Finalista da Copa do Mundo da FIFA em 1978, o ex-zagueiro holandês Ernie Brandts atualmente trabalha como técnico em Ruanda, onde conquistou o título nacional no ano passado com o APR e disputa as rodadas iniciais do novo campeonato à frente do clube da capital Kigali.

Ídolo da seleção holandesa e do PSV, ele é o único jogador a ter marcado gols para ambas as equipes em uma partida de Mundial: na segunda rodada da Argentina 1978, Brandts balançou as próprias redes aos 18 minutos de jogo contra a Itália e empatou para a Laranja Mecânica no início do segundo tempo. Os holandeses acabaram vencendo os italianos e se classificaram à final, em que perderam para os argentinos.

Depois de pendurar as chuteiras, Brandts treinou os juvenis do PSV e estreou na primeira divisão da Holanda comandando o NAC Breda. Em seguida, passou pelo futebol iraniano e se transferiu para a África em 2010. O FIFA.com conversou com ele sobre as ambições do futebol ruandês e o atual momento da seleção holandesa. 

FIFA.com: Faz um ano que você está em Ruanda. Como está sendo a experiência? É um bom lugar para se trabalhar? O que o levou ao país?
Sim, é agradável trabalhar aqui. O clima é bom, as condições são boas e estou treinando o maior clube de Ruanda. Inicialmente vim para passar cinco dias e conheci todos os atrativos da região de Kigali. Encontrei pessoas interessadas em futebol, vi diversos jovens jogadores e fui convidado a ajudar a promover o futebol no país. E esta foi uma boa razão para que eu viesse. Não foi uma decisão difícil. Pediram para que eu melhorasse o futebol, então a primeira coisa que fiz foi tentar aperfeiçoar as habilidades individuais dos jogadores e a organização do time. No ano passado ganhamos três títulos. Para mim foi um ano ótimo.

Ruanda tem potencial para estar entre as melhores seleções da África?
Acho que pode ir longe. Em 1994 houve o genocídio e depois disso os ruandeses decidiram colocar toda a sua energia na reconstrução do país, inclusive no futebol. Fazendo um retrospecto dos 12 meses que passei aqui, vejo muitas mudanças positivas. O futebol está melhorando, mas não se pode dizer que em um ou dois anos Ruanda estará no topo. Isso vai demorar bem mais. Mas que vai evoluir tenho certeza.

No entanto, Ruanda é um país pequeno em termos de população e de recursos. Acha que existe um limite para países nessas condições?
É verdade que existem opções limitadas de jogadores. Mas se olharmos a Holanda, a população é de uns 16 milhões e o país está no segundo lugar do ranking da FIFA. Os holandeses provaram que é preciso começar com os jovens e é isso que estamos tentando fazer aqui, começando com as crianças quando elas estão com seis, sete anos. Em Ruanda temos de trabalhar para aperfeiçoar as habilidades dos jogadores desde a mais tenra idade possível, assim que eles começam a jogar. A Holanda é um ótimo exemplo disso.

O APR disputará a Liga dos Campeões da África no ano que vem. Quais são as suas metas para o torneio?
Agora temos muitos jogadores estrangeiros, três do Brasil, alguns do Burundi. Tentaremos nos sair melhor do que na Liga dos Campeões do ano passado. Começaremos a campanha em fevereiro, por isso queremos sair de Ruanda antes disso, talvez viajar à Argélia ou ao Marrocos para fazer alguns amistosos. Isso vai contribuir para que nos familiarizemos com um padrão de futebol melhor. Acho possível chegarmos entre os oito. Mas é o tipo de competição em que você precisa estar jogando no seu melhor nível no lugar e na hora certos.

Será difícil para você voltar a trabalhar no futebol holandês, onde as coisas talvez sejam um pouco mais calmas do que na África?
Não, não necessariamente. Um técnico de futebol nunca sabe. Se você tiver sucesso, receberá convites para trabalhar em quase qualquer lugar. Mas se não tiver sucesso, precisará deixar o seu clube. Futebol é assim. Não sei o meu futuro e nem para onde irei nos próximos anos, mas isso não é problema.

O que foi mais doloroso para você: ver o Rob Rensenbrink acertar a trave no último minuto da final do Mundial de 1978 ou o Arjen Robben chegar a um palmo do goleiro e de vencer a Copa de 2010?
Acho que 1978, porque estávamos muito perto de ganhar e eu jogava na seleção. Quando você joga na seleção, está lá com todo o seu coração. Eu tinha 21 anos na época e chegar tão perto de ser campeão mundial com essa idade é uma sensação horrível, como você pode imaginar. Eu adoraria que o Arjen Robben tivesse aproveitado aquela chance, mas acho que assim é o futebol. Existem outras coisas além dele na vida.

Qual é a melhor seleção holandesa de todos os tempos, a geração de 74 e 78 ou a versão 2010?
Difícil dizer. A seleção de 1974 com Cruyff, Krol e Neeskens era excelente, mas a última, com Sneijder, Van Persie e Van der Vaart também é. É difícil comparar porque agora o futebol está mais pegado, mais técnico, mais rápido, os espaços são muito pequenos. Mas quando o Cruyff jogava, diria que provavelmente aquela era a melhor.

Quatro jogadores do plantel holandês na final da Copa do Mundo da FIFA 1978 acabaram treinando equipes na África. Além de você, Arie Haan esteve em Camarões, Johan Neeskens está atualmente na África do Sul e Ruud Krol passou por Egito e África do Sul. Existe uma razão para isso, na sua opinião?
É a vida! Mas nunca planejávamos muito à frente, não pensamos nisso em 1978. Nunca falamos sobre a África naquela época. Mas que continente maravilhoso! Estou muito feliz por estar aqui tentando ajudar o futebol.