O título da Copa Africana de Nações 2012 representou para a Zâmbia o ápice de uma longa jornada de quase duas décadas após o trágico acidente aéreo que tirou as vidas de praticamente toda a seleção do país. A emoção demonstrada pelos jogadores campeões e também por Kalusha Bwalya, único sobrevivente daquele plantel e hoje presidente da Federação Zambiana de Futebol, comprovou a importância da conquista.

Contos de fadas assim podem ser incomuns, mas às vezes o sucesso de uma equipe consegue unir comunidades ou até mesmo nações inteiras em uma só emoção. O FIFA.com relembra algumas das façanhas que encantaram torcedores e significaram muito mais do que um simples troféu.

Superando barreiras
A Copa Africana de Nações parece ser a competição preferida para histórias de superação. Um exemplo foi a classificação da Líbia para o torneio deste ano. Mesmo em meio a uma guerra civil que a obrigou a mandar jogos em campo neutro, a seleção passou pelas eliminatórias e deu uma alegria ao país durante um momento de enorme dificuldade.

Dezesseis anos antes, uma nação marcou o fim de décadas de segregação logo ao participar pela primeira vez do certame continental. Campeã mundial de rúgbi no ano anterior, o que inspirou inclusive o filme Invictus, a África do Sul se viu ainda mais unida com o título da Copa Africana de Nações em 1996. "O que vocês estão fazendo é parte da reconstrução do país", disse Nelson Mandela ao plantel durante o torneio.

O título transformou em celebridades jogadores como Lucas Radebe, Doctor Khumalo e Mark Williams, representantes de um esporte tradicionalmente associado apenas às classes mais populares da África do Sul. O triunfo de uma seleção sul-africana formada quase que inteiramente por jogadores negros foi a prova de que a nação estava finalmente deixando para trás o passado que a havia impedido de participar de competições internacionais até 1994. A reação de Radebe expressou o valor da união. "Quando a gente grita de emoção e todos gritam conosco, somos todos a mesma pessoa", disse.

Milagre e união
O renascimento de uma nação por meio de uma vitória nos gramados já havia sido visto pouco mais de 40 anos antes, quando a Alemanha Ocidental venceu a Copa do Mundo da FIFA 1954 menos de uma década após a Segunda Guerra Mundial. Além de superarem a favorita Hungria em uma final que entrou para a história como o "Milagre de Berna", os alemães também voltaram a se sentir aceitos pela comunidade global.

Aquele título ficou marcado pela primeira reprodução do hino nacional alemão desde o final da guerra. Horst Eckel, que atuou na final, ressaltou a importância da vitória para a autoestima de toda a nação. "O povo dizia 'nós somos campeões mundiais', e não que os jogadores haviam sido campeões", observou. "O sentimento de união dos alemães ressurgiu de repente."

Quatro anos depois, a mesma Alemanha foi o cenário de uma tragédia. No dia 6 de fevereiro de 1958, o avião do Manchester United sofreu em Munique um acidente que tirou a vida de quase todo o plantel da equipe. Um clube, uma cidade e uma nação lamentaram a perda de jovens talentosos como Duncan Edwards, Tommy Taylor e Billy Whelan.

Nos anos posteriores, o técnico Matt Busby reconstruiu a equipe em torno de Bobby Charlton e com a importante participação de outras grandes figuras como George Best e Nobby Stiles. Uma década após o acidente, o time chegou à final da Copa dos Campeões contra o Benfica, e a vitória por 4 a 1 em Wembley resultou no primeiro título europeu dos "diabos vermelhos". Aquela década de luta e recuperação ainda é considerada o período mais fundamental da história do multicampeão Manchester United.

Alma lavada
O Japão entrou na Copa do Mundo Feminina da FIFA Alemanha 2011 ainda abalado pelo terremoto e pelo tsunami que haviam assolado o país em março do ano passado. Após derrotarem a seleção anfitriã, as nipônicas chegaram à final contra os Estados Unidos e conseguiram derrotar as favoritas nos pênaltis. Para o jornal japonês Sports Nippon, foi "como um filme".

Uma das maiores realizações da história do esporte japonês, o título em solo alemão foi um motivo a mais para a união do povo em prol da comemoração e da superação da crise. Mesmo após a derrota na final, a americana Abby Wambach soube elogiar o triunfo nipônico. "Acho que o Japão sofreu muito e precisava da vitória mais do que nós", disse. "Espero que esta vitória leve um pouco de esperança e alegria ao povo japonês."

O triunfo do Iraque na Copa Asiática de Seleções 2007 foi conquistado também em meio a uma crise. Com jogadores sunitas, xiitas e curdos, o selecionado era um exemplo de união, mas a jornada rumo ao topo da Ásia foi recheada de drama. Enquanto a guerra se desenrolava em casa, os iraquianos derrotavam a Arábia Saudita por 1 a 0 em Jacarta e mostravam ao mundo a face vitoriosa da nação. "Os nossos leões deram uma importante lição ao mundo, conquistando a vitória com determinação e tenacidade", disse na época o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki. 

Após a tempestade, a bonança
Certos títulos têm importância especial após décadas de jejum, especialmente se na última hora tudo parece ir por água abaixo. O Racing Club, um dos cinco grandes do futebol argentino, sentiu algo parecido em 2001.

Na época, a Argentina enfrentava uma grande crise. Com tumultos e mortes nas ruas, o país estava em estado de emergência. No âmbito futebolístico, faltando apenas uma rodada para o fim do campeonato nacional, o Racing precisava de somente um ponto para encerrar uma espera de 35 anos. Porém, ninguém sabia se e quando as últimas partidas poderiam ser disputadas. Uma semana após protestos sangrentos e a renúncia do presidente do país, foi tomada a decisão de realizar os dois jogos decisivos da rodada final.

O River Plate, que também estava na briga, derrotou o Rosário Central, o que obrigaria o Racing a pelo menos empatar com o Vélez Sarsfield. E o time de Avellaneda conseguiu: com o placar de 1 a 1 após o apito final, os torcedores do Racing foram ao delírio, invadindo o campo para lavar a alma após 35 anos de decepções. Em um período terrível para a maior parte da nação argentina, aquele momento mostrou como o futebol pode trazer alegria em meio às maiores tragédias.