Dentre todas as mudanças pelas quais Marlos passou nos últimos meses, uma em particular o deixou realmente apreensivo. Ao deixar o São Paulo e se transferir para o Metalist, da Ucrânia em janeiro, nada afetou mais o jogador de 23 anos do que a brutal diferença climática entre os dois países. Da noite para o dia, ele deixava os confortáveis 30 graus do verão paulista e encarava um rigoroso inverno no Leste Europeu, com temperaturas que bateram na casa dos 30 graus negativos.
“A primeira sensação foi de grande dificuldade. Era muito, muito frio. Tudo congela rápido e era quase impossível treinar”, relata ao FIFA.com o paranaense de São José dos Pinhais. “Fiquei 23 anos vivendo a mesma vida, com minha rotina, acordando no mesmo horário. Aí chego aqui e tem a diferença de clima, de horário, é difícil de se adaptar e desenvolver seu trabalho. Até agora está sendo bem complicado.”
O discurso denota um certo desânimo, ou poderia vir de alguém que tem encontrado dificuldades para se adaptar a situações tão adversas. Mas, ao lutar para superar o trauma do frio, Marlos inconscientemente ignorou outros problemas que costumam incomodar boleiros que se aventuram em países estrangeiros.
Dentro de campo, por exemplo, a também grande diferença de estilo entre brasileiros e ucranianos quase não chegou a incomodar. “No Brasil, você tem tempo de dominar, pensar no que vai fazer e partir pra cima do adversário. Aqui, quando você recebe a bola, já tem três em cima. Então tem que pensar rápido. Mas isso a gente vai pegando aos poucos”, minimiza o meia.
Com essa naturalidade, Marlos encontrou seu espaço no Metalist e ganhou rapidamente a confiança do técnico Myron Markevych – assim como de Cleiton Xavier, Taison e Fininho, brasileiros da equipe que tanto o ajudaram em sua chegada. Logo no segundo jogo, no duelo com o Salzburgo pela Liga Europa, ele marcou seu primeiro gol. Quatro partidas mais tarde e já era titular, tudo isso abaixo da melhor forma e ainda com aquela outra preocupação na cabeça, como ele mesmo garantiu.
“Meu primeiro pensamento é de tentar me acostumar com o clima, com o povo. Aí sim vou poder jogar meu melhor futebol e mostrar por que eu vim para cá”, explica, evitando qualquer euforia pelo bom início. “Tenho que crescer muito ainda. Eles estão na metade da temporada, eu estou no começo da minha. Mas venho trabalhando sempre um pouquinho a mais para recuperar esse atraso.”
Mudança de atitude
Embora ainda esteja em fase de adaptação, Marlos já vê muita coisa mudando para melhor. A troca de ares definitivamente lhe deu novas perspectivas: de reserva no São Paulo em 2011, ele passou a ser peça importante no Metalist, que, embora não seja uma potência europeia, espera marcar 2012 como o ano da consolidação entre os grandes. Daí a importância do jogo desta quinta-feira, contra o Sporting, pelas quartas de final da Liga Europa.
Se os Leões vêm embalados pela eliminação do Manchester City, Marlos ressalta a garra que o clube ucraniano mostrou na fase anterior, quando eliminou o Olympiacos após perder o primeiro jogo em casa por 1 a 0 e vencer o segundo por 2 a 1, com dois gols nos últimos minutos. “A gente nunca deixou de acreditar. Perdemos na ida, mas sabíamos que tínhamos condição de reverter, e isso nos motiva para a sequência”, destaca. “Agora temos pela frente um time que eliminou o Manchester City, então é preciso ficar alerta. Mas aqui também existe qualidade. Ele vão precisar nos respeitar.”
Tranquilo e sem se afobar, Marlos também mostra que mudou a forma de pensar e espera evitar que erros do passado – como talvez se empolgar com o apelido de "Lionel Marlos", que a torcida são-paulina lhe deu – atrapalhem esta nova etapa de sua carreira. “O São Paulo é um clube fantástico, mas enfrentei muita concorrência e foi difícil. Acho que faltou um pouco de confiança de treinadores, porque cheguei muito novo”, conta. “Não é de uma hora para outra que você consegue chegar ao melhor nível. Estava conseguindo, mas veio a transferência e agora espero me desenvolver totalmente aqui.”
Vida nova
Com a ajuda da nova estação – saiu o inverno, entrou a primavera –, tirando de letra jogos decisivos de Liga Europa e sem medo de cara feia dos zagueirões ucranianos, muitos poderiam até pensar que Marlos já se sente em casa na Ucrânia pouco mais de dois meses após sua chegada. Mas ainda não é o caso.
De qualquer forma, no mesmo dia em que conversava com o FIFA.com, ele dava outro passo rumo à adaptação final. Depois de quase dois meses morando em um hotel, o meia preparava as malas, fazia o check-out e engatava talvez a última mudança desta fase: para o seu novo apartamento, em Carcóvia. “Agora é vida nova. Só falta chegar minha esposa para ficar completo.” E por estes novos dias, ainda melhores, a torcida do Metalist aguarda ansiosa.
