Com uma vitoriosa passagem pela Alemanha, uma breve experiência no Real Madrid e duas Copas do Mundo da FIFA no currículo, o meia Zé Roberto, um dos reforços de peso do Grêmio para esta temporada, tem muita história para contar.
O FIFA.com teve a chance, então, de ouvir o experiente jogador para revisar alguns dos principais pontos de sua carreira - durante a qual viu o astro francês Zinedine Zidane aparecer muitas vezes de modo, digamos, inconveniente.
Hoje, na briga pelo título do Campeonato Brasileiro, em plena forma, mesmo aos 38 anos, o brasileiro parece bem distante de uma aposentadoria. "Tenho o privilégio de poder decidir quando parar." Confira os motivos:
FIFA.com: Como estão essas primeiras semanas de retorno ao Brasil depois de tanto tempo fora?
Zé Roberto: Estou muito feliz, até pelo projeto que o Grêmio apresentou. Estou engajado e espero fazer um grande trabalho. O início é um pouco difícil, pois falta um pouco de ritmo e entrosamento. A cidade é muito parecida com a Alemanha, com pessoas civilizadas, muita ordem no trânsito... Isso me chamou a atenção. E o povo é muito carinhoso. Estou gostando muito.
O Grêmio reuniu muitos nomes de prestígio em seu elenco: além de você, chegaram Elano e Fábio Aurélio, mais Gilberto Silva, Kleber, Marcelo Moreno... Como lidar com a expectativa que isso gera?
É natural que, ao formar um time com grandes nomes, se espere resultado. É para isso que o time foi formado. Mas, para isso, é preciso de tempo. Eu, particularmente, estou voltando agora, após cinco anos longe do Brasil. Preciso de readaptação. Todos precisam de um pouco de tempo para colocar em prática suas qualidades em prol do coletivo.
Para você, quais são os principais obstáculos para a readaptação?
A diferença que sinto é por não conhecer bem o time. Então, tenho que entender aquilo que cada um costuma fazer em campo. A forma de se jogar lá fora é mais rápida, e o campo, mais baixo. Para se adaptar, é preciso jogar. Treinar é uma coisa, jogar, outra. Estava vindo sem jogar desde maio. Mas foi o que aconteceu comigo no Santos também: depois, as coisas fluíram e conseguimos o título (paulista em 2007).
Foram poucos jogos até agora, mas já deu para ver que você ainda está com um bom preparo físico: como chegou a esse ponto da carreira tão bem?
Agradeço muito pela genética que Deus me deu, pela idade a que cheguei com alto nível. Mas sempre me cuidei. A família é minha base também: estou sempre com meus filhos, não sou de perder noite. Antes dos treinos e depois, quando posso, trabalho para aprimorar, vendo se falta explosão, fazendo fortalecimento lombar e das articulações. Também ajuda, para ter uma carreira de quase 18 anos, o fato de que nunca tive nenhuma lesão séria. Essas lesões comuns nem sei o que são: grau um, grau dois... Nada que tenha me afastado.
Temos muitos casos de jogadores que foram longe na carreira, mas que acabaram recuando no campo, como Matthias Sammer e Lothar Matthaeus. Para você, ocorreu justamente o contrário: da lateral para o meio-campo e agora como um meia-atacante. Como aconteceu isso?
Sempre fui um jogador muito leve, e, quando você une a leveza com técnica e velocidade, isso te dá a possibilidade de jogar em qualquer lugar. Mas acho que, por ter a técnica diferenciada, de poder criar para os atacantes e fazer lances individuais, fui avançando. Acho que hoje tenho quase o mesmo peso de quando iniciei. Hoje peso 70 kg, mas, dependendo do jogo, pode baixar para uns 68, 69 kg, que era o quanto pesava na Portuguesa. E, sem lesão, só para de jogar quem quiser.
O pensamento de parar de jogar ainda está distante?
A única dificuldade que tenho é que não consigo ficar muito longe da minha família. Sempre que tenho folga quero estar com eles. Aqui no Brasil se exige muito do atleta, se passa muito tempo concentrado, viajando, e isso tira muito tempo da família. No Catar foi quando tive mais tempo: conseguia levar e buscar meus filhos na escola, e disso estou sentindo essa falta. Vamos ver no final do ano como vai ser. No lado profissional, é bem melhor poder decidir o que fazer do que simplesmente não ter mais condições de jogar. Tenho esse privilégio, mas primeiro vem tudo aquilo em que foquei: a busca da vaga na Libertadores e fazer um grande Brasileiro.
Voltando lá atrás: a primeira vez que você tentou jogar fora do país foi na Espanha. Teoricamente, para um brasileiro, era uma realidade mais fácil de assimilar do que a Alemanha. Mas você voltou rapidamente. Por que não deu certo?
Saí com 22 para 23 anos, muito jovem, ainda mais saindo de uma equipe considerada pequena, que é a Portuguesa, e indo para um clube gigante como o Real Madrid, com contrato assinado de cinco anos. Sabia que, para triunfar lá, ia precisar de tempo. Mas, como eu tinha um sonho de jogar a Copa do Mundo (França 1998) e estava sendo convocado desde a sub-23, tive uma conversa bem transparente com o Zagallo. Ele falou que contava comigo no grupo, mas que eu tinha de estar jogando. Sabia que, para buscar espaço lá, eu ia precisar de alguns anos. Aí decidi pelo Mundial e trocar o Real pelo Flamengo. Mas acredito que se ficasse, ia fazer sucesso, independentemente da concorrência que tinha - assim como na Alemanha, onde fiquei por 12 temporadas. A diferença é que lá tive tempo de adaptação aos costumes, pegar a língua alemã, aprender a forma que se joga lá.
