Da novíssima geração de talento da África Ocidental, o jovem meio-campista ganense Andre "Dede" Ayew tem sido o mais comentado. Se inicialmente a razão primordial eram os genes que carrega, o destaque agora fica muito mais por conta das proezas realizadas dentro das quatro linhas — uma ascensão ajudada pelas circunstâncias do futebol.

Quando Gana foi abalada por uma avalanche de lesões às vésperas da Copa Africana de Nações 2010, o técnico Milovan Rajevac resolveu apostar em um elenco repleto de jovens inexperientes. Ele não apenas promoveu a base da seleção que havia conquistado a Copa do Mundo Sub-20 da FIFA no Egito, como deu liberdade aos jogadores para evoluírem em campo com uma única responsabilidade: deixar Gana orgulhosa.

Foi assim que o jovem Ayew, um dos grandes protagonistas do título sub-20, teve a oportunidade de subir ao nível mais alto do futebol mundial. A comparação com o pai, Abedi Pelé, três vezes eleito o jogador africano do ano, ameaçou ofuscar o talento e as conquistas de Dede. Aos poucos, porém, ele vem escrevendo a sua própria história nos gramados.

Em entrevista exclusiva ao FIFA.com, Ayew relembra os momentos que o transformaram em uma das maiores promessas do futebol africano e fala do desejo de conquistar a Liga dos Campeões da UEFA, a Copa Africana de Nações e a Copa do Mundo da FIFA.

FIFA.com: A disputa por uma vaga na Copa Africana de Nações 2012 começa neste final de semana contra a Suazilândia, pelas eliminatórias. Quais são as suas expectativas?
Ayew:
É claro que o caminho até a classificação será difícil, e não estou dizendo isso só porque todo mundo diz. Será complicado porque agora somos o alvo de muitas seleções. Os adversários não são fáceis, nem mesmo os chamados países pequenos. Tudo pode acontecer no futebol, e por isso é importante melhorarmos e trabalharmos duro. Primeiro, precisamos enfrentar a Suazilândia, que não conhecemos muito bem, mas que já deve ter nos visto jogar muitas vezes. Depois, teremos países como Congo e Sudão, adversários difíceis, especialmente fora de casa.

Você se tornou, de repente, um dos jogadores mais conhecidos da seleção. Está sentindo mais pressão?
A pressão faz parte do futebol, sempre existe. Estaria mentindo se dissesse que não sinto, mas é uma pressão boa. Ainda sou novo e quero aproveitar o meu futebol. Acho que, depois da Copa do Mundo na África do Sul, o povo está esperando muito da seleção, o que é natural, dado o desempenho que tivemos.

Muito se especulou sobre o clube em que você jogaria. Resolveu a vida afinal? Quais são os seus objetivos pessoais?
Defendo o (Olympique de) Marselha e estou feliz lá. No âmbito de clubes, sempre disse que queria ganhar a Liga dos Campeões; é uma dessas glórias que todo jogador gostaria de acrescentar ao currículo. Temos um time muito experiente, bastante confiante e sabemos do que somos capazes. Precisamos conquistar o Campeonato Francês primeiro. Mas, obviamente, equipes como Bordeaux e Lyon também têm bons jogadores, e todos os times são capazes de levar o título. Na seleção, tenho uma dupla missão. Primeiro, temos de ser campeões da Copa Africana de Nações, que quase levamos em Angola, quando perdemos para o Egito. Aquela derrota foi decepcionante, mas agora precisamos pensar em 2012. E é claro que o nosso maior sonho seria vencer a Copa do Mundo.

Falando na Copa do Mundo da FIFA, Gana esteve muito perto de fazer história e se tornar o primeiro país africano a se classificar para as semifinais...
Foi uma experiência dolorosa para todos nós. Creio que até hoje dói um pouco. Ser eliminado daquela maneira foi realmente difícil. Só de pensar fico triste. Estávamos tão perto, mas tão longe. Não quero falar muito sobre aquele dia, ele vai ficar na nossa memória por bastante tempo. Mas tentamos não pensar nisso, e sim nos aspectos positivos que conquistamos com a competição. Acho surpreendente que nenhuma seleção africana tenha conseguido chegar às semifinais da Copa do Mundo. A África tem alguns dos melhores jogadores do planeta, acredito que só esteja faltando um pouco de sorte. Foi bom o continente ter sediado o seu primeiro Mundial e ele ter sido um tremendo sucesso. A partir de agora, as pessoas vão levar a África a sério, vão saber que ela é capaz de organizar grandes eventos. Ficamos muito surpresos com o apoio que recebemos dos sul-africanos durante o torneio. A África estava unida.

O que o técnico Rajevac disse a vocês no vestiário depois da derrota para o Uruguai nas quartas de final?
Todo mundo estava arrasado, sabíamos que havíamos chegado muito perto de avançar às semifinais. Dava para ver a decepção no rosto de cada um depois do jogo. Não foi dito quase nada, não precisávamos de palavras.

Os jogadores da seleção de Gana parecem ser uma família feliz. É assim na realidade?
Claro que somos um grupo feliz, temos muito respeito uns pelos outros. Quando cheguei, havia astros como Michael Essien, (Stephen) Appiah e (John) Mensah, mas você via como eles tratavam bem os outros jogadores. O comportamento deles era sempre o mesmo, e aprendemos muito com isso.

Você provavelmente já ouviu essa pergunta, mas como se sente quando é comparado ao seu pai?
(Risos) Acho que a comparação sempre será feita, mas não me importo. O meu pai fez a sua parte e foi um dos maiores jogadores. Não quero me comparar a ele, creio que devo continuar sendo eu mesmo. Tenho a minha própria vida e os meus próprios objetivos.