"Contente, mas não satisfeito", sintetiza o técnico da Bélgica, Georges Leekens, entre a humildade e a falta de ambição. Mas o treinador sabe que o meio-termo é a paciência. "Temos todas as ferramentas para conseguir amanhã, caso não seja hoje", explica ao FIFA.com na véspera das rodadas finais das eliminatórias para a Euro 2012, que terão dois jogos decisivos para os Diabos Vermelhos no Grupo A.
Em posição desfavorável na chave antes de receberem o Cazaquistão, os belgas estão a dois pontos da vice-líder Turquia e têm encontro marcado com a poderosa Alemanha em Dusseldorf na terça-feira. Mas o futuro da ótima safra de jogadores que Leekens tem nas mãos não será selado nos próximos dias. "Não vamos mudar a nossa preparação para esses dois jogos", comenta o treinador, consciente de que são magras as probabilidades de carimbar passaporte para o torneio continental na Polônia e na Ucrânia. "Não nos preocupamos com os outros, só conosco. Precisamos derrotar o Cazaquistão e ao mesmo torcer para que a Alemanha faça o seu trabalho na Turquia, o que não é simples."
Isso porque a Bélgica já não depende apenas de si no torneio classificatório, após os tropeços em casa diante de alemães (1 a 0), turcos (1 a 1) e austríacos (4 a 4): a equipe soma 12 pontos contra 14 dos turcos. "Não sinto frustração", explica o ex-zagueiro da seleção belga, que voltou ao comando da equipe nacional em maio de 2010, depois de um primeiro exercício entre 1997 e 1999. "Desperdiçamos pontos por falta de experiência. Ainda não temos maturidade para controlar determinadas partidas, como se exige no alto nível."
Bons embaixadores
O futebol belga conta atualmente com uma reserva de talentos raras vezes vista na história do país, a exemplo dos jovens astros Eden Hazard e Romelu Lukaku. A lista de atletas do selecionado que atuam nos principais clubes da Europa é longa, e a constatação de Leekens é reveladora. "Os pequenos belgas se tornaram grandes", brinca. "Antes, os jogadores ganhavam experiência na seleção e tiravam proveito dela no clube. Agora é o contrário."
Quatorze futebolistas belgas estão participando da Liga dos Campeões da UEFA, número jamais visto na nação, que redescobriu o orgulho dos seus Diabos Vermelhos. "Somos excelentes embaixadores para o país", afirma o técnico. "A paixão do torcedor ressurgiu há um ano, as pessoas voltaram a ter prazer em torcer por nós e é uma honra para mim dirigir essa equipe", continua Leekens, que assumiu o grupo em um contexto difícil, após a tumultuada saída do holandês Dick Advocaat.
Um ano e meio mais tarde, antes mesmo do resultado final do torneio classificatório, o sexagenário com 12 times no currículo faz um balanço positivo. "Em termos de futebol e de imagem, a equipe deu um passo adiante desde o começo das eliminatórias. Ganhamos 30 posições no ranking mundial e a confiança do público voltou. A concorrência está bem melhor, o ambiente no grupo é fantástico, os jogadores estão novamente orgulhosos de defenderem a seleção, não perdemos há um ano e jogamos em bloco", enumera Leekens. "Portanto acho que este foi, sim, um ano muito interessante."
Saber ser eficaz
Ao mesmo tempo, porém, o técnico belga não ignora a fragilidade desse clima de lua de mel. "Os jogadores estão conscientes que resta muito trabalho a fazer", elabora. "Da próxima vez, o direito de errar será menor. Perdemos a concentração muito facilmente e às vezes exageramos no jogo pelo jogo. É preciso ser eficaz, também. Para irmos à Copa do Mundo, talento e técnica não serão suficientes. A equipe está em construção e isso não se faz em poucos meses. Estamos evoluindo e devemos aprender com esses problemas inerentes. Quando tudo estiver resolvido, esta equipe será grande."
Sem Nicolas Lombaerts e Marouane Fellaini, suspensos, a seleção belga terá de evitar diante do Cazaquistão os vacilos responsáveis pelo empate em 1 a 1 da última partida, no Azerbaijão. Se não vencer, a visita à Alemanha será mera formalidade. Mas a tirar pelas palavras de Leekens, a geração atual pretende escrever a própria história. "Ela cansou de ouvir falar do passado", conclui o técnico. O futuro começa nesta sexta-feira.

