Sempre ouvimos que o futebol corre nas veias dos torcedores. Mas isso é dito com tanta frequência que o conceito ficou banalizado, entrando para o grupo dos clichês.

No entanto, a grande verdade é que o futebol continua sendo uma parte fundamental da nossa própria essência. Além de representar a paixão de uma vida inteira, o esporte bretão vem cada vez mais se misturando às nossas famílias, cidades, sonhos de infância e outros elementos que nos cercam. É claro que nada disso é novidade, mas uma nova forma de canalizar toda essa energia foi encontrada na Escócia. Trata-se de uma iniciativa que vem dando vida nova às pessoas com Alzheimer e que tem atingido resultados impressionantes.

A doença se estabeleceu devido à elevada taxa de envelhecimento da população e gera declínio mental acentuado, o que representa um dos maiores problemas de saúde nos países desenvolvidos. Quem sofre dessa condição apresenta confusão, perda de memória, alterações de humor e acaba perdendo grande parte das coisas familiares e queridas, como os nomes das pessoas amadas e lembranças valiosas. Como resultado, a autoconfiança é afetada, sendo invariavelmente seguida de um constante afastamento da sociedade.

A forma como o futebol entra na luta contra o Alzheimer é buscando reavivar algumas dessas lembranças. Isso é feito por meio de fotos e objetos históricos dos times do coração dos pacientes, que são utilizados para reconectá-los, mesmo que por um período limitado, com uma história pessoal que havia sido perdida. O trabalho é conhecido como Projeto Memória do Futebol e teve início em 2009, quando Michael White, historiador do clube escocês Falkirk, embarcou no experimento muito mais por esperança do que por expectativa.

"Acredito que muitas pessoas, provavelmente inclusive eu, achavam que era uma ideia simples demais para funcionar tão bem quanto funciona", disse White ao FIFA.com. "A terapia da reminiscência não é algo novo no tratamento do Alzheimer, mas eu vinha percebendo que, quando ia às instituições para conversar com os pacientes, de um grupo de 20, apenas dois ou três estavam realmente tirando algo da experiência. A maioria das terapias da reminiscência era voltada às mulheres, pois focava elementos como roupas e música. Sempre achei que o futebol era a melhor forma de mexer com os homens, mas foi o uso de fotos da época e dos times deles que realmente causou um grande impacto."

White explicou como os pacientes reagem ao estímulo. "Você vê alguém entrando cabisbaixo, demonstrando total falta de interesse, mas assim que mostra uma foto a expressão simplesmente muda", destaca o historiador. "Pouco tempo atrás, tinha um senhor no nosso grupo para quem mostrei uma foto dos anos 50, de uma partida entre o Falkirk e o Celtic. Imediatamente ele gritou: 'Foi neste jogo que o Charlie Tully fez dois gols em jogadas de escanteio!' E foi exatamente isso. Esse tipo de coisa acontece em todos os grupos, o que resulta no ressurgimento de outras memórias. Para nós e para as pessoas que cuidam dos pacientes, é uma coisa incrível de ver."

Interesse acadêmico
O experimento de White ganhou terreno rapidamente, conquistando o apoio do Instituto Escocês do Alzheimer e da Federação Escocesa de Futebol e se expandindo por todo o território nacional. Localizado no Estádio Hampden Park, o Museu do Futebol Escocês se tornou o centro das atenções, com o som das catracas girando e o vestiário restaurado despertando um sem-número de lembranças.

A notícia do sucesso aparentemente miraculoso do recém-lançado projeto chamou a atenção também da comunidade acadêmica, que logo passou a acompanhar as sessões por meio dos céticos pesquisadores de demência, que analisavam os fatos por trás da crescente quantidade de relatos pessoais. Havia fatores suficientes para justificar um estudo de um ano pela Universidade Caledoniana de Glasgow, cujos resultados endossariam tudo o que as famílias e médicos dos pacientes vinham exaltando.

