No Peru, onde o futebol é parte da cultura nacional, o nome de Roberto Palacios é sinônimo deste esporte. O "Chorri", apelido pelo qual o país inteiro o conhece, foi um dos meia-atacantes de maior qualidade a surgirem nas últimas décadas. Além disso, ele é o artilheiro de sua seleção em eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA.
Aos 38 anos, ele recebeu um presente do destino: comemorar seus 20 anos como profissional novamente como integrante do Sporting Cristal, clube ao qual retornou para fechar um ciclo, após passar por times como Cruzeiro, Atlas, Deportivo Cáli e LDU, entre outros. Em Lima, onde divide a agenda entre os treinos e as merecidas homenagens, o camisa 10 da seleção peruana, que exibe uma tatuagem que diz: "Te amo, Peru", contou sua trajetória com exclusividade para o FIFA.com. "Não esperava tanta repercussão. Isso é o mais bonito que o futebol me deixa: os amigos", afirmou.
FIFA.com: Antes de tudo, parabéns! Qual é o segredo para passar 20 anos no futebol profissional?
Roberto Palacios: O segredo passa pelo amor que tenho por este esporte. Fazer algo que o enche de satisfação não tem preço. No meu caso, consegui isso graças ao sacrifício físico. É muito importante se cuidar muito, ser um bom profissional. Mas não basta só dizer isso, é preciso fazê-lo também! E a paixão... Estes são os segredos.
Você se surpreendeu com a grande repercussão desta celebração?
Na verdade, sim, não esperava isto. Mas é o mais bonito que o futebol me deixa: os amigos. Sei que dei muito à minha equipe e à seleção, mas ainda assim me surpreende. Aqui, poucas vezes se dá divulgação a pessoas que querem tentar dar um bom exemplo. Pelo contrário, o enfoque é mais nos problemas e nas polêmicas que giram em torno do futebol. Diria que isto foi uma boa notícia, uma grata surpresa.
Como é conviver com companheiros de equipe que ainda não tinham nascido quando você estreou na primeira divisão peruana?
É isso mesmo, alguns dos garotos recém-promovidos à equipe principal têm 16 ou 17 anos. É muito gratificante, porque alguns me dizem que é um sonho jogar a meu lado ou ter me conhecido. Alguns me viram jogar na infância. Mas eu os trato da mesma maneira que faço com qualquer outra pessoa, não crio um distanciamento ou algo parecido. Gosto de me sentir como mais um do grupo.
O que mudou entre o Chorri que deu seus primeiros passos no futebol e o de hoje?
Muito. Naquela época, a situação era diferente. É algo que eu tento fazer que os garotos de hoje entendam. Se eles não se sacrificarem, é muito difícil que consigam trilhar um caminho rumo ao sucesso. Alguns garotos de hoje pensam que o mundo está acabando e que o mais importante é planejar agora mesmo o que fazer no fim de semana. Vivem apressados e pensando em que se divertirem, mas quero que entendam que haverá tempo para tudo. Será mais fácil para eles pensar nisso quando já forem craques consagrados.
Pessoalmente, que virtudes você destacaria como suas principais dentro de campo?
A pegada e a inteligência. Sempre tive agilidade mental e precisão para dar assistências. E, além dessa mentalidade, nunca gostei de perder nada. Para mim, cada derrota significava ter problemas para dormir. Não perco nem para meu filho, que tem 13 anos! Acho que isso servirá para que ele aprenda como deve ser.
Se você tivesse de apontar um momento que mudou sua carreira, qual seria?
Minha primeira etapa fora do país, no Estudiantes Tecos, do México. Não fui bem, sentia muita falta da família e não consegui entrar de vez no grupo. Aquilo me marcou muito, mas tive a sorte de ir ao Brasil logo em seguida e não desperdicei a oportunidade. Consegui me destacar em um país com muitos bons jogadores. Isso fez que eu me desse conta de que podia estar à altura dos melhores.
Você gostaria de ter jogador em algum campeonato que não pôde?
Gostaria de ter jogado na Espanha, pelo tipo de futebol que se pratica lá. Os da Inglaterra e da Itália eram físicos demais para mim. Estive perto de ir para o La Coruña, em uma troca do Tecos com o Sebastián Abreu. Mas, no final, os mexicanos pediram mais dinheiro e não foi possível.
Você disse há algum tempo que pensava em se aposentar no fim de 2012. Mantém a ideia?
Isso, jogarei mais um ano. Deixar tudo isso será bem difícil. Ouvi outros jogadores que pararam dizendo que sentiram muita falta e tiveram de voltar. Mas já comecei a me preparar.
Teremos um Chorri treinador a partir de então?
Sim, eu gostaria. Não sei se serei dos bons, porque será uma etapa totalmente diferente. É preciso ter visão e inteligência para comandar um grupo, mas darei o melhor de mim para conseguir isso.
Para nos despedirmos, propomos a você uma sequência de perguntas rápidas. Concorda?
Claro, pode continuar (risos).
O futebol...
Minha paixão, o que sempre sonhei em fazer.
O Sporting Cristal...
Minha segunda casa, a qual amo muito.
A seleção peruana...
O maior amor que pude sentir no futebol.
Um adversário nestes 20 anos...
A seleção argentina, uma equipe gigantesca. Lembro-me de enfrentar jogadores como Diego Simeone e Matías Almeyda, dois jogadores que se superavam. Era muito difícil passar por eles. Representam tudo que aquela seleção é.
Um técnico que o marcou...
Juan Carlos Oblitas.
Um gol...
Contra o Uruguai, nas eliminatórias para a França 1998. Era um jogo decisivo e começamos perdendo, mas marquei um golaço que nos colocou de volta na partida. Terminamos vencendo por 2 a 1.
Uma frustração...
Não ter podido disputar uma Copa do Mundo.
E, por último, um sonho a realizar...
Levar minha seleção a uma Copa como técnico. Tomara que consiga isso.

