Todo ano, o Liverpool realiza no Estádio Anfield um tributo em memória às 96 pessoas que perderam a vida na tragédia de Hillsborough, em 1989. Entre 2004 e 2010, Rafael Benítez participou da cerimônia como técnico da equipe, mas no ano passado ele decidiu ir à homenagem por conta própria, para prestar respeito às vítimas do desastre.
Quando o público presente começou a gritar o nome do treinador de 51 anos em reconhecimento aos seus feitos à frente do time, entre os quais se destaca uma Liga dos Campeões da UEFA na temporada de estreia, Benítez não conteve as lágrimas. A reverência ilustra bem a admiração que o espanhol inspirava, e ainda inspira, nos leais torcedores do clube.
Na segunda parte da entrevista exclusiva concedida ao FIFA.com, Benítez fala da experiência no comando do Liverpool, comenta o retorno do técnico Kenny Dalglish ao banco da equipe e opina sobre a fase atual do ex-pupilo Fernando Torres.
FIFA.com: Você muitas vezes teve dificuldades para ser compreendido na Inglaterra. Acha que recebeu um tratamento injusto no Liverpool?
Rafael Benítez: O que me deixa tranquilo é que, quando saio de um clube, vejo vários jogadores dizendo que aprenderam comigo. O Carragher, por exemplo, jogava como lateral esquerdo quando chegamos. Depois ele virou um grande zagueiro. O Gerrard marcava dez gols por ano. Daí o colocamos para jogar aberto pela direita, às vezes como segundo atacante, e ele passou a fazer mais de 20 gols. Estávamos tentando adaptar a nossa tática à Premier League, ao estilo do futebol inglês. As pessoas falavam "ele é fera na Liga dos Campeões, mas não vai bem na Premier League". Acontece que batemos duas vezes o recorde de pontuação do clube no campeonato, com 82 e 86 pontos. Portanto, estávamos fazendo um bom trabalho com aquilo que tínhamos disponível. O problema é que, para evoluir, precisávamos vender alguns jogadores e comprar outros, porque não tínhamos um grande orçamento. A nossa filosofia era orientar os jogadores de maneira que eles nunca deixassem de progredir, e não simplesmente fazer com que cumprissem a estratégia de jogo e ponto final. Tentávamos passar um aprendizado contínuo, e assim era possível perceber que o time crescia e evoluía.
Você acredita que os treinadores ainda têm tempo de montar um time? Você estava há seis anos no Liverpool, mas na primeira temporada ruim foi mandado embora.
Para ser honesto, não demos sorte com os proprietários do Liverpool. Foi uma época difícil. Pode perguntar ao Hodgson (técnico que assumiu o time quando Benítez saiu), que passou seis meses com eles. Nós passamos três anos. Foi uma época muito complicada, porque eles não entendiam de futebol, tratavam o clube apenas como um negócio. Realmente, hoje você tem mais gente investindo no futebol e essas pessoas querem ver resultados aqui e agora, o que significa mais pressão em cima do treinador.
Você não fica frustrado de ter um planejamento e ver que todos estão pensando no curto prazo?
Não, sou um cara experiente. Treinei o Extremadura e levei o time à primeira divisão na primeira tentativa. No Tenerife, a mesma coisa. No Valencia, fomos campeões espanhóis após 31 anos, e no Liverpool conquistamos a Liga dos Campeões após 21 anos. De lá fomos para a Inter de Milão e ganhamos dois títulos em seis meses. Portanto, não tenho nenhum problema em lidar com projetos de curto prazo. Mas o ideal é trabalhar com projetos de longo prazo, que são muito melhores para a estabilidade do clube. Sei do que estou falando, porque já estive em clubes dos mais diferentes níveis. Além disso, a minha comissão técnica é muito boa. Temos a experiência e o conhecimento necessários para fazer um ótimo trabalho novamente.
Todos sabem que você tinha um grande carinho pelo Liverpool. Foi muito doloroso precisar sair?
