O futebol italiano, em geral bastante conservador, está passando por uma verdadeira transformação. A crise financeira e a obrigação de sanear as finanças já haviam forçado alguns clubes a venderem os seus melhores jogadores e a abrirem as portas para atletas vindos da base, até então confinados às equipes reservas. Em seguida, a tendência também atingiu os treinadores, cuja grande maioria trocou as chuteiras por terno e gravata sem passar por um período de transição. O FIFA.com observou os bancos na Itália para analisar essa onda de renovação.

O treinador tipicamente italiano sempre foi requisitado no mundo da bola pelos seus conhecimentos profundos dos esquemas defensivos e pela disciplina pessoal rigorosa. Giovanni Trapattoni foi um dos primeiros a levar esse estilo para fora da Itália, logo seguido por outros nomes de peso — Fabio Capello, Alberto Zaccheroni, Marcello Lippi, Claudio Ranieri, Carlo Ancelotti e Roberto Mancini, para citar alguns.

"É quase impossível trabalhar no longo prazo na Itália, tamanha é a impaciência reinante em algumas diretorias", avalia o experiente Luciano Spaletti, que deixou a Roma em 2009 e desde então comanda o Zenit de São Petersburgo. "Certos dirigentes são capazes de dispensar um técnico antes mesmo do início da temporada simplesmente porque deu na telha ou na sequência de três resultados ruins."

Personalidade e ideias claras
O debate pode ser complexo, mas o fato é que a média de idade dos técnicos de clubes que disputam a primeira divisão italiana caiu para 48,95 anos na atual temporada, e que 17 dos 20 são ex-jogadores profissionais, dos quais quatro totalizam juntos 156 jogos pela Azzurra. Enquanto isso, o único estrangeiro é Vladimir Petkovic, bósnio de 49 anos que comanda a Lazio. Afinal, o tcheco Zdenek Zeman possui cidadania italiana desde que chegou ao país em 1968, durante a Primavera de Praga. Por outro lado, o atual treinador da Roma é o mais velho em atividade na Série A.

Já o caçula da nova geração é Andrea Stramaccioni, da Internazionale O ex-zagueiro de 36 anos teve a carreira brutalmente interrompida aos 19 em função de uma grave lesão no joelho. "É um homem de ideias claras e muita personalidade", elogia o capitão Javier Zanetti, três anos mais velho que o próprio treinador. O presidente Massimo Moratti, por sua vez, comparou o jovem técnico a José Mourinho, que levou a Inter à histórica tríplice coroa em 2009. "Fiz a comparação com base no tempo que ambos dedicam ao trabalho", pondera o dirigente. "Às vezes um técnico pode se distrair pela publicidade em torno da sua pessoa ou por sua popularidade. O Stramaccioni tem essa força do trabalho, e é algo natural dele. Depois, se ele conseguir os mesmos resultados que o Mourinho..." 

Vincenzo Montella pendurou as chuteiras no dia 2 de julho de 2009 com um saldo de 237 gols marcados pelos times que defendeu e 20 partidas com a camisa da Itália. Assim como Stramaccioni, o ex-atacante também começou treinando as equipes juvenis da Roma, depois assumiu interinamente o time principal, passou pelo Catania e hoje está na Fiorentina para "fazer com que ela volte a ser grande". Ele se diverte pela rivalidade com Stramaccioni pelo título de treinador mais jovem da Itália. "O Andrea é um amigo, trabalhamos lado a lado e escalamos uma certa hierarquia", enfatiza Montella, fiel partidário do futebol ofensivo. "Ninguém nos dá nada de presente no mundo do futebol."

A voz da experiência
Atualmente no comando do Parma, Roberto Donadoni, de 49 anos, treinou a seleção italiana de 2006 a 2008 e é o técnico com o maior número de partidas pela Azzurra nos tempos de atleta, com 63 participações — 14 a mais que o colega de Sampdoria Ciro Ferrara, 45, que passou dez temporadas no Napoli e 11 na Juventus como jogador. O técnico da Juve, Antonio Conte, 43, também se transferiu diretamente dos gramados para o banco.

Mas nem todos eles foram futebolistas conhecidos. Massimiliano Allegri, 45, fez carreira em times das divisões inferiores antes de receber o comando do Milan das mãos do presidente Silvio Berlusconi em 2010. Também há ex-jogadores com um larga trajetória dentro das quatro linhas, como por exemplo Giovanni Stroppa, 44, que hoje dirige o Pescara após 456 partidas em 22 anos de futebol, ou ainda Eugenio Corini, 42, técnico do Chievo que também jogou profissionalmente durante 22 temporadas. Esses veteranos do esporte bretão provavelmente não têm dificuldades para se fazerem ouvir no vestiário, e o plantel certamente não pode acusá-los de não entenderem do assunto.

Em matéria de treinadores, as opções da Itália parecem inesgotáveis. Afinal, a próxima geração também já está começando a galgar espaço, encabeçada por um certo Filippo Inzaghi. Atualmente, o ex-centroavante de 39 anos está tentando transmitir a malícia de goleador aos jovens da base do Milan.