O ano de 1960 foi histórico para o futebol sul-americano, pois marcou a inauguração do torneio que é hoje conhecido como Copa Libertadores da América, uma das competições de maior prestígio do mundo todo. O primeiro vencedor do troféu então conhecido como Copa dos Campeões foi o Peñarol, um exemplo clássico da garra uruguaia.
Além de fomentar a fama "copeira" da equipe aurinegra, o título também valeu vaga na primeira Copa Intercontinental contra o poderoso Real Madrid, que vinha de um pentacampeonato europeu e contava com astros como Alfredo Di Stefano, Ferenc Puskás e Paco Gento.
"Aquela grande equipe conseguiu nos segurar em Montevidéu e venceu fácil em Madri", recorda ao FIFA.com o ex-atacante Luis Cubilla, um dos líderes do time uruguaio ao lado do companheiro de ataque Alberto Spencer e do zagueiro Néstor Gonçalvez. "Eram outros tempos. Levamos mais de 30 horas para chegar à Espanha depois de muitas escalas, mal alimentados e mal dormidos. Tivemos muitas desvantagens. Era tudo novo para nós."
Mesmo após a derrota de 5 a 1 na capital espanhola, o presidente Gastón Güelfi manteve o otimismo. "Na próxima temporada vamos ser campeões da América e ganhar a Copa contra os europeus", afirmou o mandatário do Peñarol, talvez ainda sem imaginar que realmente teria o sonho realizado no dia 19 de setembro do ano seguinte.
O caminho rumo à consagração
Para cumprir com o objetivo máximo, o clube fez grandes contratações no início de 1961, com destaque para José Sasía e o peruano Juan Joya, ambos atacantes provenientes do futebol argentino. "Eles agregaram poder ofensivo sem que a equipe perdesse equilíbrio", explica Cubilla. "Já éramos bons, mas com eles ficamos ainda melhores."
O hoje treinador de 72 anos relembra perfeitamente aquela edição da Libertadores. "É verdade que apenas oito equipes participaram, mas todas as partidas foram acirradas. Nas semifinais eliminamos o Olímpia, vice-campeão do ano anterior, e na final ganhamos do Palmeiras, que vinha jogando muito bem."
Após vencer por 1 a 0 em casa, com gol de Spencer, o Peñarol segurou um empate em 1 a 1 em São Paulo, gol de Sasía. Assim, o time uruguaio conquistou o direito de revanche contra o campeão europeu, um desafio sob medida para um dos clubes mais vitoriosos da história do futebol mundial.
Um adversário de peso
Contra todas as probabilidades, o rival na Copa Intercontinental não foi o Real Madrid e nem mesmo o Barcelona, carrasco dos merengues nas oitavas de final da Copa dos Campeões da Europa. O Barça de Ladislao Kubala, Luis Suárez e Sándor Kocsis havia sido derrotado pelo surpreendente Benfica na final em Berna.
No comando da equipe portuguesa estava o revolucionário treinador húngaro Béla Gutmann, considerado um dos precursores do esquema 4-2-4. No plantel já surgia um jovem moçambicano de apenas 17 anos chamado Eusébio, mas além dele ainda havia os talentosos Coluna, José Augusto e Simões, todos futuros craques da seleção portuguesa terceira colocada na Copa do Mundo da FIFA 1966.
"Eles apareciam como favoritos, e, apesar de o Eusébio estar só começando, jogar contra ele era como enfrentar agora o Messi", recorda Cubilla. "Mas antigamente não era possível estudar o adversário, e nós não éramos uma equipe qualquer. Sabíamos pelo que jogávamos e queríamos que nos respeitassem. Então, viajamos para a primeira partida convencidos de que poderíamos dar trabalho."
Consagração carbonera
Cubilla não se lembra com detalhes do jogo de ida, vencido pelo Benfica em Lisboa por 1 a 0 com gol de Coluna. Para a revanche, 13 dias depois em Montevidéu, Roberto Scarone recuou o meia Ernesto Ledesma para fazer marcação pessoal no autor do gol, anulando assim o principal armador do time português. No ataque, deu tudo certo para o Peñarol, que venceu por 5 a 0 com gols de Sasía, Joya (duas vezes) e Spencer (duas vezes).
Como não havia o critério do saldo de gols, foi marcado um jogo de desempate para o dia 19 de setembro, mais uma vez no Estádio Centenário lotado. "Sabíamos que não seria fácil, porque eles já estavam aclimatados", narra Cubilla. "Houve entradas duras e nos dissemos algumas coisas, mas era normal para aquela época."
O Peñarol fez o primeiro com Sasía, mas Eusébio, de pênalti, marcou o seu primeiro gol em uma competição internacional e empatou o jogo. Outro tento de Sasía, no final do primeiro tempo, devolveu a vantagem aos uruguaios, que seguraram o resultado e garantiram o título.
"Para nós foi uma façanha vencer o Benfica, mas isso não quer dizer que foi por acaso", conclui Cubilla. "Vencemos merecidamente. Éramos uma equipe vitoriosa e que depois continuou obtendo grandes êxitos. Naquela época, para ganhar era necessário jogar bem, mas também ter raça. E raça não faltava ao Peñarol."
