Após longos meses de ausência provocada por uma fratura no pé esquerdo, Daniel van Buyten finalmente está de volta aos gramados. E o zagueiro do Bayern de Munique retornou a tempo de oferecer os seus serviços para a final da Liga dos Campeões da UEFA, que será disputada justamente na cidade alemã neste sábado, 19 de maio de 2012, contra o Chelsea.
Apesar de o jogador da seleção belga estar sem ritmo de jogo, a sua virilidade e experiência representam uma opção para o técnico Jupp Heynckes, cuja defesa encontra-se dizimada por suspensões. O zagueiro de quase dois metros de altura concedeu uma entrevista ao FIFA.com.
FIFA.com: Demorou mais tempo que o previsto para que você se recuperasse da fratura no pé?
Daniel van Buyten: É sempre difícil prever o tempo de cura para um sujeito alto como eu. Colocaram uma placa para acelerar o processo, mas acabaram decidindo tirá-la porque ela prejudicava a minha articulação e me impedia de fazer determinados exercícios. Se eu não tivesse tirado a placa, teria voltado bem mais cedo. Mas essa etapa era obrigatória.
O fato de a final da Liga dos Campeões estar marcada para a Allianz-Arena representou uma pressão a mais para o Bayern?
Durante a campanha de dois anos atrás, quando chegamos à final, era festa todo dia e só boas lembranças. Com exceção de ter perdido, claro! Emocionalmente, o fato de jogar uma decisão de Liga dos Campeões já é algo fantástico pelo entusiasmo do público. Imagino que deva ser ainda mais incrível na sua cidade e no seu próprio estádio. Então, sim, estamos sob pressão, mas esta pressão se transforma em grande motivação.
Era o objetivo número um do Bayern na temporada?
Iniciamos a temporada com a ambição de ganhar tudo. Para nós, recuperar o título nacional ou ganhar a Copa da Alemanha era tão importante quanto chegar o mais longe possível no torneio continental. Agora, ganhar a Liga dos Campeões é o que há de mais prestigioso. O Bayern tem chance de vencer a Bundesliga todos os anos, enquanto a oportunidade de ganhar uma Liga dos Campeões aparece muito mais raramente. É bem mais difícil chegar lá, afinal jogamos contra os melhores times de cada país. É uma competição à parte.
Aos 34 anos, a concorrência está mais difícil para você?
A concorrência é dura o tempo todo quando se joga no Bayern, um dos melhores clubes da Europa. É preciso se entregar sempre, mas isso não é uma preocupação, porque é o melhor para a equipe. O principal é não fazer uma temporada à toa e ganhar títulos. Terminar em segundo ou terceiro no campeonato, ser eliminado na Copa e na Liga dos Campeões e lutar a temporada inteira para nada é muito frustrante.
Você estabeleceu um limite de idade para o fim da sua carreira?
Sempre falei que o meu hobby, que é também a minha profissão, me fazia muito bem e me dava enorme felicidade. Para mim é o melhor trabalho do mundo, e enquanto eu tiver vontade de ir treinar a cada manhã e fazer bem ao meu corpo, e enquanto as pernas aguentarem, vou continuar. A idade não tem nenhuma importância, podemos ter passado dos 30 e ter um corpo de 25 anos, ou ter 28 com um corpo "liquidado". É por isso que tento ser o mais profissional possível, para curtir mais alguns anos. Sempre tive essa chama e essa vontade antes de cada treinamento e antes de cada partida.
O seu pai Francis era um grande esportista, ex-lutador profissional e goleiro. Herdou dele a aptidão para o esporte?
O pai me ensinou muita coisa, mas tenho isso em mim. Mas o fato de mergulhar no esporte, de sofrer para atingir os objetivos e de semear para colher são coisas nas quais o meu pai foi uma verdadeira escola. Estava nos meus genes, e também tenho a personalidade para isso. O esforço era a droga de que eu precisava, e o sofrimento me faz bem para alcançar as minhas metas. Mas eu jamais teria me profissionalizado sem o pai.
Você faz muitos gols sendo zagueiro. Esse faro de artilheiro também está nos genes ou você precisou trabalhá-lo?
Este ano só joguei metade da temporada e já estava em cinco gols, acho que marquei uns dez há dois anos. Fui centroavante durante toda a juventude. Tenho isso em mim, adoro analisar as situações, me projetar ao ataque quando o jogo permite e criar um excedente, inclusive nas bolas paradas. É uma forma de se posicionar que aprendi, e até os 18 anos achava que poderia fazer carreira como atacante. Depois, comecei a recuar pouco a pouco porque um técnico queria me testar mais atrás.
É um arrependimento?
Claro! Todo mundo adoraria estar no lugar do Mario Gomez, marcar muitos gols e com isso ajudar a equipe. Por outro lado, não tenho arrependimentos em relação à minha carreira pois sou muito feliz pela maneira como ela se passou. Mas se viessem me propor começar tudo de novo como atacante, eu seria capaz de recomeçar do zero e assinar por 15 anos como atacante. Seria um risco, mas fui formado para isso. Não foi à toa que, ao longo da minha carreira, marquei entre cinco e dez gols a cada temporada.
Falemos sobre a seleção da Bélgica. O que ficou faltando para que a equipe se classificasse à Euro 2012?
Faltou principalmente um pouco de maturidade no nosso futebol. Temos uma boa mistura entre os jovens e os mais antigos, mas o grupo acabou de ser montado e precisa de entrosamento, tanto defensiva quanto ofensivamente. Desperdiçamos muitas chances e sofremos gols que seriam evitáveis se jogássemos juntos há mais tempo. Precisamos nos conhecer melhor para termos entrosamento e evitar esse tipo de coisa. É uma falta de experiência no grupo, não individualmente, e sim coletivamente.
O grupo chegará à maturidade antes das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014, a partir de setembro deste ano?
Se chegamos perto na Eurocopa, cada jogo que vier vai possibilitar que a gente melhore e se conheça mais, portanto estou bem confiante. Mas não é algo que possamos dar como certo, pois faz um tempo que não nos classificamos para um Mundial. Estamos em um grupo difícil com equipes como a Croácia ou a Sérvia, que possuem elencos que mudam pouco e jogadores que se conhecem de cor. Eles têm um certo hábito, se classificam com frequência e possuem enorme experiência no assunto.
Além da Croácia e da Sérvia, vocês também vão enfrentar Escócia, Macedônia e País de Gales no Grupo A. Quais são as chances da seleção belga na chave?
É certo que não enfrentaremos a Alemanha ou a Espanha e que teremos algo a mostrar. Se nos prepararmos bem para as partidas, podemos nos classificar. Para a Euro 2012, tivemos a Alemanha. Para a Copa do Mundo de 2010, pegamos a Espanha... É o tipo de equipe que quase nos dá a certeza de que ficará com a vaga, e é preciso lutar para ser o melhor segundo colocado. No nosso grupo, nenhuma equipe está certa de terminar na liderança, então jogaremos por duas posições, não por uma só. Isso muda muita coisa.
