Esta semana foi de luto para a comunidade do futebol no Irã. Foram dias de tristeza nos quais o país precisou dizer adeus a um homem cujos incríveis reflexos impulsionaram a seleção iraniana à conquista de dois títulos da Copa da Ásia durante a década de 1970 e que foi eleito o segundo melhor goleiro asiático do século XX. Mas, acima de tudo, um homem de postura irretocável durante os 61 anos em que viveu.
Embora as cortinas da vida tenham se cerrado para Nasser Hejazi na última segunda-feira, após uma batalha de 18 meses contra um câncer pulmonar, ele permanecerá para sempre na memória de todos. Uma prova disso foi o emocionante funeral acontecido ontem na cidade natal do ex-camisa um de Nader, Taj, Shahbaz, Esteghlal e Mohammedan.
Em uma medida inédita, foi permitida pela primeira vez a entrada de mulheres no Estádio Azadi para uma cerimônia oficial. Cerca de três mil delas — incluindo a filha de Hejazi, Atoosa, capitã da seleção iraniana de futebol feminino, juntamente com as suas colegas de equipe — estiveram presentes ao lado de outros membros da família, amigos e antigos companheiros. Em uma última homenagem, o caixão de Hejazi foi deixado por algum tempo na região da pequena área do Estádio Azadi, palco de muitas das suas defesas fenomenais pelo Irã e pelo Esteghlal. Após o ritual, o corpo do goleiro que ficou conhecido como A Lenda foi enterrado no cemitério Behesht-Zahra.
Entre as cerca de 20 mil pessoas que puderam presenciar a cerimônia —centenas de milhares de outras pessoas ficaram do lado de fora — estava Ali Daei, maior artilheiro da história da seleção iraniana, com 109 gols, que foi descoberto por Hejazi quando jovem. "Não vim para me despedir da nossa lenda", comentou o ex-jogador de 42 anos, visivelmente emocionado. "O Hejazi permanecerá vivo dentro dos nossos corações e das nossas mentes para sempre. Aprendi muitas valiosas lições de vida com o Hejazi que vou guardar para o resto da minha vida."
Nascido na capital iraniana em 19 de dezembro de 1949, menos de seis meses antes de o Irã disputar a sua primeira partida oficialmente reconhecida pela FIFA, Hejazi rapidamente decidiu que usaria as mãos para praticar esportes. Curiosamente, no início, ele preferia o basquete ao futebol e chegou a defender a seleção juvenil do seu país na modalidade.
No entanto, quando o goleiro do time da sua escola se contundiu, o adolescente teve o empurrão que precisava para passar das quadras para os gramados. O técnico da equipe percebeu que Hejazi, muito alto e forte, era o substituto ideal e, embora o estudante tenha educadamente recusado o convite, ele acabou se deixando convencer pelo treinador a ficar debaixo das traves apenas uma vez. Na sua primeira partida, ele não sofreu nenhum gol e se apaixonou pelo futebol. O basquete acabou se tornando apenas um hobby e não mais uma opção de carreira.
Hejazi fez a sua estreia profissional pelo modesto Nader antes de se transferir em 1967 para o Taj (que em 1979 passou a se chamar Esteghlal). Dois anos depois, a equipe contratou o técnico Zdravko Rajkov, que também comandava o Irã. Sob a batuta do iugoslavo, o goleiro debutou pela seleção aos 19 anos, quando a equipe derrotou o Paquistão por 4 a 2. De volta ao Taj, Rajkov e Hejazi combinaram as suas qualidades para que o clube fosse campeão asiático em 1970. Em três das quatro partidas do torneio, o arqueiro não sofreu gols.
Esta foi a maior glória de Hejazi jogando por clubes, mas não o auge da sua carreira. Afinal, ele contribuiu para que o Irã conquistasse a Copa da Ásia em 1972 e 1976, apresentando-se de forma memorável na vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Sul na final da primeira conquista e também na disputa por pênaltis contra o Kuwait na decisão do bicampeonato. O goleiro também representou o seu país no Torneio Olímpico de Futebol Masculino em 1972 e 1976, além de ter disputado a Copa do Mundo da FIFA Argentina 1978. Nesses torneios, os seus melhores momentos foram uma defesa incrível em finalização de Joe Jordan no empate em 1 a 1 com a Escócia e um gol que ele evitou do peruano Teófilo Cubillas, apesar da derrota por 4 a 1 dos asiáticos.
Hejazi jogou o seu 62º e último jogo pelo Irã em uma derrota diante do Kuwait na semifinal da Copa da Ásia de 1980. Seis anos mais tarde e 19 depois da sua estreia pelo Esteghlal — ele também defendeu o Shahbaz por três anos nesse entretempo —, o arqueiro deixou o seu país para uma última temporada em Bangladesh, onde atuou em 31 partidas pelo Mohammedan. No ano seguinte, tornou-se técnico do Dacca. Ao retornar ao Irã, o guarda-metas treinou nove clubes entre 1988 e 2007. Um deles foi o Esteghlal, com quem conquistou o título nacional na temporada 1997/98.
Embora tenha parado de trabalhar com o futebol em 2007, o esporte esteve com ele até o fim. Momentos antes de entrar em coma na sexta-feira, da qual ele não acordaria mais, Hejazi estava assistindo pela televisão o seu amado Esteghlal jogar contra o PAS de Hamedan. Como se fosse em sua homenagem, o clube de Tehrã venceu e não sofreu gols.
O presidente da FIFA, Joseph S. Blatter, enviou carta ao presidente da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), Ali Kafashian. "É com o coração muito triste que lhe escrevo após receber a notícia do trágico falecimento de Nasser Hejazi, este formidável ex-jogador de futebol", escreveu Blatter. "Em nome da FIFA e da família do futebol em todo o mundo, gostaria de manifestar as minhas condolências a você, à comunidade do futebol no Irã e, mais importante, aos amigos e entes queridos de Nasser Hejazi. Por favor, comunique a eles que a comunidade futebolística está ao lado deles nesse momento."

