Não importa a situação e o assunto – ou os assuntos, no plural -, conversar com Carlos Alberto Parreira sobre futebol significa ir fundo, seja nas análises de quem conhece muito do jogo ou nas histórias de quem viveu, entre tantas outras coisas, seis Copas do Mundo como treinador. Durante sua estada no Reino Unido como membro do Grupo de Estudos Técnicos da FIFA para os Torneios Olímpicos de Futebol, o brasileiro conversou com o FIFA.com sobre o título mundial de 1994 e, principalmente, sobre o que sempre fez a diferença para ele: não desistir de fazer as coisas do seu jeito.

De maneira geral, qual foi sua opinião a respeito do Torneio Olímpico de Futebol? Houve alguma variação tática digna de nota?
O nível técnico, no geral, foi bom. Se há algo a destacar – embora isso venha sendo uma constante há algum tempo – é o desenvolvimento técnico do futebol asiático, agregando qualidade individual a uma organização tática e um preparo físico que sempre foram invejáveis. Taticamente, houve uma certa padronização do sistema que é mais usado no mundo há quase 60 anos, que é o 4-4-2. Quase todas as equipes jogam com duas linhas de quatro jogadores e dois atacantes: ou com ambos enfiados, ou um mais recuado. A única equipe a jogar de forma ligeiramente foi o Uruguai, que usou o diamond shape, com um só volante de contenção, dois meio-campistas abertos e um meia de ligação servindo o (Edinson) Cavani e o (Luis) Suárez.

E a Seleção brasileira?
Individualmente, era a melhor equipe dos Jogos, porque, pela fase de transição, trouxe praticamente o time que deve disputar a Copa: com um jogador que faz a diferença, como o Neymar, além de Marcelo, Thiago Silva, Oscar...

O Oscar, para você, é o camisa 10 da Seleção para a Copa?
É um jogador com o qual a gente vinha sonhando há muito tempo. Muito tempo mesmo, desde antes da Copa de 2010; há anos sonhávamos em ter alguém assim no time. Ele veio preencher essa lacuna que esperávamos que fosse preenchida pelo Ganso – que, por causa das lesões, no entanto, não engrenou. A lacuna desse meia de ligação, que faz o time girar, que pensa, organiza e participa o tempo todo.

Como você avalia a geração brasileira de jogadores que chegarão ao seu auge em 2014? Como se compara com gerações anteriores?

A avaliação, no final das contas, é feita na competição. No Brasil, você sempre tem talentos, promessas... em 40 anos de futebol já ouvi dezenas de vezes que alguém “vai ser o novo Pelé” e que depois fica no meio do caminho. Isso vale para uma geração toda: ganha-se no campo, na hora. Esta geração promete e é talentosa, mas só vamos poder checar de verdade em 2014. É, talvez, uma das mais talentosas que tivemos nos últimos tempos, considerando a presença do Neymar, que é um fora de série.

Você é um dos exemplos mais claros de quanto a vitória numa Copa do Mundo faz diferença na carreira de alguém, não? De quanto isso define seu perfil?

Sem dúvida. A Copa do Mundo é o ápice, o ponto máximo da carreira de um treinador ou jogador. Você pode ter feito milhões de coisas boas, outras erradas; ter tido sucessos e fracassos. O que marca é a conquista de uma Copa. E eu tenho sentido isso nos últimos anos: é impressionante como as pessoas te tratam, respeitam, olham de modo diferente. Quando me apresentam: “Parreira, campeão do mundo”. Ganhamos o Mundial há 18 anos, e outro dia mesmo fui parado duas vezes na rua, por ingleses, me cumprimentando e dizendo “you’re a legend” (“você é uma lenda”). É uma estampa. Um rótulo que fica, com orgulho, para o resto da vida.

Muita gente tratava com certo desdém aquela equipe de 1994, mesmo depois de ter sido campeã. Ainda sente isso?

