"Depois do que passei, tudo o que está acontecendo tem um sabor especial", destaca Bakaye Traoré em entrevista ao FIFA.com. O jogador passou três temporadas vestindo a camisa do Nancy até assinar a sua transferência para o futebol italiano por outros três anos. "O Milan vinha me observando de perto e é uma enorme honra ser sondado por um dos melhores clubes do mundo", elogiava o volante de 27 anos antes mesmo de a contratação ser oficializada. "Eles vinham me acompanhando sem que eu soubesse havia algum tempo, até porque não são o tipo de clube que iria se manifestar da noite para o dia", completa Traoré, que três anos atrás ainda defendia o Amiens na segunda divisão francesa.

Espectadores discretos do futebol do malinês, os dirigentes do Milan precisaram ficar ainda mais atentos após os inesperados acontecimentos desta temporada. Tudo começou com uma terrível crise de malária em setembro de 2011, o que derrubou o forte meio-campista de 1,85m e quase o deixou em coma. "A minha temporada só começou em 2012 (a temporada regular europeia começa na metade do ano)", lamenta Traoré. "Fiquei muito doente. Normalmente, um jogador que sofre de malária passa um mês em recuperação, eu tive de passar dois meses e meio."

Confiança do treinador
O doloroso episódio não freou as intenções do treinador da seleção malinesa, Alain Giresse. "Temos mais do que uma relação de jogador e técnico", revela Traoré. "Ele me conhece desde pequeno, joguei com o filho dele no Amiens. Ele sabe da minha qualidade e sempre acreditou em mim. Está feliz por mim, por tudo o que está acontecendo comigo, mas não é surpresa nenhuma para ele, pois já tinha anunciado isso várias vezes no passado. Quando eu estava pior, disse que um dia eu poderia rir de tudo isso e que isso daria ainda mais sabor a este momento que vivo agora. Nunca poderei agradecê-lo o bastante por toda a sua confiança."

Giresse comprovou o discurso ao convocar Traoré duas semanas após o retorno do jogador aos gramados e ao colocá-lo para disputar todas as partidas do país na Copa Africana de Nações 2012. Tudo parecia bastante complicado para o Mali, que não contava com vários dos seus grandes astros, mas essa acabou sendo a melhor participação malinesa nos últimos 40 anos do torneio. A última grande campanha acontecera em 1972, quando o país perdeu a final para a seleção do Congo. "Ficar em terceiro lugar apresentando um futebol de qualidade foi uma grande alegria, principalmente porque ninguém acreditava em nós", saboreia o atleta nascido na região de Paris.

Nessa caminhada, Traoré aprendeu muito com o companheiro de seleção e "grande irmão" Seydou Keita, jogador do Barcelona, que o ensinou os truques da meia-cancha. "Todos os seus conselhos nos mínimos detalhes me ajudaram a ganhar confiança e a ter mais segurança", explica o novo contratado da equipe rossonera. "Jogar ao lado dele me fez bem. Eu dizia que um dia talvez jogasse em uma grande equipe como ele."

Recuperado e renovado
Com energia redobrada, o malinês voltou à disputa do Campeonato Francês. O retorno aos gramados coincidiu com o início de uma recuperação do Nancy, que até então penava na zona de risco da tabela. Foram nove jogos sem derrotas, marcados por vitórias convincentes sobre Lyon, Montpellier e Paris Saint-Germain. A metodologia de Jean Fernandez finalmente começou a funcionar a todo vapor com o seu maestro do meio-campo totalmente recuperado e renovado. E o volante ainda se aventura no ataque, tendo marcado cinco gols nos últimos quatro compromissos.

Mesmo com a permanência do clube na elite do futebol francês garantida, Traoré não pretende diminuir o ritmo. Ele encara ainda Saint-Etienne e Lille antes de voltar a defender as cores do Mali na segunda fase das eliminatórias africanas para a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014.

"Temos uma boa dinâmica e estamos bastante confiantes, nos conhecemos bem e o nosso jogo está bem encaixado", analisa, animado. "Se pegarmos todos os jogadores que não estiveram presentes na CAN e que voltam normalmente em junho, podemos ir muito bem nas eliminatórias", anuncia Traoré, que sonha em disputar a Liga dos Campeões da UEFA e o primeiro Mundial da história do Mali. Como o primeiro desses sonhos provavelmente será realizado com o clube italiano, por que não acreditar ainda mais no segundo?