A seguir, o FIFA.com traz a você a segunda parte da entrevista exclusiva com o técnico da Espanha, Vicente del Bosque. A convivência com as críticas da imprensa, as dúvidas no momento de tomar decisões e a complexa situação atual nas eliminatórias para o Brasil 2014 estão entre os temas desta conversa em que não faltou nada.

Você pode conferir a primeira parte da entrevista clicando no link à direita.

FIFA.com: Houve tempo para dúvidas nestes anos de tanto sucesso?
Vicente del Bosque:
Claro, no futebol você tem dúvidas até quando ganha, não? Encaramos a última Eurocopa praticamente desde o primeiro dia sem um centroavante clássico. Preferimos buscar os resultados com um homem que voltasse e colaborasse na criação, mas que tivesse uma boa presença na área. E nesses momentos também tivemos nossas hesitações. É complexo, não acho que alguém possa ter tanta certeza de que tudo o que faz é o melhor. Eu também tenho muitas dúvidas.

Como conviver com as críticas que podem surgir depois de ter ganhado tantos títulos? Na Eurocopa, você recebeu algumas por essa opção tática...
Eu as ouço e as avalio. Não se pode ser indiferente a o que é dito, em algumas coisas é claro que as pessoas têm razão. Mas acontece que agora nós temos uma vantagem, porque sabemos bem como certa situação ocorreu. No dia em que jogamos contra a Itália, foi o (Andrea) Pirlo quem nos levou a pensar naquela solução. E realmente, no dia da final contra os italianos, voltamos a jogar com a mesma equipe do primeiro jogo.

Há algum tempo, você disse que não voltaria a trabalhar com clubes depois de dirigir a seleção. Mantém essa decisão?
Disse isso por uma questão de idade. Tenho 61 anos e falta pouco mais de um ano para terminar meu trabalho aqui na seleção. Vai ser muito difícil, sinceramente não me vejo como treinador aos 70 anos (risos). Por isso, com certeza terminaria aqui.

O trabalho de técnico de clube e de seleção são muito diferentes? Em alguns aspectos, parecem ser duas profissões distintas...
Neste ano, jogamos 16 partidas. É só comparar com as 50 e tantas que disputa um clube. Isso nos oferece uma informação conclusiva. Em um time, existe um dia a dia que permite ir melhorando a equipe gradualmente em alguns aspectos. Aqui, o contato é menor. Em um time, há mais atrito com os jogadores, pode haver mais conflitos. Aqui na seleção, é mais difícil que isso aconteça. Pode haver cara feia porque determinado jogador não jogou, alguns podem se chatear, mas não existe esse contato diário que complica muito sua vida. Essas são as maiores diferenças.

Qual é a primeira coisa que você diz a um jogador que chega a um grupo tão vencedor como o da atual seleção espanhola?
Na primeira preleção, que é o primeiro contato que tenho normalmente, sempre digo ao novato que sinta à vontade. Digo que ele vai estar bem acompanhado, que não vai ter nenhum problema e que vai se integrar em seguida. É uma simples formalidade, porque sei que os jogadores fixos ou mais frequentes tratam os novatos como se eles estivessem há muito tempo no elenco. Aliás, todos os que chegam dizem isto. Não temos grandes problemas.

Nessa primeira conversa você já sabe dizer se os novos jogadores estão prontos para conviver com a pressão que representa vestir esta camisa?
Sim, acho que todos estão. Eles já não são garotos. São jovens, mas já estão escolados no futebol. E não é só isso, nunca tivemos ninguém que chegasse a este grupo e ficasse nervoso. E os mais jovens, se são bons, é porque têm atrevimento. Se fossem tímidos, custaria muito para eles. Têm certa maturidade para sua pouca idade.

Chama a atenção a velocidade com que alguns jogadores se adaptam. Jordi Alba, por exemplo, parecia estar na equipe a vida inteira...
Isso acontece com alguns jogadores porque eles aceitam rapidamente sua função. É o melhor que um rapaz tão jovem pode fazer: mostrar respeito pelos mais experientes, com a timidez e as atitudes que lhe permitem ter o reconhecimento dos demais. E assim vamos vendo que podemos utilizá-los a qualquer momento. Eles conquistam a posição, nós apenas os convocamos. O caso do Jordi Alba é um exemplo: precisamos estar prontos para quando alguém como ele surgir. Com ele, isso aconteceu na posição de lateral, onde o (Joan) Capdevila havia tido um desempenho extraordinário. Apostamos nele, que respondeu de maneira incrível.

Fale um pouco sobre as eliminatórias para o Brasil 2014. A Espanha está no grupo com menos selecionados do torneio e com ninguém menos do que a França. Você imagina uma Copa do Mundo da FIFA sem o atual campeão?
As regras são essas e é preciso aceitá-las. Ganhamos duas partidas e empatamos uma. Portanto, faltam 15 pontos por disputar. É verdade que temos que ir jogar na França, mas também há outros adversários que podem fazer ambos perderem algum ponto pelo caminho. Algumas seleções nos fizeram sofrer muito, como é o caso da Geórgia, a quem derrotamos nos momentos finais. A classificação ainda não está definida.

Ficou mais complicado enfrentar países que não são considerados uma potência?
Claro, é cada vez mais difícil. Os adversários nos conhecem muito bem e já sabem perfeitamente como jogamos. O importante é acreditar no que estamos realizando, e que os jogadores tenham paciência para furar qualquer sistema defensivo. Não podemos pensar que precisamos ganhar nos primeiros dez minutos.