O tempo passa e ninguém lembra disso ou daquilo. O que marca é o titulo e ponto. Um título que quebrou um hiato de 24 anos sem ganhar; sem sequer chegar à final. Se você olhar para trás, o time era muito bom: o Taffarel está entre os melhores goleiros do Brasil de todos os tempos. O Jorginho, a mesma coisa. O Aldair, o mesmo. O Branco também – não quero comparar com Nilton Santos, que foi um fora de série -, mas está entre os melhores laterais esquerdos que tivemos. O Dunga foi um bom meio-campo naquela função de organizar e marcar. E, além disso tudo, Romário e Bebeto. O time era bom tecnicamente. Por isso ganhou. Tinha qualidade e tinha os outros elementos fundamentais:  unidade, trabalho da comissão técnica, jogadores, planejamento.

Esses 24 anos sem título geraram uma pressão gigantesca, não?

Enorme. Nosso maior adversário foi essa pressão. Era incompreensível para nós: a gente pegava os jornais, olhava a imprensa e pensava: “Meu Deus do céu, não somos campeões há 24 anos e esse pessoal, em vez de ajudar, só está atrapalhando; querem destruir todo mundo”. Por sorte, a comissão era muito experiente – Zagallo, eu, Moracy Sant’Anna, Admildo Chirol, Américo Faria – então a gente não se deixava influenciar pelas críticas. Tínhamos nosso caminho; nossa maneira. Se existe algo de que temos orgulho nessa vitória é de ter feito tudo do nosso jeito. Em função disso, eu fiz uma palestra para a UEFA em 1997 ou 98 para todos os técnicos europeus. O treinador campeão do mundo era o convidado especial. Eu coloquei na apresentação os dez principais pontos: comprometimento, o orgulho de vestir a camisa amarela, etc. E um principal: incutir nos jogadores a ideia de que a Copa do Mundo é uma competição curta em que não se pode errar. Então, nós tínhamos um lema: eficiência máxima e erro zero. O objetivo era um só: voltar a ser campeão; o grupo foi mentalizado para isso. Por isso não nos deixávamos afetar pelas críticas. Naquela conferência, depois de apresentar, fizeram um vídeo e distribuíram pelo mundo, com minha fotografia e embaixo o título que eles deram: “My Way”, como a música do Frank Sinatra. (risos)

Se não houvesse a pressão tão grande de todo esse tempo sem título, você teria feito algo diferente? O time teria jogado de outra forma?

Não, não. Criticaram tanto a equipe que, depois que ela ganhou, ficou-se sem ter o que falar. Diziam: “ganhou, mas não jogou bonito”. O que é jogar bonito? Joga-se com eficiência, que é saber defender e atacar para ter resultado. E isso tivemos: terminamos invictos. E o time não era europeu; muito pelo contrário. Isso é uma idiotice que se criou. Nunca foi. O time não foi formado com nenhum principio europeu. Enfatizamos a escola brasileira: jogávamos com uma linha de quatro, que é característica do futebol brasileiro desde sempre; marcação por zona e posse de bola, toque de bola. Essas foram as características. Na hora de defender, tínhamos oito jogadores atrás, como havíamos feito em 1970 com o Zagallo: quando se perdia a bola, voltavam todos. Éramos oito, porque o Romário e o Bebeto eram jogadores especiais, que nunca foram treinados para ajudar na defesa. Os europeus ficaram surpresos com essa organização, com o preparo físico. A gente não levou sustos na Copa do Mundo. Sabe o que é jogar uma Copa sem levar sustos? Sem ser pressionado? Não teve um jogo que o Taffarel tenha sido nosso melhor jogador, porque o time era sólido defensivamente.

Quando você fala da pequena margem de erro de uma Copa, faz pensar que uma decisão brusca, como a sua de tirar o Raí da equipe titular, seja das mais difíceis de se tomar. São mesmo?

