O apito final de Rudolf Gloeckner naquele 21 de junho de 1970 decretou bem mais do que o final de uma partida. Decretou também a consolidação de uma mística e de uma relação de adoração entre dois países – além do início de uma invasão campal como jamais se viu na história das Copas do Mundo da FIFA. Com a vitória por 4 a 1 sobre a Itália, o título mundial e a taça Jules Rimet, de forma definitiva, eram do Brasil. Mas a festa foi sobretudo dos anfitriões mexicanos no estádio Azteca.

“O jogo acaba e, de repente, além de feliz a gente estava impressionado. Vinham mexicanos de todos os lados, e eles queriam participar de todo jeito: nos agarravam, beijavam, abraçavam, queriam levar qualquer coisa como lembrança: meia, caneleira, tudo”, contou ao FIFA.com o capitão brasileiro naquele Mundial, Carlos Alberto Torres. “De verdade mesmo: era uma festa de quem jogava em casa e diante de uma torcida das mais apaixonadas. Era como se nós fôssemos heróis deles; dos mexicanos.”

E o fato é que, na ocasião, eles eram; assim se tornaram. Mesmo no Brasil, a Copa de 70 é vista como a convergência de tudo o que era necessário para criar a imagem mágica do futebol brasileiro: o país se consolidava como maior vencedor da história até então, fazia-o com transmissão ao vivo e a cores – o primeiro Mundial assim transmitido em solo brasileiro – e com Pelé ainda em grande forma. O time de Gérson, Rivellino, Tostão e Jarizinho marcou em média mais de três gols ao longo dos seis jogos, todos vitórias. Não é difícil entender por que quem abrigou aquilo tudo, um país que vivia o início de seu desenvolvimento no futebol, se apaixonou.

A praça em frente ao estádio Jalisco, em Guadalajara, onde a Seleção disputou seus cinco primeiros jogos até a final, virou “Plaza Brasil”. Durante anos, proliferaram mexicanos batizados Carlos Alberto, Clodoaldo ou Edson. “A Copa de 70 fez do futebol brasileiro um espelho para os mexicanos, um ideal”, disse Mário Jorge Lobo Zagallo, técnico daquela equipe, ao FIFA.com. “Com o porém que, no futuro, essa admiração não virou complexo de inferioridade. Pelo contrário: parece que, quando jogam contra o Brasil, por mais que eles respeitem, também se motivam ainda mais.”

Zebra? Mas tantas vezes?
A tal motivação é subjetiva, não se pode medir, mas quem atesta isso com uma clareza assustadora são os resultados. Não um ou outro, esparso, em partidas quaisquer: são decisões - e várias. Tome-se a Copa Ouro da CONCACAF de 1996, da qual o Brasil, com base de sua equipe pré-olímpica, sob comando de Zagallo, participou como convidado. Na decisão, em Los Angeles, sob uma chuva torrencial, o México de Luís García e Cuauhtémoc Blanco marcou 2 a 0. Seria a primeira de duas decisões de Copa Ouro em que os mexicanos bateram os brasileiros: aconteceu de novo, em ocasião idêntica, em 2003, quando a equipe de Robinho, Kaká e companhia perdeu o título no gol de ouro, na prorrogação, dentro do Azteca.

Tem mais: Copa das Confederações da FIFA de 1999, novamente no Azteca. Um Brasil de gente como Dida, Alex e Ronaldinho, que vinha atropelando seus adversários, sucumbiu num jogo nervoso diante dos mexicanos. Isso para não falar, então, da decisão da Copa do Mundo Sub-17 da FIFA Peru 2005 – o título que alimentou todas as esperanças do México no futuro de seu futebol e no bom trabalho da formação de jogadores. Na final, o time de Carlos Vela e Giovani dos Santos deu espetáculo e marcou 3 a 0.

Ainda não é o bastante? Pois some-se aí a frustração mais recente: pressionado pela obsessão de conquistar o último grande título que lhe falta – o Torneio Olímpico de Futebol Masculino – e pela presença em sua equipe de gente de renome, como Neymar, Oscar e Hulk, o Brasil chega à final de Londres 2012, em Wembley, diante justamente de quem? Pois, mesmo com Giovani dos Santos lesionado, o México contraria os prognósticos e vence por 2 a 1. Ou será que, àquela altura, havia ainda alguma prudência em apostar nos brasileiros diante de seus adoradores, que já haviam então ironicamente assumido outra posição: de algozes?

“Nossa equipe, historicamente, joga melhor contra os grandes, e foi o que aconteceu hoje. Especificamente contra o Brasil, que no geral tem equipes que partem para um jogo mais franco, isso tende a ser ainda mais presente”, disse após a partida Luis Fernando Tena, técnico daquela seleção olímpica, que logo recebeu elogios do técnico derrotado naquela ocasião, Mano Menezes. “Eles nos enfrentam sem medo por uma razão simples: têm qualidade. A nova geração é talentosa, e a presença dos três mais experientes (Carlos Salcido, José Corona e Giovani dos Santos) fez eles crescerem ainda mais. O desenvolvimento pode ter vindo depois, nas últimas décadas, mas hoje é uma força do futebol mundial.”

Migração pequena, mas intensa
Os mais atentos desde cedo perceberam a presença daquele “dos”, em português, antes de “Santos” no nome de Gio. O craque do Villarreal é, literalmente, fruto de um fluxo de brasileiros para o país que, se não foi vultoso, certamente deixou marcas. Além dele próprio e de seu irmão Jonathan do Santos – ambos filhos de Francisco do Santos, o “Zizinho”, que fez carreira no América do México nos anos 80 – outro nome de destaque do processo evolutivo do futebol mexicano foi Zague, ou Zaguinho – assim, com diminutivo em português. Trata-se de Luís Roberto Alves, filho de José Alves, esse sim o “Zague”, ponta-esquerda que atuou pelo Corinthians e, entre 1961 e 67, tornou-se uma lenda do América do México. E ainda Muricy Ramalho, que ao deixar o São Paulo em 1979 saiu não apenas para um país pouco comum, mas para uma equipe mais modesta: o Puebla – onde começaria também sua vitoriosíssima carreira de treinador, em 1993. Foram, enfim, poucos, mas dos mais influentes.

Depois de os dois já terem estado no mesmo grupo na Copa da Confederacões da FIFA Brasil 2013 - quando o Brasil marcou 2 a 0 -, a relação ganha mais um capítulo interessante agora, na Copa do Mundo da FIFA 2014. Os mexicanos estarão de novo lá, no grupo do Brasil. Todo o misto de respeito, história, influência e surpresas entrará em campo de novo dia 17 de junho, em Fortaleza. De novo, a paixão iniciada em 1970 será lembrada. De novo, as tantas ocasiões em que os mexicanos, diante de seus inspiradores, fizeram papel de time grande. E, de novo, a ocasião para seguirem provando que isso pode se traduzir em grandes resultados.