
Durante as eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014, a seleção iraquiana aprendeu que a distância entre o sucesso e o fracasso pode ser bastante pequena. Depois de passarem com tranquilidade pela terceira fase, terminando na liderança do Grupo A à frente de Jordânia e China, os iraquianos imaginavam que o sonho de se classificar ao Mundial após 28 anos estava próximo. Contudo, nada foi tão fácil quanto eles poderiam esperar.
Nem mesmo o mais pessimista torcedor iraquiano imaginava semelhante queda de rendimento da equipe comandada por Zico na fase decisiva das eliminatórias. Afinal, o empate em 1 a 1 na Jordânia apontava para um bom início de campanha. Contudo, esse mesmo placar em casa diante de Omã começou a trazer preocupações. Para o jogo contra o Japão em Saitama, pela terceira rodada, o técnico brasileiro fez diversas mudanças no elenco. Apesar da boa apresentação, porém, o Iraque voltou para casa derrotado por um gol.
Às vésperas do quarto compromisso, em outubro, o moral iraquiano estava abalado. A partida contra a Austrália representava a oportunidade de recuperar a serenidade, mas Zico continuou remanejando a equipe e levou a campo uma ousada mescla de experiência e juventude. Depois de abrir a contagem com Alaa Abdul Zahra, o Iraque sofreu a virada nos últimos minutos de bola rolando, perdendo novamente os três pontos e encerrando o primeiro turno sem nenhuma vitória.
Após o tropeço, Zico reconheceu que a situação era "complicada", mas não se deu por vencido. Para ele, o caminho rumo ao Brasil continuava sendo longo, com quatro jogos por disputar no returno das eliminatórias.
Encontro marcado
Desde então, o treinador se refugiou no trabalho e não fez mais declarações públicas, deixando as suas decisões falarem por si. Antes de enfrentar a Jordânia, em novembro, o brasileiro voltou a mudar o plantel e colocou o capitão Younis Mahmoud e o meia de criação Nashat Akram na longa lista de titulares afastados da seleção. Sem poder contar com outros jogadores experientes por conta de contusões, Zico apostou novamente no talento da juventude para a partida decisiva contra os jordanianos, sabendo que uma nova derrota decretaria a eliminação do Iraque.
No dia do encontro, os iraquianos não decepcionaram. A lição de casa foi feita com uma defesa de ferro na etapa inicial e, depois de explorarem os pontos fracos do oponente, eles passaram a ameaçar a meta jordaniana. O esforço foi recompensado quando o jovem Hammadi Ahmed chutou com força para anotar o único gol da partida. "Foi um jogo muito difícil", comentou o herói da vitória iraquiana. "Queríamos vencer para recuperar a confiança, mas mal pude acreditar quando o chute entrou. Comemoramos o gol e nos fortalecemos em campo. Demonstramos uma concentração impressionante, principalmente no segundo tempo."
De fato, o triunfo foi bastante significativo para os iraquianos. Com ele, o país assumiu a terceira colocação da chave, atrás da Austrália e à frente de Omã pelo saldo de gols. O resultado trouxe alegria e tranquilidade ao Iraque, fazendo com que a torcida continue acreditando na sonhada classificação. "Prometemos para nós próprios que ganharíamos", explica Ahmed. "Dedicamos a vitória à comissão técnica, à federação e a todos os iraquianos mundo afora. Agora estamos confiantes para as partidas restantes."
Contudo, o atacante não foi o único herói do confronto. O experiente goleiro Nour Sabri também foi decisivo para o sucesso iraquiano, que marcou uma espécie de redenção pessoal para ele. Sabri havia participado da histórica conquista da Copa Asiática de Seleções em 2007, mas acabou sendo afastado da equipe e só voltou a ser titular na partida contra o Japão, em setembro deste ano.
O arqueiro aproveitou a chance recebida e mostrou todo o seu valor. Apesar do duro gol sofrido diante dos japoneses, o capitão iraquiano brilhou contra a Jordânia, frustrando diversas jogadas de perigo e fazendo algumas defesas à queima-roupa. "Toda grande equipe passa por momentos delicados", lembrou Sabri logo após a vitória. "Muita gente estava pessimista antes do jogo, mas todos os atletas deram prova de um belo espírito combativo. Agora tudo vai ser mais fácil, e esperamos que as próximas partidas sejam favoráveis para nós."
A aposta de Zico
O técnico brasileiro apostou todas as fichas no duelo com a Jordânia. Nos dias que antecederam a partida, e após o anúncio da lista de convocados, várias pessoas criticaram Zico e pediram que a federação iraquiana interviesse contra o afastamento dos astros da seleção. O treinador tinha consciência de que seria julgado pelo resultado, mas é preciso reconhecer que a sua estratégia deu certo, ainda que pela diferença mínima.
Depois do confronto, o ídolo finalmente quebrou o silêncio. "Eu tinha confiança no grupo", afirmou Zico. "Sei do que eles são capazes. Eles deram tudo de si em campo e seguiram as instruções. A vitória foi totalmente merecida. Eu havia dito a eles que grandes nomes não bastam para ganhar jogo, e que o importante é estar presente no gramado. Hoje, estou satisfeito. Ainda podemos mudar as coisas e progredir nos próximos meses."
Essa foi a segunda vitória de Zico sobre a Jordânia na atual edição das eliminatórias. A anterior aconteceu em Amã, por 3 a 1, na terceira fase da competição. O técnico demonstrou qualidades de liderança, mas sabe que o Iraque não tem mais margem de erro e que precisará confirmar ter o controle da situação nas três rodadas finais.



