"Não sou técnico nem mágico, essa é a verdade", prevenia o italiano Marco Simone em setembro de 2011, quando assumiu o comando do Monaco, então na 18ª posição da segunda divisão francesa. "Estaria mentindo se dissesse o contrário. Mas, depois de 18 anos como profissional, conheço o futebol. Tenho condições de aperfeiçoar a equipe e tirar o melhor de cada jogador."

E o italiano realmente não chegaria a fazer milagre. O Monaco terminou a temporada na oitava colocação, mas não parou de subir nem de produção nem na tabela, apresentando um futebol espetacular e rigorosamente ofensivo – um estilo à imagem do técnico. Para a surpresa geral, no entanto, Marco Simone acabou desligado do cargo. Assim foram seus primeiros passos como treinador.

Durante toda a carreira, Simone nunca deixou de agraciar os torcedores com um futebol técnico e repleto de gols. Do Milan ao Paris Saint-Germain, passando pelo Monaco, o atacante sempre deixou boas lembranças por onde passou. Com exclusividade para o FIFA.com, o italiano relembrou seu tempo de jogador e falou sobre a nova vida de técnico.

FIFA.com: Você acaba de passar por sua primeira experiência como treinador. Ela foi tão boa quanto sua época de jogador?
Marco Simone:
O cargo de técnico é muito intenso. O trabalho não termina com os treinos. Ele continua durante o almoço, à tarde e à noite. Você sempre tem jogos para os quais se preparar, adversários para estudar, não para nunca. Mas, na verdade, as duas funções são muito próximas. E devo confessar que a sensação que tinha quando um de meus jogadores marcava o gol da vitória era idêntica à que sentia quando eu mesmo balançava as redes.

Você assumiu o comando do Monaco quando o clube estava na 18ª colocação e terminou na oitava. Está satisfeito com o trabalho que realizou por lá?
Minha situação pessoal estava ligada de um lado à qualidade do futebol proposto pela minha equipe e, do outro, aos resultados. Quanto ao desempenho, estou ciente de que preciso melhorar. Mas estou satisfeito considerando o fato de que foi minha primeira experiência na função. No geral, o balanço foi positivo.

Você já esteve sob o comando de grandes treinadores, como Arrigo Sacchi, Fabio Capello, Alberto Zaccheroni e outros. Em quem você mais se espelha?
Eu diria que no Arrigo Sacchi e no Fabio Capello, com uma ligeira preferência pelo primeiro. Para ele, a tática é a base de tudo. Os treinos com ele se resumiam a isso. Trabalhávamos intensamente para ocupar os espaços, no posicionamento e na movimentação. Para ele, o campo é o que há de mais importante. Estava menos preocupado com o que acontecia fora. Já o Capello é um exemplo de como se administrar um grupo. Trata-se de um verdadeiro gestor, com excelente capacidade de comunicação.

Por que você iniciou a carreira de técnico no Monaco?
É um clube fantástico. O time continua em meu coração, criei um vínculo muito forte com ele. Também foi ali que decidi me aposentar da vida esportiva. Monaco, de certa forma, se tornou "meu país”. É fantástico poder um dia treinar um dos clubes de seu coração. De forma mais geral, a França me agrada. Sinto um vínculo forte, gosto muito do campeonato do país e da mentalidade que existe nele.

Você conhece bem o Campeonato Francês. Existe algum jogador em particular que chame a atenção?
O Kévin Gameiro é um jogador de quem gosto muito e que adoraria ter na minha equipe.

Rápido, ágil e perigoso na frente do gol... É um jogador que lembra você.
Sim, é verdade. Mas não é só por isso que gosto de seu futebol. Não sou narcisista a esse ponto! (Risos)

Qual sua melhor lembrança dos tempos de jogador?
Duas coisas me vêm à cabeça. A primeira engloba todas as taças que conquistei com os clubes por onde passei: Milan, Monaco e Paris Saint-Germain. Vivi momentos muito intensos com todas essas equipes. A segunda trata de algo mais particular: o dia em que cheguei ao Milan, emprestado pelo Monaco, na temporada 2001-02. A recepção que os 90 mil torcedores me proporcionaram quando entrei em campo no San Siro foi algo que nunca vou esquecer. Eu havia deixado o clube em 1998 e foi muito emocionante poder retornar nessas condições. É impossível tirar isso da cabeça.

Você teve a oportunidade de atuar ao lado de seis vencedores da Bola de Ouro (Marco van Basten, Ruud Gullit, Jean-Pierre Papin, Georges Weah, Andriy Shevchenko e Roberto Baggio). Qual deles foi o mais marcante?
Sem dúvida o Marco van Basten é o maior de todos. Era um jogador que sempre me impressionava, tanto nos treinos quanto nos jogos. Era extraordinário vê-lo jogar. Sou muito grato por ter treinado ao lado dele.

Como você vê a seleção italiana?
Ela passou por uma remodelação, algo de que necessitava, porque, mesmo com os resultados positivos, os jogadores estavam envelhecendo. As coisas mudaram dentro da federação e o Arrigo Sacchi e o Roberto Baggio tiveram um papel fundamental nesse processo. Por fim, a seleção está mais jovem, mais fresca e com uma proposta de jogo diferente, um pouco menos defensiva. Tenho boas expectativas em relação à Itália na Euro 2012.

É a favorita da Euro para você?
A Itália é uma das favoritas em minha opinião, sem esquecer a Espanha, a França e a Alemanha. A França está bem cotada, a meu ver, pois tem o talento necessário e pode acabar chegando ao título. O Laurent Blanc vem fazendo um bom trabalho, pois soube utilizar muito bem sua experiência antes de assumir a seleção.

Você ainda sonha em ser treinador?
É difícil dizer. Esse tipo de proposta normalmente vem logo após o término de uma grande carreira como jogador, o que não foi meu caso.

Sonha em treinar alguma equipe de hoje?
Acho que os sonhos são proporcionais ao status de um jogador ou um técnico. Quando era jogador e defendia o Milan, uma das melhores equipes do mundo, podia me permitir sonhar em defender o Real Madrid ou o Barcelona, pois tinha o potencial. Até aqui, me limitei ao sonho de dar meu melhor no comando do Monaco. Hoje, não tenho o direito de sonhar e nem conseguiria fazê-lo.