Foi onde um reinado teve início, lembra Pelé, no gramado do estádio sueco Rasunda: “Tudo o que consegui na minha vida começou aqui. Tinha 17 anos e não podia imaginar que, a partir daquela final contra a Suécia, chegaria tão longe”.

Com o então adolescente Edson Arantes do Nascimento e outras figuras legendárias, outro mito era confirmado naquele mesmo palco, o de uma encantadora Seleção, que, após algumas campanhas promissoras nas Copas do Mundo da FIFA anteriores, levantou a Taça Jules Rimet pela primeira vez. E o que importava também era a forma como fazia, com lances de efeito e goleadas estonteantes que serviriam de prenúncio para as muitas conquistas que viriam. “Naquela época, não era só o futebol brasileiro que era desconhecido. O Brasil também. Tenho muito orgulho de ter ajudado a tornar o Brasil conhecido em todo o mundo a partir de 1958”, afirma o já coroado Rei.

Pelé, acompanhado por Pepe, Mazzola e Zito e outros oito jogadores suecos que disputaram a final do Mundial há 54 anos, se reuniram para um reencontro emocionante nesta terça-feira. Na quarta, as atuais versões de suas seleções, com craques como Neymar e Zlatan Ibrahimovic, entram em campo para a última partida em um estádio marcante para o futebol brasileiro, antes de sua demolição.

A história sendo feita
A primeira edificação do Rasunda tinha capacidade para 12 mil espectadores, erguida em 1910. Sua atual construção data de 1937, sendo reformada para a Copa do Mundo da FIFA 1958 e, depois, completamente repaginada para a UEFA Euro 1992 – três anos mais tarde, acolheria também a Copa do Mundo Feminina da FIFA. O estádio tem a fama de colocar os espectadores quase dentro de campo. Um privilégio de que desfrutaram os 49.737 torcedores daquela tarde de 29 de junho de 1958. 

A final foi a oitava partida que o estádio recebeu no torneio, a segunda do Brasil, que havia goleado ali a França por 5 a 2, pela semifinal, com direito a mais um gol do implacável artilheiro Just Fontaine. Coincidentemente, o placar seria repetido na decisão, na qual Pelé realizou um dos lances mais memoráveis do futebol ao aplicar um lençol sobre Bengt Gustavsson e bater de sem-pulo para fazer o terceiro de sua equipe.  “O que lembro é que foi um dia muito bonito, uma grande festa e que o Brasil ganhou porque era melhor do que nós. Pelé me deu muito trabalho, ele dançava na minha frente”, afirma Gustavsson, presente no reencontro promovido pela Federação Sueca. 

Uma festa
Além do volante, estavam presentes: o zagueiro Reino Börjesson, o meio-campista Sigvard Parling, o ponta Kurt Hamrin e o atacante Agne Simonsson, que foram titulares, além dos reservas Ake Johansson, Owe Ohlsson e Bengt Berndtsson. Os suecos tinham em mãos fotos e recortes de jornal da época, em que nomes como Garrincha, Didi, Vavá, Gilmar e Zagallo também ganhavam destaque. “É emocionante voltar, ver que o estádio está conservado, do mesmo jeito, e relembrar aqueles momentos”, afirma o volante Zito, um dos líderes daquele esquadrão e capitão do Santos que marcou época nos anos 60. 

Foi uma cordialidade e afetividade que repetiram os sentimentos vividos pelos personagens em 1958, na cidade Solna. Mazzola, que havia começado o torneio como titular e acabou perdendo a posição, relembra, por exemplu, um episódio marcante na comemoração brasileira: “Assim que o juiz apitou pulamos para o gramado para abraçar e comemorar com os companheiros. Vi quando o Mário Américo, o massagista, roubou a bola do juiz e saiu correndo. O público sueco vibrou e aplaudiu até o Mario sumir para o vestiário”.

“Temos de agradecer a Deus por estarmos vivos e aqui. Muitos dos jogadores já se foram, mas tenho certeza de que estão tão felizes quanto a gente”, diz Pelé. “Agradeço de todo coração ao povo sueco, pelo carinho que nos deu naquela Copa. Eles gostaram tanto da Seleção, que passaram a torcer para o Brasil. Em nome da presidente Dilma, convido a todos para irem ao Brasil em 2014 assistir à nossa Copa. Só não vai dar para ver a Suécia campeã.”