Pensando em seu longo período na Alemanha agora, parece que sua adaptação foi muito fácil. Mas no começo não era bem assim, não?
Não, poxa, a maior dificuldade que tive foi o período de adaptação no Leverkusen. Levou quase um ano. Cheguei no verão, mas depois de três, quatro meses entramos no inverno rigoroso, com neve e temperaturas de -7ºC, -10ºC. Isso para um brasileiro, sem falar o idioma. A vontade é de pegar o primeiro avião e ir embora. Mas, como já tinha ido para a Espanha sem sucesso, estava muito focado em passar por essas dificuldades. E cheguei num clube que dava muito suporte ao estrangeiro. A gente tinha um intérprete e os brasileiros: Emerson, Robson Ponte e Paulo Rink. Suas famílias nos acolheram. Depois deslanchei. Foram quatro anos no Leverkusen, mais seis no Bayern e outros dois no Hamburgo. Hoje tenho passaporte, algo que me deixa muito feliz.
Quando partiu para a Alemanha, imaginava, que era para ficar tanto tempo?
(Risos) Nunca me passou na cabeça. Muitas vezes você não quer enfrentar esses obstáculos, mas aprendi que é nesses momentos que você cresce. Mas me lembro de como foi antes de ir. Estava no Brasil, tinha acabado de jogar, e saí para jantar com representantes do clube. Quando voltei para casa, falei que tinha a proposta de ir para Leverkusen. Convenci minha esposa de que era uma oportunidade que talvez não voltasse mais, que iríamos para ficar um ano e aproveitar uma vitrine. Acabamos construindo praticamente toda a nossa vida lá. Nossos filhos nasceram lá, a maioria do que conquistei foi lá, a fluência na língua, o passaporte que jamais poderia ter... Agora posso dar para meus filhos, que talvez posam fazer faculdade por lá. Isso não tem preço.
Ao final da carreira, pensa em morar na Alemanha?
Não, não. Adoro o país, mas já passei muito frio (risos). Não sei o que fazer. Por ter vivido muito tempo lá, talvez possa fazer alguma coisa que envolva Brasil e Alemanha.
Agora, falando de Copa do Mundo. Você jogou as edições de 1998 e 2006, mas acabou justamente pulando a de 2002. Ter ficado fora do título brasileiro foi algo que te deixou muito chateado?
Com certeza. De repente, essa seria minha maior frustração. Em 2002 era meu auge na Europa. O Leverkusen fez uma grande temporada, jogando as finais da Copa da Alemanha e da Champions. Disputamos também o título da Bundesliga. Infelizmente, não ganhamos nenhum dos três, mas aquele ano entrou para a história. Eram coisas que jamais haviam acontecido para o clube. Estava no melhor momento, e acabei ficando fora da Seleção por causa de dois jogos. Mesmo com a Seleção passando por turbulência e tendo mudança, fui convocado por todos os treinadores. O último foi o Felipão, que me convocou junto com o (lateral) Serginho e (o zagueiro) Juan, para os dois últimos jogos das eliminatórias. O primeiro foi na altitude em La Paz e acabamos jogando mal (derrota por 3 a 1). O time ganhou o jogo contra a Venezuela, e acabamos ficando fora. Eu praticamente me via naquele grupo, mas o treinador optou por levar outros jogadores.
Comparando as duas Copas que disputou, 1998 e 2006, quais as principais diferenças? Em 1998, a gente entrou no grupo dos favoritos, juntamente como umas duas ou três seleções. Acho que fizemos um grande Mundial e acabamos perdendo para uma seleção muito forte. Aprendi muito ali, com jogadores experientes como Dunga, Leonardo, Bebeto e Rivaldo. Eles fizeram uma grande Copa do Mundo, e acabamos perdendo porque a seleção da França vinha muito forte em casa. Jogaram muito na final. Ali a gente tinha um grupo mais concentrado. Em 2006 foi diferente: parece que não tinha muito comprometimento, com dois ou três jogadores se apresentando acima do peso. Havia aquela feira (em Weggis, na Suíça) em frente ao campo de treinamento, com samba e coisas do Brasil. A gente não tinha um tempo separado, só com jogadores e comissão técnica. Dificultou a concentração, e a expectativa era muito grande. Hoje a gente apontaria a Espanha como candidata ao título em qualquer torneio, e naquela época encaravam assim a Seleção, que vinha de títulos na Copa América e na Copa das Confederações. Mas a gente não tinha um time focado.
Pensando aqui, por três vezes suas equipes acabaram esbarrando em um time comandado por Zinedine Zidane: nas Copas do Mundo citadas e também na final da Liga dos Campeões de 2002, Bayer Leverkusen x Real Madrid. Incomoda, de alguma forma, quando se lembra dele?
É, o Zidane ganhou essas... Mas até que não. Faz parte enfrentar grandes jogadores. Quando enfrentamos e não conseguimos a conquista, é meio frustrante. Mas você competir numa época de Zidane, com um jogador dessa qualidade, técnica... Era frustrante, mas gratificante também.
