Todo nome é um patrimônio. As árvores genealógicas reforçam sua origem. Antigamente, o sobrenome paterno gravava em pedra a classe social do seu herdeiro. Nos dias de hoje, o sobrenome marca como um carimbo, eventualmente com tinta indelével. Muitas vezes é difícil carregar o seu peso - uns se adaptam, outros não. No cinema, na música, na imprensa, na política, no esporte, todos têm os seus "filhos de peixe".
O futebol transmite a sua paixão de pai para filho. Afinal de contas, quando se cresce vendo o pai ser aclamado no estádio, é difícil não querer ser como ele.
"Mas se você analisar a vida em geral, verá que não é a maioria das crianças que seguem a mesma profissão do pai, pelo contrário", afirmou ao FIFA.com o ex-jogador e técnico Alain Giresse, pai de Thibault Giresse, 28 anos de idade e nove de primeira e segunda divisões francesas nas costas. "O futebol não é exceção. Eu diria até que, ao contrário dos artistas, não há nenhuma predisposição." Para o filho do antigo protagonista do quadrado mágico francês nas Copas do Mundo da FIFA de 1982 e 1986, o peso do sobrenome foi difícil de carregar. A mesma observação é válida para Jordi Cruijff, sempre comparado ao ídolo da Laranja Mecânica de 1974.
"A pressão da mídia pode ser mortal quando o sobrenome é lembrado o tempo todo", afirma o Giresse pai. "Depois de um tempo, não se consegue aguentar mais. Além disso, por causa do sobrenome, Thibault se deparou com situações que os seus companheiros não vivenciavam. O tratamento não era o mesmo e nem sempre foram sinceros com ele, sob o falso pretexto de que ele era meu filho. Tenho muito orgulho dele, do que ele é como pessoa, mas a sua carreira poderia ter sido ainda melhor se ele não se chamasse Giresse", completou o atual treinador do Gabão.
Quando acontece de o pai treinar o filho, como foi o caso dos Gourcuff no Rennes e dos Maldini na seleção italiana, o rigor paterno às vezes se sobrepõe ao distanciamento do técnico. "Em um certo sentido, fico feliz de jamais ter sido treinado por ele, pois ele é ainda mais exigente comigo", admite Johan Gerets, filho do ex-jogador da seleção belga Eric Gerets. "Ele sempre achou que eu não tinha o talento necessário para jogar na primeira divisão, e sempre repetia isso para mim. Não é fácil escutar isso quando se é jovem." Jean-Michel Cavalli, que dirige o Nimes, onde atua o seu filho Johan, confirma a crítica. "Já me repreenderam por ser exigente demais com ele", afirma. O rebento não desmente. "É também o que me dizem", conta Johan Cavalli. "Pelas costas, talvez digam outra coisa, é da natureza humana. Mas de uma coisa tenho certeza: se ele tiver de escolher entre escalar a mim ou a outro jogador de mesmo nível, é o outro quem joga."
Para Paolo Maldini, Yoann Gourcuff e Youri Djorkaeff, a sombra do pai não se tornou um fardo. Mas cada família tem os seus problemas e, para alguns, a motivação rapidamente vira motivo de briga. "Quando eu era muito jovem, dizia para os meus companheiros de seleção francesa naquela época que, para os filhos deles que jogavam futebol, a imagem do pai destruiu os sonhos", analisa Alain Giresse. "É muito difícil de assumir. Nem todos estavam interessados nas comparações."
Após experiências breves nas categorias de base do Nancy e do Boulogne, Laurent Platini hoje é advogado de empresas que atuam no futebol. "Seria muita presunção acreditar que eu tinha o nível necessário para seguir uma carreira profissional", explica o filho do ícone francês Michel Platini. "Os meus pais sempre me deram liberdade para que eu fizesse as minhas próprias escolhas, e escolhi uma profissão que me permitisse continuar na carreira depois dos 35 anos." Porém, para aqueles que insistem, qual deve ser o papel do pai quando a carreira do filho deslancha?
"Yoann sempre busca conselhos para tudo o que venha a fazer, e não só os meus, mas é ele e somente ele quem toma as decisões", enfatiza Christian Gourcuff. Alain Giresse segue a mesma linha de raciocínio. "A gente conversa e sempre tentei instruí-lo ou adverti-lo, mas jamais tomei o lugar dos técnicos do meu filho", pondera o francês. "Sou o pai dele, e não o seu guru." Do ponto de vista dos filhos, esta parece mesmo ser a conduta ideal. "O meu pai deixou uma mensagem de parabéns no meu telefone quando joguei a minha primeira partida na primeira divisão, e foi uma honra", conclui Johan Gerets. Jogador de futebol ou não, pai só existe um.
