Com quatro vencedores diferentes nos últimos quatro anos, o Campeonato Brasileiro é um desafio para qualquer um de seus 20 treinadores. Há muitas rivalidades e peculiaridades em jogo num país de proporções continentais e com uma gama incomum de aspirantes ao título. Para tentar entender quais os segredos e os pontos mais importantes na preparação de um clube para essa longa jornada, pedimos ajuda a quem entende do assunto: Tite, comandante do Corinthians. Em uma longa conversa com o FIFA.com, veja o que o atual campeão recomendou:

“Em 2011, a nossa eliminação na fase preliminar da Libertadores acabou gerando uma situação até interessante para o Brasileiro: tivemos um período de transição, ao longo do Paulista, para formar uma base. Saíram Ronaldo, Elias, Jucilei, Roberto Carlos... e eu tive a chance de usar o Paulista para dar tempo de jogo aos substitutos e formar um padrão. Agora, imagina se fosse fazer isso já no Brasileiro, em que todos os jogos são complicadíssimos?

Além do mais, no ano passado aconteceu algo fundamental: passamos as primeiras 13 ou 14 rodadas sem ter nenhuma lesão. Isso é determinante para conseguir manter um certo planejamento. Mas é preciso ter uma ideia fundamental de como você quer sua equipe, embora com alguma margem para reorganização. O mais importante, então, é manter a equipe. Muita gente se desestrutura ao longo do campeonato.

Digo “certo planejamento”, porque, claro, num torneio longo desses, não dá para ter um plano totalmente detalhado. É impossível dizer: “Ah, agora vou somar pontos, disparar”, mas é possível planejar. Em 2011, tínhamos o objetivo de nos manter sempre entre os seis primeiros colocados. Porque nas últimas cinco ou dez rodadas o campeão sai desse grupo. É diferente do Espanhol, do Inglês ou do Italiano, em que algumas poucas equipes disparam desde cedo e o título fica sempre entre eles.

No Brasileirão são 14 ou 15 equipes que em algum momento estão na briga. Se você pensa no ano passado: no primeiro terço do campeonato, o Palmeiras estava entre os grandes favoritos. O Cruzeiro, então, era tido quase unanimemente como o time que jogava o melhor futebol do Brasil e acabou lutando para não ser rebaixado. O Santos, por causa do Mundial, perdeu fôlego. Então, é um campeonato em que muita, muita coisa muda, e conseguir manter alguma regularidade é fundamental.

Neste ano claro que a situação é diferente, porque ainda estamos jogando a Libertadores. Além do mais, tenho a vantagem de ter praticamente a mesma base do título. Então está tudo estruturado: os jogadores sabem suas posições e como é a relação comigo. É um grupo forte que, se passar por mudanças, deve ser para melhor. O que mais me anima é que, apesar de ser um grupo tão forte e maduro, ainda temos margem de crescimento.

Não digo que hoje sofra menos pressão depois de ter vencido o Brasileiro, não. No Brasil não tem disso. O que tenho é mais controle sobre o grupo, porque conheço melhor os jogadores, mas a pressão existe sempre. Não é mole ser clube grande no Brasil, porque todo ano são 12, 14 equipes lutando pelo título e só uma ganha, e um resultado que não seja o título é tido praticamente como fracasso. Ficar entre os primeiros e ganhar uma vaga na Libertadores amenizou um pouco essa situação, mas ainda assim: a cobrança em todos é gigantesca. A diferença é que, no Corinthians, essa cobrança vem com mais visibilidade.

O equilíbrio real
O equilíbrio sobre o qual tanto se fala é absolutamente real. Não apenas pelo número de equipes com possibilidade de título, mas porque absolutamente todo jogo tem potencial para ser complicado. Por exemplo, no final do ano passado todos passaram uma semana criticando o Corinthians porque tinha perdido para o América Mineiro, que já estava praticamente rebaixado. Aí chega a semana seguinte e o que acontece? Ganham do Fluminense. Você não vê isso acontecer assim, regularmente, em nenhum campeonato europeu. No Brasileirão, se você não entra bem, perde. Aumentou o nível dos preparadores físicos, dos técnicos e da infraestrutura, e a diferença diminuiu. Então, você pode pegar um América, com um cara veterano como o Fábio Júnior, mas que está bem preparado. É um time perigoso. As condições se igualaram e hoje, de verdade, são detalhes que fazem a diferença.

Um adversário dificílimo, por exemplo, é o Goiás (hoje na Série B). É muito difícil jogar lá, por causa do clima: muito calor, a umidade super baixa. Quando eu treinava o Paulo Baier no Palmeiras ele me falou: 'O Goiás acelera o ritmo no começo, aí o adversário corre, se cansa e, no segundo tempo, o Goiás mata o jogo'. Então, lembro que tentei inverter os papéis: acelerei mais ainda no primeiro tempo, marcamos dois gols e depois conseguimos segurar o resultado. São adaptações que você tem que fazer: é um campeonato continental.

No treino de hoje, por exemplo, o que eu falei para eles? 'Agora é o momento em que haverá chances para todos.' Porque este ano não vai ser a mesma coisa do ano passado para nós. Jogadores que estão retornando, como o Alessandro, por exemplo, não vão jogar quarta-feira e domingo. Então, todos têm que estar preparados, porque é agora, nesse começo, que vou precisar do elenco. É difícil enxergar isso, tanto para o torcedor quanto para os jogadores, mas os três pontos disputados agora, no início do Brasileiro, valem tanto quanto os que conquistamos lá na frente.”