
Depois de uma derrota na segunda rodada do único torneio da ATP disputado em seu país, semana passada, Thomaz Bellucci deixou a quadra do ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, sob o som de uma vaia vinda de seus próprios compatriotas. Uma vaia que, no fundo, ele sabe que é só de frustração; coisa de torcedor – e, sobretudo, de torcedor de um país acostumado com o futebol, e com vitórias no futebol, mais do que com qualquer outra coisa. Mas que, mesmo assim, machucou.
Minutos mais tarde, abatido, enquanto tentava explicar os porquês de seu desempenho, o tenista paulista - segundo brasileiro com melhor colocação no ranking na história, 21º lugar, atrás apenas de Gustavo Kuerten - chegou à constatação: “Não é fácil ser esportista no Brasil.” Pode não ser mesmo, mas é menos ainda ser tenista profissional: uma vida que passa, inevitavelmente, por conviver com derrotas. Muitas delas. Tome-se o número um do mundo, o sérvio Novak Djokovic. Em 2012, conquistou seis troféus e se consolidou como melhor jogador de tênis do mundo. O que significa, por outro lado, que os outros 11 torneios que disputou no ano terminaram em frustração, com derrota.
Isso porque se trata do número um. Para a maioria – incluído aí Bellucci, 38º do ranking e dono de três títulos de torneios ATP – a proporção é ainda mais cruel: jogar tênis em alto nível significa estar preparado para perder quase toda semana. Pior: conviver com derrotas que são só suas, de mais ninguém. Vivendo uma situação dessas desde cedo, Thomaz Bellucci aprendeu a torcer para o futebol com moderação; a ser compreensivo com seu querido Palmeiras mesmo nos momentos mais complicados, como o rebaixamento à segunda divisão do Campeonato Brasileiro, no final de 2012. E, no entanto, ao falar com o FIFA.com sobre futebol justo num momento desses de lamentação, o paulista de 25 anos não pode deixar de pensar: “Às vezes, até que não seria nada mau ter outros dez com quem dividir o peso.”
Veja como foi a conversa:
Sabemos que você é palmeirense, mas quanto?
Pois é, sou filho de pais palmeirenses e eles me influenciaram na escolha. (risos) Mas, olha, eu até que não sou tão fanático pelo time. Quer dizer, acompanho os resultados sempre, mas já não vou mais ao estádio e, principalmente, não fico triste quando a equipe perde. Fico chateado, mas a minha vida segue. Acho até que a vida de tenista ajuda a encarar as coisas assim. A gente joga torneio quase toda semana do ano e, claro, apenas numa minoria sai como campeão. A vida tem que seguir.
E, levando essa vida de viagens constantes, qual é a sua relação com a Copa do Mundo da FIFA?
Nossa, é o momento em que a nossa atenção se concentra e em que você consegue acompanhar tudo, não importa em que lugar do mundo esteja. Lembro que na última, da África do Sul, a gente estava em Londres, jogando em Wimbledon, e a cada vez que tinha jogo do Brasil a missão era encontrar um restaurante bacana, com televisão, em que estivesse passando. Nossa vida não tem muito padrão, então, às vezes eu estou no Brasil durante a Copa, mas, na maioria, estou viajando. Copa do Mundo é demais. É o momento mais legal para se acompanhar futebol.
E, dentro do vestiário, a Copa também se torna assunto?
Ah, o pessoal tira muito sarro. A sala de jogadores fica monopolizada pelo tema. Os espanhóis, agora, depois que ganharam a última Copa, ficaram insuportáveis, dizendo que são os melhores. (risos) A maioria dos tenistas fala muito de futebol no vestiário: quase todo mundo gosta e acompanha.
Nos dias mais tranquilos de torneios, o pessoal se reúne para jogar uma bola?
Ah, eu sei que um tempo atrás se fazia muito isso, mas a exigência física do tênis hoje deixa difícil para os jogadores entrarem nessas. Eu não costumo jogar, justamente porque tenho medo de me machucar, mas entre os treinadores acontecem peladas o tempo todo. E, de vez em quando, os jogadores participam. Mas tem que ser uma coisa descontraída, porque ninguém pode se machucar. Senão, depois fica ruim entrar na quadra mal e ter que usar o bate-bola como desculpa. (risos)
Esses dias, falou-se muito sobre a cobrança que a torcida brasileira faz de você. Depois de se tornar atleta profissional, a sua maneira de torcer por futebol – de reclamar de um jogador do seu time, por exemplo – mudou? Isso faz diferença?
Ah, faz sim. A gente acaba entendendo mais o que cada atleta profissional passa dentro da quadra ou, nesse caso, do campo. Mas, por outro lado, cada modalidade tem sua peculiaridade: o futebol tem esse aspecto de se tratar de um grupo em que há vários companheiros para te ajudar quando você não está num dia bom. E o tênis, por sua vez, tem um caráter muito ingrato: por um lado, você pode estar num dia superbom e seu adversário simplesmente joga melhor do que você, ok. Mas você também pode estar num dia ruim – com dor de estômago, depois de ter dormido mal, qualquer coisa -, entrar na quadra querendo fazer um bom jogo, mas não conseguir, e ainda sair criticado... Têm dias que, definitivamente, não seria nada mau ter outros dez para dividir o peso e dar uma ajuda. (risos) Então, cada esporte tem a sua característica: tanto o tênis quanto o futebol são esportes difíceis, de competitividade enorme – e ainda, no Brasil, a atenção que o futebol atrai só traz mais pressão. Por isso é que eu não sou um cara crítico, não. Sei quanto o futebol de hoje é competitivo: com a quantidade de gente que joga, sei a dificuldade que é chegar a ser profissional e jogar num time grande. Isso eu entendo.




