Por mais curioso que possa parecer, a Indonésia foi o primeiro país da Ásia a se classificar para uma Copa do Mundo da FIFA. No entanto, o país só chegou à França 1938 pela porta dos fundos, beneficiado pelas desistências de Japão e Estados Unidos de enfrentá-lo na repescagem pela disputa de uma vaga.

Contudo, a aventura das Índias Orientais Holandesas – como o país era chamado à época, quando ainda era uma colônia dos Países Baixos – em terras francesas durou apenas 90 minutos, porque os comandados do técnico Johannes van Mastenbroek foram logo goleados pela Hungria por 6 a 0 e, assim, eliminados. Nenhum daqueles jogadores jamais voltou a ser convocado para a seleção indonésia, que se tornou a única na história a ter disputado apenas um jogo em Copas do Mundo da FIFA.

A mesma falta de alternativas, porém, garantiu ao arquipélago do sudeste asiático mais uma chance em outra importante competição. Quando o Torneio Olímpico de Futebol Masculino de Melbourne 1956 foi assolado por várias desistências, a Indonésia acabou sendo convidada a participar por sua proximidade geográfica com a Austrália.

E todo mundo pensava que sua estreia, já diretamente na segunda fase, seria sua única apresentação no evento. Afinal, os indonésios teriam pela frente o excelente selecionado da União Soviética, formado por jogadores excepcionais como Lev Yashin, Igor Netto, Eduard Streltsov e Valentin Ivanov. Essa mesma equipe havia eliminado a Alemanha Ocidental, então campeã mundial, na primeira fase da competição e quatro anos depois se tornaria campeã da edição inaugural da Eurocopa.

Mesmo com essa evidente diferença, a sólida defesa soviética não tardou em levar um grande susto, quando Rusli Ramang, diminuto meia-atacante da Indonésia, se livrou de dois marcadores e obrigou o grande Yashin a desviar uma bola com a ponta dos dedos. E, apesar de ter monopolizado a posse de bola a partir daquele momento, a equipe do técnico Gavril Kachalin acabou frustrada por sua incapacidade de balançar a rede dos azarões e pela habilidade de Ramang nos contra-ataques. O indonésio de 32 anos quase foi responsável por uma zebra enorme aos 39 minutos do segundo tempo, não fosse outra maravilhosa defesa daquele que é considerado um dos maiores goleiros da história do futebol.

Se os soviéticos não conheciam Ramang antes daquele jogo, com certeza voltaram toda sua atenção para o atacante no jogo-desempate. Tanto que Kachalin mandou Netto, o principal criador da equipe, recuar para anular o camisa 11 da Indonésia. Funcionou: a União Soviética acabou vencendo por 4 a 0.

O fato de os soviéticos terem levado o ouro em Melbourne aumentou o mito que envolveu aquela épica campanha indonésia, cujo primeiro jogo continua sendo um dos resultados mais surpreendentes do Torneio Olímpico de Futebol Masculino. No entanto, aquilo foi apenas o ápice da melhor fase da história do futebol do país, graças em grande parte a Ramang.

Veloz por natureza e com um exímio controle de bola desenvolvido desde a infância, tempo em que fazia embaixadinhas com laranjas, o atacante passou a marcar gols com enorme regularidade desde que estreou com a camisa da Indonésia em 1952. Ramang conseguiu nada menos do que 19 gols em apenas seis jogos – incluindo dois de bicicleta, sua marca registrada – na excursão que sua seleção fez pelo Extremo Oriente no ano seguinte, quando a Indonésia perdeu apenas para a Coreia do Sul.

Mais tarde, Ramang marcou duas vezes em dois dos três jogos contra a China pelo torneio classificatório asiático para a Suécia 1958. A seguir, porém, o país desistiu de tentar uma vaga no Mundial ao se recusar a enfrentar Israel por razões políticas. Entretanto, pouco antes de a disputa daquele torneio começar, os indonésios conseguiram uma pequena consolação ao derrotar a Índia por 4 a 1 na decisão do terceiro lugar dos Jogos Asiáticos.

Em 1959, a Alemanha Oriental viajou até Jacarta, capital da Indonésia, prevendo uma vitória fácil diante da seleção anfitriã, mas foi surpreendida quando Ramang abriu o marcador com um chute forte. Mais tarde, após uma corrida irrefreável por todo o campo, ele armou a jogada do gol de Endang Witarsa, que garantiu o empate em 2 a 2.

Um ano depois, os indonésios estrearam no Torneio da Independência da Malásia perdendo para os sul-coreanos, mas, inspirados por Ramang, fizeram 20 gols ao vencer os quatro jogos seguintes e terminaram de novo com o bronze.

Essas são apenas algumas das inúmeras ocasiões em que a torcida indonésia ou, mais especificamente, a do Makassar, clube no qual Ramang passou a maior parte de sua carreira, foram à loucura com aquele jogador que teve que viver de subempregos, quase na miséria, apenas para poder se dedicar ao esporte que ele adorava.

E, apesar de o maior futebolista da história da Indonésia ter falecido há exatos 25 anos nesta quarta-feira, 26 de setembro de 2012, continua valendo a pena contar sua história.