Faixas com mensagens de carinho, mosaicos e até bandeira gigante com a foto do novo camisa 10. Foi assim, em clima de festa, que a torcida do Botafogo recebeu neste domingo o holandês Clarence Seedorf para seu jogo de estreia no Campeonato Brasileiro. A reação mais do que se  justificava: depois de meses de “namoro”, o ex-meia do Milan rejeitou propostas de outros clubes e optou pelo acerto com os cariocas, tornando-se a principal contratação do futebol brasileiro durante a janela de transferências e uma das maiores de todos os tempos no país.

Os altos valores da negociação impressionaram, mas o Botafogo não foi o único a abrir os cofres durante o período. Poucos dias após o sim do holandês, o Internacional acertou a vinda do Bola de Ouro adidas da última Copa do Mundo da FIFA, o uruguaio Diego Forlán, enquanto o Corinthians reforçou o elenco que disputará a próxima Copa do Mundo de Clubes da FIFA com o peruano Paolo Guerrero, ex-Hamburgo e artilheiro da última Copa América.

As contratações confirmaram uma tendência que vinha ganhando força nos últimos anos: antes exportadores, os clubes brasileiros passaram a olhar para o exterior como uma oportunidade real de reforçar seus elencos e rivalizaram com mercados teoricamente mais atrativos graças aos ótimos contratos e salários pagos no país. A diferença é que, desta vez, estes investimentos não visaram os próprios jogadores brasileiros, mas, sim, estrangeiros de renome.

“O Campeonato Brasileiro está, hoje, entre os melhores do mundo e a qualidade dos que estão vindo confirma isso. É, sem dúvida, algo muito positivo”, aponta o experiente meia Zé Roberto – outro destaque da última janela de transferências –, em entrevista ao FIFA.com. “Pelos grandes nomes que tem, o campeonato está se tornando o principal que se disputa no mundo, com vários candidatos ao título. E o nível destes jogadores vai deixar os clubes no Brasil ainda mais fortes.”

É, como Zé Roberto afirma, uma equação relativamente simples, em que todos saem ganhando: para os clubes, o retorno vem através de ações de marketing e consolidação da marca; para os jogadores, é uma oportunidade de estar antes no palco da próxima Copa do Mundo da FIFA; para o futebol brasileiro, um grande chamariz. “A tendência, a partir de agora, é que outros jogadores sigam este caminho”, aposta Zé Roberto. “Muitos vão ter essa vontade, e isso é bom para o país. Com certeza vai ajudar na próxima Copa do Mundo.”

Tendências nem tão novas
A contratação de um holandês quatro vezes campeão europeu foi sem precedentes, assim como a do melhor jogador do Mundial de 2010 representou um passo adiante em um processo que havia se estabelecido na década passada: justamente por conta da moeda forte, tornou-se cada vez mais natural ver um atleta sul-americano atravessar a fronteira e vestir a camisa de um clube brasileiro.

De destaques de times da Argentina, Uruguai ou Chile a revelações do Paraguai ou Peru, a invasão dos vizinhos se tornou inevitável. Assim, Forlán e Guerrero se juntarão a nomes como Andrés D’Alessandro, Jorge Valdívia, Walter Montillo, Pablo Guiñazú, Marcelo Moreno, Jesús Dátolo, Hernán Barcos, Luis Ramírez, Alejandro Martinuccio, entre outros, dando ao Campeonato Brasileiro um toque castelhano.

Ao mesmo tempo, a janela de transferências do exterior foi a oportunidade para que muitos times repatriassem jogadores com passagem pela Seleção, outra das tendências notadas nos últimos anos. Assim como o Grêmio fez com Zé Roberto, o rival Inter acertou o retorno do zagueiro Juan, ex-Roma. Ambos repetirão agora o caminho que Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Luís Fabiano, Juninho Pernambucano, Elano, Gilberto Silva, entre outros, haviam trilhado recentemente.

Todos, sem exceção, voltaram após construir carreiras sólidas na Europa, sendo que alguns ainda com lenha para queimar e sonhos para realizar. “Para muitos, os jogadores acima de 30 anos são considerados velhos, mas o próprio Seedorf tinha propostas lá na Europa”, garante Zé Roberto, de 37 anos. “Outros que estão aqui e vieram antes também estão muito bem. Há muita gente quebrando tabus.”

Em grande forma, o meia do Grêmio é autoridade no assunto e esteve presente no Engenhão neste domingo, no reencontro com seu ex-companheiro de Real Madrid. Na festa para Seedorf – que teve estreia apenas regular –, foi dele a assistência para o gol do boliviano Marcelo Moreno na vitória dos visitantes, mostrando que o novo xodó da torcida botafoguense terá de correr contra o tempo para se adaptar a um futebol de muita velocidade. Forlán e Guerrero também já devem estar avisados.