Havia um consenso geral de que os 3 a 0 que o Boca Juniors marcou no Grêmio em Buenos Aires, no jogo de ida da final da Copa Libertadores de 2007, tinham sido um tanto exagerados. Naquela partida, o time porto-alegrense sofreu dois gols e ficou em desvantagem numérica antes dos 15 do segundo tempo e ainda assim havia sido melhor em boa parte de um encontro no qual o goleiro argentino Mauricio Caranta foi o grande nome.

Diante da boa apresentação na Bombonera e com o apoio da torcida no Estádio Olímpico, havia uma esperança real de que os comandados de Mano Menezes conseguissem uma virada no jogo de volta, que ocorria há exatos cinco anos nesta quarta-feira, dia 21 de junho. E os tricolores gaúchos definitivamente fizeram sua parte, dominando o jogo.

No entanto, Tuta e Carlos Eduardo desperdiçaram boas oportunidades, Lúcio passou raspando com dois chutes de longa distância, Diego Souza e Rolando Schiavi pararam na trave e Caranta fez uma defesa corajosa em uma bola que sobrou na área e parecia destinada a se transformar em gol dos gremistas.

No entanto, se havia um jogador em campo que tinha deixado sua marca durante toda a competição, esse era Juan Román Riquelme. O Boca esteve prestes a ser eliminado na fase de grupos, mas uma atuação de gala do habilidoso armador inspirou uma goleada por 7 a 0 sobre o Bolívar na última rodada, que foi suficiente para classificar o gigante argentino. Nas oitavas de final, Riquelme marcou nos dois jogos contra o Vélez – que terminaram com um 4 a 3 na soma dos placares para os xeneizes –, fez um dos gols da vitória sobre o Libertad paraguaio fora de casa nas quartas e foi o destaque da eliminação do Cúcuta Deportivo colombiano na semifinal, após uma derrota na ida. Como se isso fosse pouco, ele ainda balançou a rede com uma cobrança de falta espetacular e participou das jogadas dos outros dois gols da primeira partida da decisão contra o Grêmio.

Riquelme, no entanto, estava reservando o melhor para o final – aquilo que talvez tenha sido o gol mais bonito da história da Libertadores. Quando o camisa 10, emprestado pelo Villarreal espanhol ao clube portenho, pegou a bola à direita da grande área gremista aos 23 minutos do segundo tempo, não parecia que levava nenhum perigo. Porém, mesmo de pé direito, ele subitamente bateu cruzado, com tanto efeito que o goleiro Sebastián Saja não teve condições de pegar. Mesmo em trajetória aberta, a bola foi parar na rede, rente à trave.

E, mesmo com aquele gol incrível, Riquelme ainda teve tempo para mais. Também foi dele o outro gol da vitória por 2 a 0 – este, de forma atípica, como um centroavante que se meteu por entre dois zagueiros para completar uma bola cruzada para dentro da pequena área, quando faltavam dez minutos para o fim.

O Boca vencia sua quarta Libertadores em oito anos e a sexta no total, o que deixava o clube a apenas um título do recordista Independiente. Com a consagração, conquistou a vaga na Copa do Mundo de Clubes da FIFA no Japão e a maior vitória em decisões do torneio continental – 5 a 0 na soma dos placares. Tudo isso, sem dúvida, devido a um único jogador.

"Você pode marcar bem o Riquelme por 89 minutos, mas em apenas um ele pode decidir o jogo. Foi ele quem ganhou a final para o Boca. É mágico, é um jogador fenomenal", resumiu Mano Menezes após a derrota.

"O Román é único", definiu Martín Palermo, seu companheiro no Boca. "Ele é capaz de fazer com a maior facilidade coisas que o resto de nós nem sonharia em conseguir."

E, apesar de o placar final dos dois encontros sugerir que o Boca ganhou com tranquilidade, esse não teria sido o caso se o time não tivesse contado com uma das maiores atuações individuais jamais vista em uma final de Libertadores.