Depois de passar quase 18 meses intacta, a série invicta da Juventus no Campeonato Italiano chegou ao fim diante da Internazionale de Milão. Durante esse tempo, o técnico Antonio Conte e seu assistente Angelo Alessio devolveram à Velha Senhora o protagonismo no futebol de seu país e fizeram o nome do time brilhar novamente.
O total final de partidas sem perder? 49. Ainda que seja uma façanha extraordinária, em um esporte que exalta marcas e cobiça recordes, essa cifra é dolorosamente distante da meia centena – principalmente depois de tanto tempo de trabalho duro. No entanto, a tradicional equipe italiana está longe de ser a primeira a tropeçar na barreira final de uma corrida rumo a um objetivo notável.
Basta voltar oito anos no tempo para encontrar um time que derrapou exatamente no mesmo ponto dos alvinegros italianos. Foi o Arsenal de 2004, que desperdiçou a chance de chegar aos 50 jogos de invencibilidade impedido pelo Manchester United – então, seu principal rival na briga pelos títulos. O gol de Wayne Rooney no dia de seu 19º aniversário garantiu a vitória por 2 a 0 para o clube do norte da Inglaterra.
Isso aconteceu apenas dois anos depois de o próprio clube londrino não conseguir quebrar uma das marcas mais persistentes do futebol inglês. O Arsenal ficou a um gol de registrar o maior número de triunfos consecutivos no torneio nacional – feito que outras duas equipes tampouco conseguiram ao longo da história. Um empate com o West Ham deixou a equipe do técnico Arsène Wenger com as mesmas 14 vitórias consecutivas que o Manchester United obteve em 1905, e mais tarde Bristol e Preston North End repetiram.
Outro time que precisou se contentar em dividir um recorde nacional foi o Deportivo Lara, da Venezuela, que neste ano parou no último degrau antes de superar a série invicta obtida pelo Deportivo Portugués 45 anos antes. Com um gol de Carlos López no segundo tempo, o Deportivo Anzoátegui venceu o Lara e o deixou com 28 partidas sem perder. No entanto, a torcida do clube teve o consolo de ver sua equipe vencer os seis últimos compromissos da temporada e conquistar seu primeiro título nacional.
Vários jogadores também chegaram bem perto de alcançar alguns marcos. Um dos mais conhecidos é o atacante inglês Gary Lineker. A apenas um gol de se tornar o maior artilheiro da seleção inglesa ao lado de Bobby Charlton, com 49, o atacante decidiu cobrar com uma cavadinha um pênalti em um amistoso contra o Brasil e se deu mal.
Depois de passar a Eurocopa 1992 em branco, ele perdeu a chance de ser lembrado por mais esse recorde. Graças a sua falta de pontaria, um Charlton um tanto satisfeito ainda conseguiu ganhar dinheiro para boas causas. "Quando o Gary Lineker começou a se aproximar, todo mundo queria me entrevistar sobre isso", disse o campeão mundial de 1966. "Ganhei um bom dinheiro para instituições de caridade, porque todas as vezes que eu falava sobre o Gary, pedia ao jornal ou à revista que fizesse uma doação. No fim, ele perdeu a chance de empatar comigo por um gol, e acho que uma pequena parte de mim ficou secretamente feliz de que meu recorde se manteve."
Os artilheiros do quase
Outro artilheiro histórico chegou muito perto de superar uma façanha que hoje dura 83 anos. Gunnar Nordahl foi um dos maiores goleadores a jogar no futebol italiano. Em 1949-50, sua primeira temporada completa no Milan, ele registrou a incrível marca de 35 gols, mas ficou a um de superar o feito de Gino Rosetti, alcançado em 1928-29. O mais perto que ele voltaria a estar disso seria no ano seguinte, quando balançou as redes 34 vezes. De lá para cá, ninguém esteve tão perto da marca novamente.
Gabriel Batistuta é outro atacante que brilhou no Campeonato Italiano, mas foi pela Argentina que ele mostrou sua hegemonia como artilheiro. Quarta-feira passada, porém, ele quase a perde – e tem de agradecer à defesa da Arábia Saudita por isso não ter acontecido. Lionel Messi já igualou os 12 gols que o ex-craque da Roma e da Fiorentina marcou no mesmo ano pela Alviceleste. No entanto, graças à firmeza da zaga saudita, esse marco ainda perdurará por ao menos mais 12 meses.
Já o italiano naturalizado argentino Delio Onnis deixou de arredondar uma cifra muito mais significativa por falta de apenas um chute certeiro. Seu total de 299 gols no Campeonato Francês entre 1971 e 1986 permanece como recorde no país. Porém, uma última temporada afetada pelas lesões o impediu de completar as três centenas pela menor das contas.
Nesse meio tempo, ele foi cinco vezes Chuteira de Ouro e três vezes vice-artilheiro na França, vestindo as camisas de Stade Reims, Mônaco, Tours e Toulon. Ainda assim, Onnis garantiu que não pensa na questão como uma oportunidade perdida. "Não, não é assim que eu vejo. E, de qualquer jeito, não gosto de números redondos. Então, tudo bem!", afirmou.
De zagueiro é para lamentar
Mas não só os atacantes argentinos ficam de olho nos recordes diante das metas adversárias. Há também um zagueiro central do país sul-americano que ficou perto de uma marca incrível, chegou a sentir o gostinho de alcançá-la antes de o juiz anular o gol. Atual presidente do River Plate e ex-capitão de sua seleção, Daniel Passarella já contabilizava 99 tentos com o clube quando teve a oportunidade de arredondar a marca em sua segunda passagem - e logo no clássico com o Boca Juniors.
Em fevereiro de 1989, com o placar igual, Passarella acertou uma fantástica cobrança de falta, mas o árbitro Juan Bava anulou o gol por uma suposta falta na grande área. Mais tarde, o juiz admitiria que sua decisão havia sido incorreta e lamentaria ter impedido o gol que valeria a vitória no Superclássico. No entanto, como se isso fosse pouco, Bava incrivelmente acabaria por expulsar o campeão mundial de 1978 no dérbi portenho seguinte.
"O cartão vermelho no jogo de despedida de Passarella não foi o pior. Eu anulei aquele que teria sido seu centésimo gol", revelou Bava posteriormente. "Cometi um erro. E ele me dizia: 'O que você está fazendo? Está louco?' Mas lhe disse que não poderia voltar atrás ou a torcida nos mataria. Reconheci depois que foi um equívoco e lhe pedi desculpas. Eu o respeito e o admiro por ter sido o 'Grande Capitão' da Argentina. Ele suava a camisa e foi um dos grandes jogadores de sua era."
Há também aqueles poucos azarados que ficaram a apenas um jogo de sua centésima apresentação pela seleção. Enquanto Steven Gerrard foi notícia por se tornar o mais recente atleta a chegar à centena de partidas por seu país, pense em Henri Camara e Oswaldo Sánchez, que vestiram a camisa de Senegal e México, respectivamente, 99 vezes.
Carles Puyol também tem o mesmo número de jogos pela Espanha. Ele, porém, ainda aguarda esperançosamente para ver se entra para o "clube dos cem" ou se terá de se contentar em formar um trio com o senegalês e o mexicano.
