempo! (sorri) Quando surgiram os rumores de transferência para a Europa recomendei que ele viesse ao Barcelona. Este é mais do que um clube, o slogan diz tudo: cuidam da gente, mimam, atendem sempre bem a você e à sua família. Este clube tem valores que quase nenhum outro tem no futebol, e isso o faz diferente dos demais. Falam que é impossível competir com o Barcelona, mas no clube a gente vê que é um trabalho feito de baixo para cima que faz com que tenhamos os grandes jogadores que temos. As contratações feitas são apenas pontuais. Os demais são todos das categorias de base. Com essa aposta, vem o resultado. Contamos com dois companheiros brigando pela Bola de Ouro, e essa é uma demonstração de que pode haver qualidade sem gastar uma quantia estratosférica para contratar jogadores.

O que mais o surpreendeu na sua chegada ao clube?
Fiquei surpreso porque os jogadores não são contratados pelo nome nem pela fama que têm. Pelo contrário, são contratados pensando em onde se encaixariam na equipe, que trabalho poderiam fazer. E a partir daí a equipe sempre cresce. O trabalho não é de dois dias, mas de anos, anos e anos. Todos nós que fazemos parte hoje do Barcelona temos de nos sentir privilegiados. Passar por este clube é recomendável para a saúde, para tudo… Você realmente reconhece o que são valores humanos, futebolísticos e de competição. Sem sombra de dúvidas, é o melhor clube e a melhor equipe do mundo.