É difícil abordar a melhor temporada em muitos anos do Atlético de Madri e não pensar, num estalo, nos gols de Radamel Falcao García. O colombiano realmente pode encantar com seus movimentos atléticos lá na frente. Mas o sucesso da equipe também pode ser compreendido com maior abrangência, bastando desviar a atenção para o que acontece do outro lado do campo. Com uma defesa sólida, os colchoneros conseguem, enfim, fazer oposição aos hegemônicos rivais Barcelona e Real Madrid.

O Atlético tem hoje o terceiro melhor ataque do Campeonato Espanhol, é verdade, com 43 gols marcados. Mas a distância para os dois primeiros ainda é considerável: o Barça já soma 72 gols na competição, enquanto o Real tem 54. Na retaguarda, porém, a realidade é outra: o time é o segundo melhor da liga, com 21 gols sofridos, sendo superado apenas pelo Málaga.

Esse desempenho certamente não passou despercebido, ao menos por um campeão mundial. Em sua convocação da Seleção para amistoso contra a Inglaterra, o técnico Luiz Felipe Scolari escolheu dois integrantes da linha defensiva do Atlético: o zagueiro Miranda e o lateral Filipe Luís. A evolução da dupla ajuda a entender a melhora como um todo da equipe espanhola e, como bônus, rende aos dois um lugar na primeira lista elaborada por Felipão, a apenas alguns meses da Copa das Confederações da FIFA e a menos de 500 dias da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014.

"Na Europa isso é muito importante. A defesa conta muito”, diz Filipe ao FIFA.com. “Estamos crescendo, conseguindo títulos, coisas importantes, e temos que continuar nesse pique. A minha fraqueza era a marcação. Aqui o lateral tem primeiro que defender bem e depois atacar. Acho que foi a característica em que mais evoluí. Melhorei muito e hoje sou um jogador mais completo.”

De prontidão
Ser reconhecido por sua destreza como marcador não é novidade para Miranda. Para conferir, pergunte a qualquer são-paulino, torcedor que o seguiu de perto por cinco anos. Porém, o defensor, também hábil com a bola nos pés, garante que hoje é um jogador ainda superior àquele tricampeão brasileiro. “Sei do meu potencial. Para falar a verdade, já há algum tempo tenho vivido uma fase melhor aqui no Atlético do que no São Paulo, em épocas em que era convocado regularmente. Mas isso da Seleção é feito de ciclos. Você tem que estar pronto”, afirma ao FIFA.com.

A julgar por suas atuações na Espanha, Filipe e Miranda estão prontos para brigar por suas vagas. O Atlético está invicto no Vicente Calderón e não sofre gols em casa desde o dia 11 de novembro. No geral, contando também os jogos na defesa pelo título da UEFA Europa League, foram 25 gols sofridos em 28 partidas. “A ideia é sempre defender forte para, depois, na hora de atacar, poder surpreender”, diz Filipe.

Esse conceito foi ganhando corpo à medida que o time abraçou o trabalho do técnico Diego Simeone. A contratação do argentino na temporada passada marcou uma virada gradual para os colchoneros, culminando com duas conquistas continentais – adicionando a Supercopa europeia aqui – e a competitividade ainda mais intensa neste ano. “Quando ele chegou, o time estava num momento delicado, não se achava em campo. Hoje os jogadores dão mais taticamente. O que ele mais colocou na nossa cabeça é que nosso time é vencedor. O time voltou a ser o Atlético de sempre”, avalia Filipe.

O Atlético é o segundo time que menos perdeu na liga espanhola e, desta forma, consegue se manter a uma distância razoável do quebra-recordes Barcelona. Além disso, em seu dérbi madrileno particular, está acima do Real pela primeira vez em anos. “A gente está num campeonato com duas superpotências. Conseguimos ser campeões da Europa League, e o próximo passo é uma vaga na Champions. Claro que entramos para ganhar sempre, mas quando você tem Barcelona e Real Madrid, num campeonato de longa duração, é preciso ter os pés no chão”, diz Miranda

Tem mais
Enfrentar uma dura competição, para a dupla, não se limita apenas à luta pelo topo na tabela espanhola. Uma vez selecionados por Scolari, eles agora batem de frente com concorrentes de peso e igualmente ansiosos pela chance de se jogar grandes eventos em casa. “Sei que tenho que ir para ficar, não para fazer só um grande jogo. Quero fazer parte de um grupo vencedor”, diz Filipe.

No caso do lateral, isso significa, de certa maneira, novamente enfrentar merengues e culés.  “A disputa é grande na esquerda. Marcelo é referência de ataque no Real, Adriano também está fazendo uma grande temporada no Barça e é um jogador completíssimo. Isso mostra a representatividade do nosso futebol: nos três melhores times da Espanha, os três laterais esquerdos são brasileiros”, afirma.

Não que a vida de Miranda também seja mais fácil. Durante os anos de conquista pelo São Paulo, viu os experientes Juan e Lúcio dominarem a zaga. Hoje não só os veteranos ainda estão em atividade em grandes clubes do país, como há mais gente entrando na discussão, como os mais jovens Thiago Silva, David Luiz e outros. “Com o Lúcio e o Juan, dois caras que tinham seu lugar muito estabelecido há muito tempo, era mais complicado pensar em uma vaga de titular, mas naquela ocasião demonstrei meu valor e tive chances. Agora vou de novo. Para isso, estar numa equipe forte e vencedora só ajuda”, diz o zagueiro.

Ajuda, e Felipão tomou nota. E mais... Posicionados no time titular do Atlético de Madri, Miranda e Filipe Luís ao menos têm uma certeza reconfortante: não são eles quem devem se preocupar em conter Falcao Garcia.