"Não digo que foi graças a mim, de jeito nenhum", pondera Girard em entrevista ao FIFA.com. "Todo mundo trabalhou bem e os jogadores são as figuras principais. Grandes técnicos que ganharam muita coisa também passam por dificuldades. É preciso manter a moderação e, ao mesmo tempo, saber saborear os bons momentos. Portanto, diria que tenho a minha cota de participação nisso tudo."
Certamente que tem. Para dizer o mínimo, ele teve o mérito de transformar uma equipe que havia terminado o campeonato anterior no modesto 14º lugar em uma máquina vitoriosa. No começo da temporada 2011/12, tudo indicava que o Montpellier brigaria no máximo por uma das vagas do país nas competições continentais. No mês de maio, porém, graças a uma última vitória em visita ao Auxerre, os homens de Girard criaram uma das maiores surpresas já vistas na Ligue 1.
Uma trajetória exemplar
Ao fazer um balanço do ano que se encerra, Girard pode contemplar sem falsa modéstia os resultados de um trabalho iniciado em junho de 2009, quando assumiu o comando de um Montpellier que acabava de subir para a primeira divisão. "Não sei se falaram suficientemente sobre isso, mas não preciso de ninguém para avaliar a dimensão do que realizamos", diz ele.
"Se o Paris Saint-Germain for campeão desta vez, talvez falarão mais do que falaram sobre nós no ano passado. Contudo, fomos campeões com estatísticas e com um orçamento fora de série (o 14º do país), então talvez o PSG mereça menos atenção do que nós. Tentamos compreender a magnitude do que aconteceu conosco, mas não sei se os profissionais e a imprensa à nossa volta realmente se deram conta do que alcançamos. Foi uma campanha excepcional."
Foi mesmo, e não porque os times mais tradicionais da França decepcionaram. No final das contas, o Montpellier conquistou 50 pontos em casa e outros 32 como visitante — o melhor desempenho desde o Lyon em 2005/06. "Para um clube como o nosso, ser campeão francês contra uma equipe como o PSG, brigando ponto a ponto até a última rodada, vale ouro", comenta Girard, que certa vez interrompeu a carreira de treinador para abrir uma tabacaria.
"Mas fomos buscar os nossos 82 pontos, ninguém nos deu nada de graça", completa o treinador. "O certo é que não estávamos programados para ser campeões, enquanto outros estavam. Mas com a nossa campanha, a nossa pontuação, a melhor defesa, um dos melhores ataques, a artilharia — em vários aspectos, fomos exemplares. Talvez nunca tenha existido um título tão merecido."
A conquista de 2012 foi construída graças à identificação das ferramentas certas e ao desvencilhamento da imagem de time faltoso, agressivo até, e não necessariamente no bom sentido do termo. "É sempre difícil superar uma imagem, mas eu não me prendo a isso", aponta Girard. "O que mostramos foi sobretudo que sabíamos jogar bem com um grupo de qualidade, ao mesmo tempo preservando certos valores do clube, a vontade e a generosidade. Hoje as pessoas me agradecem pelo que aconteceu ano passado. Elas vieram ao estádio para curtir um momento bacana, e voltam porque sabem que verão um bom futebol. Isso deixa a vitória ainda mais especial."
Mudança de discurso
A conquista do Campeonato Francês de fato representou a consagração do antigo ídolo do Bordeaux, que nos tempos de meio-campista foi tricampeão nacional pelo clube e chegou a defender a seleção na Copa do Mundo da FIFA 1982, antes de se dedicar à carreira na beira dos gramados, com passagens por equipes como Nimes e Strasbourg e uma experiência como assistente técnico de Roger Lemerre quando a França venceu a UEFA Euro 2000.
Contudo, com o sucesso vêm também as cobranças. "Foi um belo ano, talvez o melhor da minha vida, mas não sei se viverei outros como este", admite Girard. Após um começo de temporada que deixou a desejar, o Montpellier já não tem esperanças de defender a taça no campeonato nacional, enquanto a primeira participação do clube na UEFA Champions League se saldou com meros dois pontos somados.
"Sabemos que por trás dos grandes momentos sempre existem quedas de rendimento", reconhece o técnico, assumindo o seu papel neste período díficil. "O treinador sempre tem a sua parte de responsabilidade. Com a idade e a experiência que tenho, não faz meu tipo dizer que a culpa é dos outros. A minha autocrítica é permanente."
Uma das coisas que Girard precisou repensar desde a chegada ao Montpellier é a forma de motivar o elenco. "Nas primeiras temporadas, e principalmente no ano passado, eu sempre dizia aos rapazes que eles não tinham provado nada, que ainda não tinham vencido coisa alguma", explica ele. "Não era provocação nem ironia, era a realidade. Hoje não posso mais aplicar esse discurso. Eles ganharam algo, provaram que podiam ser campeões nacionais, portanto é preciso encontrar outras fontes de motivação, uma outra abordagem, para que todo mundo se concentre outra vez."
Por ora, o segredo é um só: trabalho. "O fundamental é que não se muda da noite para o dia", conclui o francês. "É uma profissão onde logo somos criticados e onde todo mundo entra em pânico rapidamente. Quanto a mim, tento não perder o fio da meada e arregaço as mangas", acrescenta Girard, consciente de que, para um operário, não existe maneira melhor de continuar construindo uma bela obra.

