Ver muita gente junta na Avenida Paulista, o centro financeiro de uma metrópole como São Paulo, não é exatamente uma cena rara. O que chamou a atenção foi ver uma fila formada em plena calçada, num fim de tarde de novembro de 2012. Uma fila enorme e inesperada, feita de pessoas ansiosas – ou, especificamente, são-paulinos ansiosos - por celebrar um dos grandes momentos de sua história.

O frisson causado no lançamento do livro “1992 – O mundo em três cores” é um bom indicador de quanto aquele 13 de dezembro de vinte anos atrás representa para a torcida do São Paulo Futebol Clube. Naquele fim de tarde de Tóquio, comecinho da manhã em São Paulo, a equipe comandada por Telê Santana se sentiu, oficialmente, no direito de se considerar uma das melhores do mundo, e seu maior ídolo, de ser citado entre os grandes nomes do futebol daqueles tempos.

Em “1992 – O mundo em três cores”, que assina junto com o jornalista André Plihal, Raí dá detalhes daquele 13 de dezembro tão definitivo para ele e, sobretudo, para a equipe são-paulina. Não se tratava, afinal, de simplesmente vencer uma inédita Copa Intercontinental e diante de um Barcelona tão estrelado, mas de fazê-lo jogando de forma bonita e destemida, como o camisa 10 conta. "O Ronaldo Luís cobrou um arremesso lateral para mim no lado esquerdo do campo de ataque. A bola quicou e eu dei um chapéu de chaleira no meu marcador. Fiz isso porque os demais jogadores certamente pensariam: 'Se o Raí, normalmente tão sério, está assim, fazendo isso, a gente também pode fazer'. Eu não lembrava, mas o tal chapéu de chaleira teve como vítima um certo Pep Guardiola.”

Antes da vitória e do destemor, porém, houve medo. Ou, sobretudo, susto - porque eram apenas 12 minutos de jogo e o búlgaro Hristo Stoichkov já estava fazendo um golaço para abrir o placar. “Duas de nossas preocupações se confirmaram: um gol rápido e feito por um jogador visado”, relembra o craque no livro. Para sorte dos são-paulinos, porém, seu camisa 10 não era simplesmente Raí. Era um Raí em estado especialmente iluminado. “Era o meu momento. Uma fase como a do Romário em 1993 e 1994 ou a do Neymar nestes últimos tempos. (...) Todo mundo sabe que o cara está bem; o adversário sabe, mas não consegue impedir que ele decida os jogos.”

De fato, todo mundo sabia que, se alguém daquela máquina coletiva de Telê Santana podia ser individualmente decisivo contra um timaço com Koeman, Guardiola, Laudrup, Stoichkov e cia., esse alguém era Raí. Tinha que ser. E foi: primeiro, aos 27 minutos, num lance, se não totalmente fortuito, pelo menos estranho: Müller deu um lindo drible no lateral Albert Ferrer pela ponta-esquerda e cruzou para a pequena área - à meia-altura, digamos. Ou na altura exata para Raí mergulhar e acertar a bola com a barriga para empatar o jogo. Ali era só Raí marcando um gol. Ser realmente decisivo era algo que viria mais adiante, aos 33 minutos do segundo tempo, num lance que ele mesmo relata com precisão em seu livro recém-lançado.

"Cinquenta segundos, um instante: esse foi o tempo entre o Palhinha sofrer a falta e a hora em que eu cobrei. Seria mentiroso se viesse com aquela conversa de que pareceu uma eternidade. Estava muito confiante, concentrado, sabia que era o momento-chave e que eu iria bater. O Müller encostou em mim e disse algo como: 'Capricha, Raí, capricha'. Não queria perder a concentração e respondi rápido: 'Deixa comigo." Jogada ensaiada. Toquei curto para o Cafu, ele só parou a bola para o meu chute cruzado que encobriu a barreira indo parar no ângulo direito. Eu posicionei a bola atrás da barreira para esconder do goleiro. Quando rolei a bola, o Zubizarreta deu os dois passos para a esquerda para ver de onde partiria a bola e fechar o ângulo. Como bati no canto dele, ele não teve mais como reagir."

Ali, num dos chutes mais importantes da história do São Paulo Futebol Clube, transformou-se a imagem da coletividade daquela equipe e de seu maior valor individual. O trabalho de Telê Santana – em direção a quem Raí correu determinadamente depois de marcar o gol – era enfim coroado com os dois lados da equação: espetáculo, mas também vitória, diferente do que ocorrera com suas Seleções das Copas do Mundo da FIFA de 1982 e 1986. “O Telê nos ensinou, e nos ensinava dia após dia, o que é beleza coletiva”, conta Raí em “1992 – O mundo em três cores”. “Ele dava sentido poético ao clichê com um ou dois craques você ganha jogos, com uma equipe harmoniosa você conquista títulos’. E sim, nesse caso, chegamos ao espetáculo."