A única vez em que a Costa do Marfim venceu a Copa Africana de Nações foi em 1992, quando o país derrotou Gana em uma final histórica. Aquela decisão foi para os pênaltis, e a igualdade permaneceu após todos os jogadores baterem penalidades. Foi somente na 12ª cobrança ganesa que o goleiro Alain Gouamene mergulhou para defender o chute de Anthony Baffoe e garantir o título aos marfinenses.

Gouamene fez um torneio fantástico, sem nenhum gol sofrido nos cinco jogos disputados. Ele também definiu a semifinal contra Camarões, defendendo três das quatro cobranças camaronesas na decisão da marca da cal.

Vinte anos depois, outro arqueiro marfinense está a 90 minutos de ajudar o país a repetir a conquista da Copa Africana de Nações. A Costa do Marfim passou com facilidade pela fase de grupos do torneio disputado no Gabão e na Guiné Equatorial, derrotando Sudão, Angola e Burkina Fasso. Depois, venceu os guinéu-equatorianos nas quartas e acabou com os sonhos do Mali nas semifinais. Nos cinco jogos, foram dez gols marcados e nenhum sofrido.

Debaixo das traves
Titular da meta marfinense, Boubacar Barry é o grande responsável pelo excelente desempenho defensivo. Poupado no último jogo da primeira fase contra Angola (a Costa do Marfim já estava classificada), ele vem tendo atuações excepcionais e deu uma grande contribuição para o país não tomar nenhum gol na campanha até agora.

Se o arqueiro de 32 anos, que defende o Lokeren na Bélgica, mantiver a meta invicta diante da Zâmbia na final deste domingo, terá ajudado o selecionado a igualar a marca de 540 minutos sem tomar gol estabelecida por Gouamene — em 1992, a Costa do Marfim jogou apenas cinco partidas, mas três delas foram para a prorrogação.

Mesmo assim, Barry diz que não pensa no recorde. "Nem sabia", afirmou após a semifinal. "Não sabia que a Costa do Marfim tinha tido resultados semelhantes, sem tomar nenhum gol. Acho que é um bom sinal para nós. Estou feliz por não ter sido vazado em nenhuma partida."

Barry, que fez parte do elenco da Costa do Marfim nas quatro últimas edições da Copa Africana de Nações, bem como nas edições de 2006 e 2010 da Copa do Mundo da FIFA, foi criticado após a derrota por 3 a 2 diante da Argélia no torneio continental de dois anos atrás. "Eu sabia que precisava ser paciente", comenta. "Em comparação com jogadores de alto nível que jogam em grandes ligas, jogo em uma pequena liga. Mas sempre tento manter um sorriso no rosto. O tempo está se esgotando. É necessário aprender com os erros para melhorar."

O goleiro, que passou os últimos nove anos jogando na Bélgica, jejua antes de cada partida, tomando apenas sucos e água ao anoitecer. "É importante para mim", revela. "Antes de cada jogo, fico em jejum para me purificar e ficar ainda mais forte. A decisão é pessoal, com base em uma convicção pessoal de que quero me concentrar no torneio. Para vencer, é necessário ser abençoado, não apenas talentoso e preparado."

Barry sabe que, mesmo que a Costa do Marfim entre com o rótulo de favorita, a decisão contra a Zâmbia não será fácil. "Sabemos que vai ser difícil até o fim. Viemos aqui para jogar seis finais e já vencemos as cinco primeiras. Ainda há uma etapa pela frente. Agora vamos aproveitar estes momentos. É uma grande satisfação chegar à grande final. E vamos nos preparar para este jogo da melhor forma possível, como fizemos para os anteriores. "

Uma vitória no Stade de l'Amitié não apenas garantirá o segundo título continental para a Costa do Marfim, como também poderá representar a sexta partida seguida sem tomar gols — uma estatística que contraria a reputação ofensiva do selecionado. E Boubacar Barry é um grande responsável por esta nova cara do futebol marfinense.