Foi extremamente difícil, mas eu percebi que era impossível continuar com as pessoas que estavam no comando. Entendi que elas não queriam aceitar as minhas ideias, porque estavam pensando apenas nos negócios. Estávamos no clube havia seis anos, o time e o elenco vinham melhorando regularmente, mas bastou uma temporada ruim para todos caírem em cima. Percebi que não iríamos evoluir, porque não tínhamos o apoio ou o dinheiro necessários para fazer mudanças. O último degrau é sempre o mais difícil. Estávamos progredindo em todos os aspectos. Ano após ano, disputávamos a Liga dos Campeões, que é a competição mais lucrativa. Mas, para dar um passo adiante, para superar os anos anteriores, você precisa abrir os cofres e fazer contratações, e nós não estávamos fazendo isso. Basta pegar os números para ver que estávamos gastando menos a cada ano.
Você percebeu que as coisas estavam saindo de controle, que o seu tempo estava acabando?
Sim. Tive uma conversa com as pessoas que estavam à frente do clube e percebi que elas não estavam entendendo. Aí recebi uma oferta da Inter de Milão, aliás uma excelente oferta. Depois tive um problema, porque não cumpriram algumas coisas que tinham prometido. O futebol é um negócio muito complicado.
Você se arrepende de ter saído do Liverpool pouco antes de os novos proprietários chegarem? Acha que poderia ter dado sequência ao trabalho com o investimento que eles fizeram?
Sim, sem dúvida. Com o dinheiro que eles desembolsaram e o elenco que tínhamos, poderíamos ter ido ainda mais longe, porque sabíamos exatamente do que precisávamos. Havíamos observado jogadores como San José e Insúa, que hoje jogam em outras equipes da Europa. Eles estavam havia três anos no Liverpool, portanto eram nossos atletas, não precisávamos gastar quase nada. Era apenas uma questão de encontrar os jogadores certos. Quando fui embora, tudo mudou. O Hodgson assumiu o time e aí começaram a contratar jogadores diferentes. Como não deu certo, tiveram de trazer novos reforços seis meses ou um ano depois.
Está contente de ver Kenny Dalglish de volta ao comando do Liverpool? Afinal, foi você que cuidou do retorno dele ao clube.
Naquela época, queríamos trazer alguém que, ao contrário dos proprietários, fosse capaz de entender a história do clube e a sua importância para os torcedores. A volta do Kenny deixaria o clube mais forte, mais unido. Eu tive de sair, mas sabia que o Kenny estaria lá para resolver as coisas quando os problemas aparecessem.
Acredita que ele pode levar o Liverpool a um lugar tão alto quanto você levou?
Isso depende do apoio que ele terá dos proprietários. Eles já investiram muito dinheiro, mas será que poderão continuar gastando tanto? Não sei. Se você quer competir com Manchester United, Chelsea, Arsenal, Manchester City e Tottenham, precisa de um bom planejamento e de inteligência na hora de contratar.
Você participou da contratação de Fernando Torres no Liverpool e fez dele um grande atacante. Como é vê-lo agora atravessando uma fase difícil no Chelsea?
O Fernando é um rapaz ótimo. É uma pena que ele tenha precisado sair. O clube estava caminhando na direção errada quando ele foi embora. Agora ele precisa voltar a fazer gols, mas potencial ele tem. Estamos falando do jogador que mais rápido atingiu a marca de 50 gols na história da Premier League; não dá para dizer que ele é ruim. O Fernando tem muito talento, só precisa retomar a confiança. Marcar gols é fundamental para um atacante. Sei que ele vai se recuperar, é uma questão de tempo. O Chelsea precisa oferecer as condições para que ele desenvolva um futebol consistente e balance as redes toda semana.
Após sair da Inter de Milão, você voltou a viver em Liverpool. É uma cidade com a qual você tem uma relação especial?
Desde que chegamos aqui, eu e a minha esposa procuramos sempre conversar com as pessoas para conhecer a cultura e a história da cidade. Temos uma ligação com a associação de parentes (das vítimas da tragédia de Hillsborough) e desde o início procuramos nos envolver e entender tudo. Criamos uma fundação e estamos ajudando as organizações beneficentes locais. Tentamos conhecer e ajudar as pessoas do lugar onde vivemos, porque assim podemos ver o resultado do dinheiro que doamos.
