Diversos países organizam campeonatos de futebol há muitas décadas, e algumas dessas ligas nacionais já superam um século de vida. Mesmo tendo entrado bastante tarde para o clube, o Japão conseguiu transformar a sua J-League no certame mais forte do futebol asiático. A competição, inaugurada em 1993, chega à 20ª edição de olho em também ser reconhecida como uma das mais importantes do mundo. A seguir, o FIFA.com relembra uma história de constante ascensão.

Aroma brasileiro
Oficialmente, a primeira competição de clubes do país foi a Liga Japonesa de Futebol, conhecida também em inglês como Japan Soccer League, que coincidiu com o "milagre econômico" entre as décadas de 1960 e 1980. Formado em 1965 com 12 equipes amadoras, o campeonato teve fim em 1992, quando a Federação Japonesa de Futebol decidiu criar uma liga profissional para surfar na onda de otimismo causada pelo título da Copa Asiática de Seleções do mesmo ano. Até então, o golfe e o beisebol dominavam o cenário esportivo da terra dos samurais, deixando o futebol no banco de trás, mas a nova liga começou a levar o esporte bretão às manchetes.

Uma das grandes atrações nos primeiros anos foram os jogadores estrangeiros, muitos deles verdadeiros ídolos internacionais. O principal foi o brasileiro Zico, que ajudou o Kashima Antlers a ficar com o vice-campeonato na primeira temporada. Em seguida, chegou o compatriota Dunga, que encantou a torcida do Júbilo Iwata. Já o sérvio Dragan Stojkovic foi escolhido o craque do certame em 1995, quando defendeu o Nagoya Grampus do técnico Arsène Wenger.

Por outro lado, os jogadores japoneses também começavam a virar astros no país todo. O mais famoso de todos foi Kazuyoshi Miura. Após passagens por vários clubes brasileiros na década de 1980, "Kazu" levou o Verdy Kawasaki ao título nas duas edições iniciais da J-League. Por sua vez, a seleção nipônica também se fez mais forte com atletas como o próprio Miura, Masashi Nakayama, Masami Ihara e o cabeludo e barbudo Ruy Ramos — nascido no Brasil, mas naturalizado japonês. Os samurais ficaram muito perto de se classificarem para a Copa do Mundo da FIFA 1994, mas acabaram perdendo a vaga ao tomarem um gol no último minuto da última partida do torneio classificatório.

Geração de ouro
O sucesso instantâneo da J-League fez com que a quantidade de clubes aumentasse de dez para 12 em dois anos. Nas quatro temporadas seguintes, o número chegou a 18. Como resultado, os estádios começaram a receber cada vez mais torcedores. O recorde de público pertence à temporada de 1994, quando a média ficou em 19.598 espectadores.

Em meio a uma liga muito bem administrada, jovens jogadores puderam emergir e se desenvolver. Hidetoshi Nakata, Shinji Ono, Junichi Inamoto e Shunsuke Nakamura tornaram-se ídolos dos seus clubes e da seleção japonesa antes de se transferirem para importantes times europeus.

Com o crescimento da J-League, os clubes também passaram a ter desempenhos mais fortes em nível continental. O Yokohama Flugels ganhou a Supercopa da Ásia em 1995, façanha repetida pelo Júbilo quatro anos depois. Já a seleção nacional voltou a vencer a Copa Asiática em 2000, 2004 e 2011, além de ter participado de todas as edições da Copa do Mundo da FIFA desde 1998.

Linha de produção
O sucesso da J-League não passou despercebido pela Confederação Asiática de Futebol, que a classificou como o único campeonato nacional de categoria "A" em todo o continente. A superioridade do Japão foi confirmada por conquistas na Liga dos Campeões da Ásia: enquanto o Urawa Reds ficou com o título em 2007, o Gamba Osaka ergueu o caneco no ano seguinte.

Ainda mais impressionante é a verdadeira linha de produção de craques que seguem formando a espinha dorsal do selecionado comandado pelo italiano Alberto Zaccheroni. Shinji Kagawa, recém-contratado pelo Manchester United, e Shinji Okazaki, hoje no Stuttgart, começaram disputando a J-League. Já Keisuke Honda, antigo ídolo do Nagoya Grampus, é hoje um dos principais jogadores do CSKA de Moscou. Entre as revelações mais recentes do certame, estão Hiroki Sakai e Hiroshi Kiyotake, que hoje atuam pela seleção sub-23 e defendem respectivamente Hannover e Nürnberg na Alemanha.

As respostas do presidente
O FIFA.com falou com o presidente da J-League, Kuniya Daini, que relevou a importância de unir os grandes times às comunidades e a imporância do surgimento de novas estrelas que ganhem experiência no estrangeiro.

FIFA.com: Presidente, obrigado por falar com o FIFA.com. Testemunhou o desenvolvimento da J-League nos últimos 20 anos. Como classifica e evolução do futebol?

JFA President Kuniya Daini: Penso que a J-League é fantástico por aquilo que conseguiu, trazendo grandes transformações ao futebol e à sociedade japonesas. Como resultado disso, surgiu um grande número de grandes jogadores e as seleções de todos os escalões evoluíram imenso. Tudo se deveu ao enorme profissionalismo com que se tem trabalho nestes últimos 20 anos e isso também iluminou o caminho para o novo conceito de "futebol profissional baseado nas comunidades".

De certa forma, a J-League tornou-se numa linha de produção, com muitos jogadores a emergirem antes de se transferirem para grandes clubes europeus. Os últimos anos tiveram como exemplos Kagawa, Okazaki e Honda, só para citar alguns. Que opinião tem sobre este fenômeno?
Muitos dos nossos jogadores têm visto a sua reputação internacional crescer imenso e isso dá-nos uma grande alegria. É algo que testemunha o sucesso no desenvolvimento dos nossos atletas que, depois, ajudam a seleção japonesa com a experiência que adquiriram na Europa. O seu sucesso ajuda as crianças a seguirem o seu sonho futebolístico.