Claro. Você tem que estar seguro e arcar com as consequências. O Raí era nosso grande nome, nosso capitão. Ele sofreu com a transição: foi para o futebol europeu em 1993, para o Paris Saint-Germain,, ficou sem jogar, não teve férias durante dois anos, até a Copa. Isso o afetou demais. Quando voltou, mesmo sem jogar bem, eu o coloquei como titular. Ele começou assim. Até que, depois da fase de grupos, decidimos colocar como titular o Mazinho, que era um polivalente. Contra os EUA, nas oitavas, ele jogou em três posições: quando Leonardo foi expulso, ele foi para a lateral esquerda, depois jogou na direita e acabou o jogo de novo no meio, com Mauro Silva e Dunga, onde ele foi titular até o fim da Copa. Tecnicamente, era muito bom, mas era um meia que não tinha vocação ofensiva. E só não entrou um jogador com característica mais ofensiva porque a gente não tinha na época. O mais ofensivo era o Raí, seguido do Zinho, que era o outro titular. Tanto que, se você vê os jornais da época, não tem uma reclamação; um clamor por esse ou aquele não ter sido chamado. O Neto era um bom meia, mas não se firmou na Seleção. O Rivaldo a gente chegou a testar: a estreia dele na Seleção foi conosco contra o México. Ele foi bem, mas não engrenou; não nos deu segurança para ser chamado ali. Depois, claro, ele cresceu muito e foi importantíssimo na conquista de 2002.

O que significa para o treinador, exatamente, esse “se firmar na Seleção”? É diferente observar um jogador especificamente com a camisa da Seleção?

É fundamental. Muda muito. Mudam o padrão, as exigências, as responsabilidades, a qualidade técnica, o seu grau de cobrança, porque o mundo todo está te olhando. Alguns não ligam e até reagem bem e outros sentem o peso da camisa. O Branco, por exemplo: em 1994, ele vinha de um período de lesões, havia acabado de voltar ao Brasil, estava parado no Corinthians. Mas ele não só havia sido campeão brasileiro comigo no Fluminense em 1984 como já havia jogado duas Copas espetaculares em 1986 e 1990. Ele entrou naquelas Copas como se estivesse jogando no quintal de casa, sem pressão. Isso conta. Por isso não tive dúvidas em chamá-lo. E, quando foi preciso, ele apareceu: não só marcou aquele gol decisivo contra a Holanda como, naquele dia, ainda anulou o (Marc) Overmars, que era o jogador mais perigoso deles.

Às vezes, também as convicções acabam não dando certo? Foi assim em 2006?
O que acontece é que, às vezes, as situações se impõem, de uma certa maneira. Quer dizer: na medida em que as coisas vão dando certo, fica difícil você fazer muitas alterações, porque, afinal, os resultados estão vindo. Acho que foi um pouco o que aconteceu com a equipe da Copa de 2006: a gente começou a tentar fazer funcionar um esquema com quatro jogadores que praticamente nunca tinham a responsabilidade de marcar: Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. Era um ataque tão talentoso e que, durante muito tempo, deu tão certo – como na Copa das Confederações, com o Robinho no lugar do Ronaldo -, que não havia como criar muitas dúvidas. Mas, pelas razões que todos já comentaram muitas vezes – que havia jogadores que não estavam na forma ideal, que faltou um pouco o comprometimento necessário num torneio assim -, acabamos não repetindo na Copa o desempenho que vínhamos tendo. Às vezes é assim: quando uma ideia começa a dar certo, ela te leva junto, para o bem ou para o mal.

Quando aconteceu isso de forma positiva?

Se você pensar a equipe do Corinthians de 2002, por exemplo. Foi no começo do trabalho, num jogo contra a Portuguesa, se não me engano, que o Renato se lesionou. Aí, então, pela circunstância, resolvi testar algo que havia pensado antes: coloquei o Deivid no lugar dele, deixei o Gil aberto pela esquerda e pedi para o Leandro jogar aberto pela direita. Aí o meio-campo ficava com só três jogadores, mas que sabiam jogar e marcavam – Fabrício, Vampeta e Ricardinho. O time jogou bem, a gente virou aquela partida e, a partir de então, virou a cara do time que ganhou a Copa do Brasil e o Rio-São Paulo. Era um time que tinha qualidade para tocar a bola muito tempo e que, quando chegava, o fazia com velocidade e força. Era equilibrado. Então, no final das contas, ainda que não exatamente da forma planejada no princípio, as coisas funcionavam do meu jeito. O importante é ser sempre fiel a isso.