Figura atípica e cativante, jogador primoroso e fiel aos seus valores, Frédéric Kanouté está se despedindo do Sevilla após sete temporadas. Embora a última tenha sido marcada pelos problemas físicos do atacante e pelos resultados apagados do time, nada diminui a sensação de dever cumprido do ex-atleta da seleção malinesa.
Revelado pelo Lyon, onde jogou até 2000, Kanouté passou cinco anos no futebol inglês antes de se consagrar no cenário europeu com o time bicampeão da Copa da UEFA em 2006 e 2007. Agora com 34 anos, ele se divide entre o lançamento da sua biografia e a busca de um último desafio esportivo. Em meio à movimentada agenda, não lhe faltou assunto durante a entrevista que concedeu ao FIFA.com.
FIFA.com: O seu contrato termina daqui a alguns dias e você vai deixar o Sevilla após sete temporadas. Por que se tornou tão raro que um jogador cumpra o contrato até o fim?
Frédéric Kanouté: É raro, realmente, e acho que tem a ver com a forte demanda dos clubes. Hoje em dia um jogador atua no máximo dois anos em um clube antes de receber uma proposta melhor, que geralmente é difícil de recusar. É o mercado que quer assim. Mas embora vejamos cada vez mais esse lado do futebol, ainda restam relações humanas e histórias de fidelidade. Durante esses sete anos no Sevilla, tudo se passou muito bem para mim, tanto em nível esportivo quanto na minha vida pessoal. Portanto, eu havia decidido não buscar outras opcões e ficar aqui. É uma escolha esportiva e humana, com considerações familiares.
Entre as contusões e a irregularidade da equipe, a temporada acabou sendo mais difícil do que você imaginava?
Sem dúvida. Tive várias lesões, mas foi difícil porque os nossos resultados não foram muito bons por falta de regularidade nas atuações. Também mudamos de técnico no decorrer da temporada, o que não ajuda a encontrar uma certa estabilidade no time, e não nos classificamos para uma competição continental, então é lógico que estou um pouco decepcionado. Preferiria terminar em uma nota mais positiva, mas me concentro nos bons momentos, e foram muitos. É isso que importa. Eu só queria que as coisas fossem perfeitas e jogar no meu melhor nível para que os torcedores guardassem uma boa lembrança de mim.
Qual é o próximo desafio? O que está procurando para o último contrato?
Estou trabalhando com o meu agente, estamos analisando diferentes horizontes e vamos ver o que vai me convir melhor. Para ser sincero, simplesmente adoro o futebol. Enquanto me sentir capaz de jogar, vou continuar nos gramados. Acho que ainda vou jogar por alguns anos. É difícil dizer onde vou estar, pois há muitos campeonatos interessantes mundo afora. Estou procurando também uma boa qualidade de vida fora de campo. É muito importante para a minha mulher e para os meus filhos. Preciso encontrar uma boa combinação entre todos esses elementos.
Voltemos à sua experiência na Espanha. Como avalia o Campeonato Espanhol atualmente, com o domínio de Barcelona e Real Madrid?
Virou um campeonato de dois times. Em qualquer lugar do mundo, quando se fala da liga espanhola, só se menciona Real e Barça. É uma pena. Há alguns anos atrás, uma equipe como o Sevilla podia rivalizar com eles e preocupá-los. Mas nos últimos dois anos, eles tiveram quase 20 pontos a mais que todo mundo. É frustrante.
Quando o Sevilla entra em campo para jogar contra o Barcelona ou o Real Madrid, é difícil superar a insegurança?
Enquanto esportistas e competidores, às vezes somos tolos o bastante para achar que podemos ganhar desses times! (risos) E, às vezes, podemos realmente fazer alguma coisa. Este ano, por exemplo, arrancamos um empate no Camp Nou. A gente sofre durante 90 minutos e, se tiver um pouco de sorte, dá para sair com um empate. É possível, mas muito difícil. Eles estão muito acima dos outros. Sei que algumas equipes mais modestas às vezes entram em campo sabendo que vão perder, só com a ambição de sofrerem a menor quantidade possível de gols. Mas acho que a maioria dos times não desiste e vai trabalhar para tirar o atraso.
Justamente, como encurtar essa distância?
Existe uma coisa que não podemos ignorar: o dinheiro. O Barça e o Real são os clubes mais ricos. Eles não só têm boa infraestrutura para os jovens e bons centros de treinamento, como também podem se reforçar comprando os melhores jogadores, coisa que os outros clubes não podem fazer. É um outro tipo de distância a respeito da qual precisamos ser realistas.
Você foi testemunha privilegiada da evolução do Barça da era Guardiola. Como viveu esse período?
Daqui a alguns anos, quando eu olhar para trás e me der conta de que joguei contra o Barcelona do Guardiola, vou me dar conta da sorte de ter jogado contra o melhor time que o Barcelona já teve. Normalmente não gosto muito de ver futebol pela televisão, mas quando é o Barça faço uma exceção. O mundo do futebol foi sortudo de ter esse time.
Lionel Messi marcou 50 gols pelo Campeonato Espanhol na temporada. Na condição de atacante, como avalia as atuações dele?
É desumano. É um extraterrestre. Joguei várias vezes contra ele e ele é incrível, não é um jogador normal. Da mesma maneira que tem o Barcelona e o resto do mundo, tem o Messi e o resto do Barça. Ele faz coisas de que só ele é capaz. Ele é excepcional.
Você acaba de publicar a sua biografia. Após 15 anos de carreira, era o momento certo para fazer um balanço?
Totalmente. Devo confessar que no início eu estava meio reticente em relação a escrever o livro, eu não me achava suficientemente importante para escrever uma biografia. Este tipo de exercício é reservado aos personagens históricos, importantes. Mas muita gente insistiu para que eu o fizesse. Recebi muitas ofertas de escritores e disse a mim mesmo que se eles insistiam tanto, era porque talvez eu tivesse coisas a dizer e a compartilhar. Era também uma possibilidade de falar de outros assuntos que não futebol, sobretudo do universo beneficente.
Está contente com o resultado?
Estou. O livro é um pouco semelhante à minha carreira. O futebol é a minha paixão, mas é também uma ferramenta para atingir objetivos mais altos na vida. Graças à minha carreira, pude lançar e apoiar a minha fundação e ajudar pessoas que realmente precisavam. Vou ficar contente se o leitor ler a minha biografia e esquecer por um instante que ela foi escrita por um jogador de futebol. Seria a minha maior vitória.
Você falou muitas vezes sobre o seu amor pela África. Lamenta não ter ganhado nada com o Mali, apesar da boa geração que esteve na seleção?
Não, não tenho nada a lamentar. Escolhi jogar pelo Mali sabendo que não ia ser fácil. Não é uma seleção conhecida e com um grande passado de vitórias. Eu não tinha a pretensão de achar que a minha presença pudesse mudar isso. Eu só queria contribuir para a equipe no que pudesse. Fiz o meu melhor e não ganhamos nada, mas foi uma parte importante da minha vida: uma bela experiência que abriu muitas portas para a minha fundação e que me trouxe coisas em nível pessoal.
