Na sexta-feira, 29 de junho, o goleiro Victor tocava sua rotina normalmente. Foi até o Olímpico, treinou normalmente com seus companheiros, entre os titulares, com a cabeça focada na sétima rodada do Campeonato Brasileiro, domingo. De noite, ficou sabendo que não ia jogar. Numa transação incomum entre dois times grandes do país, havia acabado de ser transferido para o Atlético Mineiro. Sim, o mesmo rival que o Grêmio enfrentaria no domingo.

“Foi tudo muito rápido. Fiquei surpreso como todos os torcedores”, relembra o goleiro. “Inclusive, no dia em que saiu a negociação, estava me preparando para justamente o Atlético. A proposta foi feita na noite de quinta e no dia seguinte já estava tudo concluído. Mas em nenhum momento me arrependo.”

E por que se arrependeria? A despeito da sólida carreira que havia construído no clube gaúcho, Victor hoje defende a meta do líder do Brasileirão, que ainda não perdeu desde a chegada desse inesperado reforço. Foram sete jogos até agora pelo Galo, com seis vitórias e um empate.

Tudo muito singular
Desde que foi divulgada a transação-relâmpago, Victor, na verdade, pôde assistir a oito partidas do Atlético Mineiro – a primeira sendo precisamente o confronto de seu novo clube, e jogadores com os quais ainda não havia nem treinado, com a equipe que defendeu por quatro anos.  “Foi uma situação um pouco inusitada. Fiquei em Porto Alegre e vi pela televisão. Não dava para ir ao estádio, até pela mudança”, admite. “Mas, claro, que ali minha torcida já era para o Atlético e vibrei com a vitória”, completa o arqueiro, ainda um tanto admirado com esse momento singular de sua carreira. 

Fora de casa, o Atlético venceu o Grêmio por 1 a 0 com um dos gols mais memoráveis do ano, no qual o baixinho Bernard fez uma jogada fantástica pela ponta esquerda, dando dois chapéus em sequência até cruzar na medida para o centroavante Jô arrematar. Para Victor, inevitável o prenúncio de que boas coisas estavam por vir. Nos sete jogos em que atuou, o goleiro levou cinco gols, menos de um por partida, numa média notável, ainda mais considerando os 16 que sua equipe anotou no período. 

Uma das vitórias que já teve como atleticano, aliás, aconteceu até mesmo em um duelo com o bom e velho rival, o Inter. Mas dessa vez não era Gre-Nal, rivalidade com a qual se habituou nos últimos anos. Agora ele vai conhecer outra das grandes disputas regionais do Brasil: seu primeiro grande duelo com o Cruzeiro está marcado para o dia 26 de agosto. Por enquanto, porém, o clima com a fração azul de Belo Horizonte vem sendo amistoso. “Houve cruzeirenses que já me reconheceram na rua, mas vieram pedir fotos, até pela história que já tenho no Brasil. Foi bacana ver o reconhecimento do torcedor rival”, conta, tranquilo, o paulista de Santo Anastácio, cidade que fica acima de Presidente Prudente, bem no Noroeste do Estado.

Victor ainda não conseguiu encontrar uma casa em Belo Horizonte e está se familiarizando com a capital mineira. “Precisa de paciência para procurar algo que esteja de acordo com meu gosto. Ainda me sinto um pouco como o peixe fora d’água, aprendendo a andar, conhecer a cidade, buscando informação.”

A formação de um líder
De todo modo, essas são coisas para o jogador fazer quando tiver tempo. No momento, Victor está bastante ocupado com a ótima campanha do Galo, na qual ele consegue identificar muitas qualidades. “Temos uma estrutura que, creio, nenhum clube do Brasil tem. E o comprometimento do pessoal é algo que chama muito a atenção. Nosso elenco não é muito grande, mas é qualificado, e todos estão pensando da mesma forma. O índice de doação é muito alto, e isso tem se refletido em bons resultados que nos mantêm na ponta.”

Um dos responsáveis por essa concentração da equipe vem sendo ninguém menos que Ronaldinho. Sua dedicação ao jogo foi muito questionada nos últimos anos, mas pelo contato que teve com o astro na Cidade do Galo, Victor não tem o que falar a respeito. “Está sendo uma satisfação enorme. Impressiona, sim, trabalhar com ele, e não só pela quantidade técnica. Vale destacar a liderança: é um jogador extremamente comprometido, que fala bastante e raramente fica fora dos treinos. Ele sempre nos dá uma leitura boa sobre o que o ocorre em campo e serve de espelho para os mais jovens.”

Com homens de frente de potencial como Jô, André, Guilherme e Bernard e a experiência e visão de jogo de Ronaldinho por trás, não surpreende também que o Atlético tenha o melhor ataque do campeonato no momento, mesmo com um jogo a menos, tendo marcado 25 gols em 13 rodadas. São atletas que o técnico Cuca tem manejado com a criatividade típica de suas equipes. “Todo mundo sabe como cada time joga, então é preciso encontrar alternativas. O Cuca sabe buscar situações diferentes para confundir os adversários”, avalia o goleiro, que tem uma visão privilegiada sobre aquilo que se passa em campo.

Na briga pelo título
Perante essa combinação de estrutura, talento, seriedade e resultados, então, talvez o maior desafio para os atleticanos daqui para a frente seja domar as expectativas de sua fervorosa torcida, que não comemora o título nacional desde 1971. Como reagir em meio a tanta expectativa? “Não podemos deixar a euforia que contagie o vestiário. Tem de saber a dificuldade que é disputar essa liderança a cada rodada. Vai ficando mais difícil, o time acaba ficando mais visado, os adversários, mais preparados. Mas o pessoal tem trabalhado isso com naturalidade.”

“Acho que, pela posição que o time se encontra na tabela, podemos  fazer projeções de brigar pelo título, mas tem de ser com bastante tranquilidade. Ainda temos mais 25 rodadas pela frente, e muita coisa vai acontecer. Mas a situação que atravessamos, se o time continuar jogando da mesma forma, isso te permite fazer a projeção”, afirma o goleiro, com confiança.

Nesta trilha que deve ser vibrante, mas com os pés no chão, Victor pode ainda se deparar novamente com aquela sensação estranha do início. O Grêmio é um dos times posicionados no G-4 e conta com um elenco bastante reforçado para seguir na briga até o fim. Mas agora a surpresa já passou, e ele já tem seu lado na disputa mais que definido. “Isso não interfere em nada. Fiz uma história lá, o clube me deu a possibilidade de crescer profissionalmente, mas agora ele se tornou o meu adversário.”