Willian já estava de férias, assim como todos os seus companheiros corintianos campeões nacionais, quando recebeu uma ligação que o pegou de surpresa: estava convocado para integrar a delegação do time que enfrentaria um combinado dos melhores do Brasileirão 2005, em amistoso festivo. Seria sua estreia no time profissional. Qual seria, então, a reação esperada para um adolescente de 17 anos? Um susto inicial e empolgação? Confere. E, depois de digerida a informação, apreensão e nervosismo? Nem tanto.

“Pensei: ‘Legal, né? Vou para o banco, pelo menos’. Só que aí o Carlos Alberto atrasou, e falaram que eu iria sair jogando. Fiquei bem tranquilo. Era um jogo de festa, mas, para mim, não. Queria mostrar serviço”, relembra ao FIFA.com o meia-atacante, hoje do Shakhtar Donetsk.

Pausada, a fala de Willian resume bem o temperamento sossegado de um – ainda – jovem de 23 anos, e ajuda a explicar seu sucesso com o dominante clube da Ucrânia, pelo qual já conquistou dez títulos desde a chegada em 2007.

Hegemonia
Parece que foi ontem que Willian subia das divisões de base do Corinthians para se fixar rapidamente, em 2006, como uma das revelações mais promissoras do futebol brasileiro. Naqueles tempos, o técnico Emerson Leão, admirado, enchia a bola do garoto, para que partisse para cima dos adversários. "É um cara que agradeço muito pelo que fez por mim, e deu muita moral, me colocou de titular e ele falava que era para pegar a bola e ir para cima, que a responsabilidade era dele. Quando pegava a bola e tocava, ele dava dura em mim: 'Você não é jogador para tocar a bola, é jogador para recebê-la e partir'. Aí jogador empolga. Se o treinador está falando isso, você não vai fazer? Ficava meio tímido, claro, mas se ele, mandou, tem de fazer.”

Soa até estranho, agora, constatar que já faz cinco temporadas – desde 2007 – que o meia defende o Shakhtar. “Passou muito rápido, mesmo. É um período de felicidade, em que conquistei muitas coisas boas e cresci bastante."

Antes de erguer troféus, Willian precisou vencer a primeira e principal barreira numa transferência para o Leste europeu: a fase de adaptação. No clube, ele tem a companhia de mais sete brasileiros e um brasileiro naturalizado croata. Por ordem alfabética: Alan Patrick, Alex Teixeira, Dentinho, Douglas Costa, o croata Eduardo da Silva, Fernandinho, Ilsinho e Luiz Adriano. Mas não são todos os compatriotas que passam por lá que que prosperam, e há muitos casos de jogadores que, após um mês na nova cidade, já sonham em retornar para casa.

“Tem de ter paciência no começo. É difícil com o frio e a língua. Você pensa em voltar. Sai de seu país com moral, chega e fica no banco. Fiquei inquieto, mas no fim me acalmei e segui trabalhando”, conta o jogador, que morou sozinho por um tempo e recebeu a companhia do pai depois, até se casar. “Acabei me adaptando bem. Quando recebi uma sequência de jogos, fiz meu melhor e não saí mais do time.”

Não saiu da equipe e não parou de atualizar o currículo. Com a ajuda do habilidoso meia-atacante, que pode atuar tanto caindo pelas pontas como mais centralizado, driblando e distribuindo o jogo, o Shakhtar conquistou quatro das últimas cinco ligas ucranianas, incluindo 2011-2012. Em termos de copa nacional, foram três desde que chegou, contando o bicampeonato vigente. Isso sem falar de duas Supercopas e, mais importante, a Copa da UEFA de 2009.

Profissional 
De férias em São Paulo novamente, vivendo bem perto do majestoso estádio do Pacaembu, onde ainda é reconhecido com facilidade, Willian acompanha de perto os jogos do Corinthians em sua marcha na Copa Libertadores, enquanto espera o telefone tocar novamente com alguma surpresa.

Em janeiro passado, seu clube recusou uma proposta oficial do Chelsea, considerando o jogador parte integral numa disputa acirrada com o arquirrival Dinamo na liga. “Fiquei ansioso para ir, já que era uma grande equipe. Mas também tinha de ficar com a cabeça tranquila, continuar jogando. Estávamos na reta final do Ucraniano também, então a prioridade era lutar para conquistar mais um título."

“Eles sabem do meu desejo de sair. Conversei com a diretoria. Querem que eu fique, mas expliquei que são cinco anos, que fui profissional, dificilmente me machuquei e conquistamos muitas coisas. Agora acho que chegou meu momento e eles estão dispostos a negociar.”

Só não esperem que Willian eleve a voz, fale mais exaltado e force a barra para nada. “Quero sair pela porta da frente. Não é para sair brigado, como já aconteceu com outros. Não sei o dia de amanhã e tenho um carinho muito grande pelo clube”, afirma. “Sou um cara tranquilo. Mesmo.”