No começo da temporada, nem o mais apaixonado torcedor da Lazio teria apostado que o clube estaria onde está no Campeonato Italiano. Afinal, o astro Miroslav Klose em breve fará 35 anos, o comando do time foi entregue a um treinador pouco conhecido e não foram feitas contratações de peso. Seis meses mais tarde, porém, a equipe romana aparece na segunda colocação da tabela, empatada com o Napoli e a cinco pontos da líder Juventus, mas à frente da Internazionale, do Milan e, principalmente, da arquirrival Roma.

"Tudo bem que ganhamos muitos jogos de maneira apertada, mas o importante é ganhar", diz o técnico Vladimir Petkovic, o único estrangeiro em atividade na primeira divisão da Itália, em entrevista ao FIFA.com. "A Juventus continua sendo favorita. É um time forte, mas não imbatível. As outras equipes devem acreditar no título, inclusive a Lazio. Podemos ser um dos protagonistas do campeonato."

Até pouco tempo, a declaração teria sido recebida com desdém. Mas isso por quem que não conhece o bósnio natural de Sarajevo, que também é cidadão suíço e croata e fala fluentemente servo-croata, inglês, alemão, francês e italiano. Ex-jogador que teve uma carreira modesta como meia-atacante, ele nunca havia comandado uma equipe tão importante quanto a Lazio. Quando começou a trabalhar como técnico, no Bellinzona da Suíça, Petkovic programava os treinamentos para o final da tarde, pois passava o dia a serviço da Caritas, a confederação internacional de organizações filantrópicas da Igreja Católica. "Aquela experiência me enriqueceu intelectualmente e me ensinou a gerenciar um grupo", destaca ele.

Da periferia ao estrelato
Petkovic não esquece o ceticismo reinante na sua chegada a Roma. "No começo tive algumas dificuldades porque, fora do clube, me tratavam como um técnico chegado do terceiro mundo", conta. "Os torcedores não entendiam como alguém como eu podia ter chegado ao comando de um clube como a Lazio", completa ele, que passou pelos suíços Sion e Young Boys e se aventurou na Turquia, onde treinou o Samsunspor.

"Eu o escolhi porque ele tem qualidades morais e profissionais e uma excelente abordagem psicológica do indivíduo, gerenciando um vestiário não apenas com ingredientes de ordem técnica, mas com uma abordagem moral e psicológica", explica o presidente da Lazio, Claudio Lotito.

"Inicialmente, me esforcei para estudar bem e conhecer cada jogador no plano individual, mas também em todos os detalhes da carreira e da vida pessoal", diz Petkovic. "No começo, as pessoas duvidavam. A confiança veio aos poucos, sobretudo após as vitórias no clássico e contra Inter e Milan. Foi então que começamos a ter mais credibilidade", indica ele, agora à frente de um time que briga pelo título.

Apesar das pretensões da Lazio, o técnico garante que não é hora de fazer mudanças radicais ou pedir reforços para a segunda parte da temporada. "Alcançamos um equilíbrio técnico-moral no vestiário", justifica. "É preciso preservar esse equilíbrio, que poderia ficar comprometido com a integração de novos jogadores."

Humildade e combatividade
Sob a direção do bósnio, a Lazio vem demonstrando uma incrível capacidade de adaptação em função do adversário, mas também em função do placar no decorrer da partida. O time geralmente começa jogando num esquema tático bastante ofensivo, como um 4-3-3 ou um 3-4-3, mas pode passar ao 4-5-1 ou ao 4-3-2-1 de que tanto gostava o seu antecessor Edy Reja.

Os únicos com vaga garantida na equipe são Klose e o brasileiro Hernanes, que se esmera para continuar na seleção canarinho. Por outro lado, eles marcaram 70% dos gols do clube. "Temos um bom elenco e uma grande comissão técnica, mas precisamos encarar um jogo de cada vez e não fazer planos", alerta o experiente centroavante alemão.

A exemplo de Klose, a equipe romana apresenta na atual temporada uma impressionante mistura de humildade e combatividade, nutrida pela filosofia do treinador. "Precisamos continuar dando provas de uma fome sem limite e sem medo de ganhar", diz Petkovic.

Aliás, a ordem foi seguida à risca na última quarta-feira. Mesmo jogando sem o goleador germânico no Estádio da Juventus, a Lazio conquistou uma vantagem psicológica importante ao empatar em 1 a 1 no primeiro jogo das semifinais da Copa da Itália. O resultado poderá influenciar no segundo turno do Campeonato Italiano e, desde já, confirma que Petkovic recolocou a Lazio entre as grandes foças da Série A.