O relatório final trazia relatos de pacientes que haviam chegado às lágrimas de tanta alegria, e concluía dizendo que os participantes do projeto estavam "mais autoconfiantes, calmos, conversadores dentro do grupo e, posteriormente, mais comunicativos com os seus cônjuges".

Um dos autores, a professora Debbie Tolson, recorda-se de como superou o ceticismo. "Na verdade não sou fã de futebol, então não entendia — embora agora certamente entenda — o quão importante era o futebol na vida das pessoas", declarou à rede britânica BBC. "Mas os nossos pesquisadores participaram de grupos, passaram várias horas observando o impacto do projeto e, para ser sincera, fiquei impressionada. Não acredito em nada até ter uma prova, e o que mais me impressionou foi a forma como pessoas que eram tão desligadas ficavam tão radiantes de repente."

Para Irene Gray, mulher de um dos beneficiários do projeto, os levantamentos da universidade simplesmente confirmam o que ela já sabia. "Ele é outra pessoa quando sai de lá", apontou, referindo-se ao marido. "Ele fica animado e conversa sem parar no caminho de volta para casa, e não necessariamente sobre futebol. Sei que posso deixá-lo lá e que, quando voltar, ele vai estar de bom humor. Isso também alegra o meu dia, foi uma dádiva de Deus. Isso deu uma nova vida a ele, e o mesmo acontece com os outros homens que estão lá."

Mas qual o segredo que faz com que o futebol consiga conectar esses homens de um jeito que outros elementos das vidas deles, teoricamente mais significativos, não conseguem? "O futebol está diretamente ligado a quem nós somos, neste país é assim que funciona", responde White. "E não é apenas o futebol, é tudo que o cerca: a tensão até a hora do jogo, com quem você assiste, aonde vai antes da partida, a zombaria com os amigos na segunda-feira. Para muitas pessoas, isso representa uma grande parte da vida e da própria identidade."

Expansão real e virtual
Devido ao sucesso do projeto, o próximo passo será ultrapassar as fronteiras da Escócia e do Alzheimer, beneficiando pacientes com outras condições adversas. A mensagem tem sido disseminada pelo site de Memórias do Futebol do Instituto Escocês do Alzheimer, lançado recentemente com o objetivo de angariar fundos e conscientizar as pessoas, além de estabelecer um banco de recordações dos torcedores sem precedente.

"O nosso objetivo é criar a maior coleção de memórias dos torcedores já reunida", ambiciona Martin Greig, um dos envolvidos no projeto. "Temos no site excelentes lembranças de celebridades, autores, jornalistas e jogadores — inclusive do Zinedine Zidane — para atrair a atenção das pessoas. Mas isso é para a torcida. Em primeiro lugar, queremos que os torcedores naveguem pelo site e sintam-se inspirados a deixarem a sua própria memória do futebol. Enquanto isso, seria ótimo se eles lessem a respeito do importantíssimo trabalho que vem sendo feito pelo instituto nos grupos de Memória do Futebol. O site esta aí para todos os torcedores ao redor do mundo."

Para White, o site atende o propósito de "preencher a lacuna existente entre as pessoas que estão em tratamento, que claramente não são a geração da Internet, e aquelas que podem levar este projeto adiante". O trabalho conduzido pelo dedicado historiador e pelos voluntários merece todos os aplausos, mas mais impressionante ainda é ver que o seu idealizador se alegra tanto com as reminiscências quanto os próprios pacientes.

"A coisa mais satisfatória é ver como eles abrem um sorriso quando trazemos as fotos", declara. "Um dos senhores, que estava no meu grupo e jogou pelo Celtic logo depois da II Guerra Mundial, faleceu recentemente. Mas sempre vou me lembrar da última vez que o vi. Ele era empurrado na cadeira de rodas e, pouco antes de sair da sala, fez o sinal positivo e gritou para mim: 'Filho, este foi o melhor dia da minha vida!' Naquela hora eu pensei: 'Podem fazer todos os estudos que quiserem — para mim, esses momentos falam por si.'"