Roger Rocha Moreira, rock futebol clube

No país cuja trilha sonora é o samba, Roger Rocha Moreira conseguiu emplacar suas contribuições. Mas foi com guitarra, a influência de clássicos como Beatles, o punk e a new wave dos anos 70 para os 80 e, principalmente, alguns dos versos mais mordazes e tocados da música pop brasileira.

De modo que o líder do Ultraje a Rigor, com mais de 30 anos de estrada, adoraria, claro, que o tema musical da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 fosse um autêntico rock. Mas ele sabe que não seria muito realista levar a ideia adiante. “De maneira geral, o que representa mais o Brasil e o futebol ainda é o samba, e também o futebol no fundo é o samba”, afirma ao FIFA.com

O certo é que não daria para tocar o hino do São Paulo, seu clube favorito, cuja versão nos anos 90 fez muito sucesso e foi abraçada por sua torcida com entusiasmo. Corintianos, palmeirenses, flamenguistas e cruzeirenses teriam algo a dizer a respeito, neste caso. 

Foi assistindo aos jogos do São Paulo no embalo do tricampeonato mundial brasileiro no México 1970, impressionado com as cores e bandeiras no estádio – bem diferentes das imagens em preto e branco da TV –, que ele viveu sua época de torcedor mais atuante. Depois, uma outra paixão tomou seu tempo, resultando em uma carreira de sucesso. 

Em seu primeiro grande single, “Inútil”, de 1983, porém, ele revela que de certa forma ainda estava antenado com o que se passava nos gramados. “A gente joga bola e não consegue ganhar”, é um dos versos irônicos – e icônicos – da composição, em referência ao doloroso revés da Seleção de Zico, Sócrates, Falcão e outros craques na Espanha 1982, uma grande equipe que lidava com o futebol como arte, mas não conseguiu o título. Com as duas taças mundiais conquistadas a partir dali, a frase poderia ter corrido o risco de ser alterada. Mas não para o Ultraje e Roger. Qual seria, então, a graça? 

Confira a entrevista:

FIFA.com: Pensando em Copa do Mundo, qual a sua primeira lembrança? 
Roger Moreira: Para falar a verdade, eu me lembro de ouvir no radinho a Copa de 1966, o que acabou sendo horrível. Não me lembro de 1958 e 62, embora fosse vivo, mas na de 66 comecei a acompanhar, e a propaganda que os mais velhos faziam era de que tínhamos um time bom. Mas não ganhamos. Aí teve a de 1970, que passei a assistir ao vivo, em branco e preto. Era um time maravilhoso e saímos para comemorar.  

Quando criança, você costumava ir bastante aos jogos do São Paulo? 
Até empolgado por causa da Copa, comecei a ir ao Morumbi com mais frequência, talvez a cada duas semanas. Eu era sócio do São Paulo, podia entrar de graça; tinha bandeira, levava para o estádio. Tinha o lance de não passar os jogos ao vivo na TV: passavam os videotapes de noite. Aí o legal era ir ao estádio, assistir do lado contrário das câmeras, porque assim você ganhava outro ponto de vista. E era legal ver as cores nas arquibancadas, já que a TV era preto e branco. Então, nessa época eu ia ver mesmo os jogos que não fossem os do São Paulo, para ver aqueles uniformes bonitos, vivos, como os do Cruzeiro e da Portuguesa.

E hoje? Ainda consegue ir ao estádio? 
Quando cresci, comecei a ter outros interesses. Com 16, já não ia tanto. Mas continuava acompanhando os campeonatos pela TV. Hoje, vou quando tem algum privilégio: algum camarote, ou um convite para ir a uma cabine de transmissão. Já não sou tão fanático assim. Tem o conforto de assistir em casa, que não se compara. Não tem transito para ir, tem replay, mil ângulos para ver o gol. Nos camarotes, porém, tem o melhor dos dois mundos, podendo também ouvir a torcida. 

Na hora de acompanhar o futebol, é um torcedor que acompanha mais o clube ou segue os jogos da Seleção também?
Acho que sou um torcedor típico do São Paulo (risos). No fundo, é verdade: torce pela TV, acompanha o campeonato, mas costuma se empolgar mais para o final do campeonato, quando percebe que tem uma chance. Mas o São Paulo já não é mais empolgante como em outras épocas. Procuro acompanhar a Seleção, mas ela também costumava ser infinitamente superior: era o futebol-arte, mesmo em Copas que a gente perdeu. Dava gosto de ver a Seleção. Mas a de 2006, por exemplo, foi um vexame.  Pareciam que nem estavam aí. Esta nova Seleção até agora não está empolgando, mas costumo ver, sim, os jogos. Chega a hora da Copa, acabo torcendo e assistindo a todos os jogos. Mas gostaria de ver algo melhor. 

Bom, se quando criança você se acostumou a ir ao estádio para assistir, em 1988, você foi para ser assistido, em um festival, com o Ultraje a Rigor, acompanhando Duran Duran e Simply Red. Como foi para você tocar no estádio de seu time?
Foi demais. Antes disso a gente tinha ido num evento da Xuxa. Mas, mais que tocar, também pude realizar um sonho: joguei no Morumbi em 2005, na preliminar de um São Paulo x Corinthians, com outros jogadores, como Terto, Paraná e o Viola. E com torcida. Sensacional, ainda mais para alguém que conheceu o Morumbi quando os anéis ainda não estavam completos. Foi muito bom tocar e jogar. Mas tenho impressão de que foi melhor jogar (risos). Com o tempo, a gente meio que se acostuma com a plateia, sem querer parecer blasé. Tocar para um certo número de pessoas não faz diferença, porque você só vai ver um tanto na sua frente. O resto é estatística. 

E o que mais se lembra do jogo?
Você tem a mesma perspectiva do jogador, olhando para a arquibancada. No palco, você tem a perspectiva de estar na torcida. Foi uma noite legal: ganhamos por 3 a 0, mas mais tarde o jogo acabou cancelado. A prévia valeu. Teve uma hora em que fui bater o escanteio e pensei em cruzar para a área. Mas aí você mete um chutão e a bola nem chegava. Era tudo muito grande. Eu mal aguentava correr, então não teve volta olímpica.

Além de tocar e jogar, você teve também um videoclipe gravado no Morumbi, para a versão do hino do São Paulo, não?
Pois é. Eu tento achar esse clipe online, mas não acho. A música acabou se destacando. Foi iniciativa da revista Placar. Eu disse que faria, claro. O produtor tinha uma base gravada, me mandou, e reforcei no estúdio aqui em casa. Acelerei um pouco a rotação, o andamento, porque já era digital. Pus a guitarra, as vozes e mais uma guitarra. O Sergio Serra fez o solo. Mas ficou bem parecido. Eu me diverti, e depois toquei muitas vezes. Incorporei o “Oh-oh-oh”, que já era o hino cantado pela torcida no estádio e não tinha no original. Fui feliz na versão. A partir deste hino, fiquei como um torcedor meio símbolo do São Paulo. Mas na música há torcedores mais fanáticos do São Paulo, como Andreas Kisser e Nando Reis, que vão ao estádio e até ao Japão (risos)

“Independente Futebol Clube”: como surgiu a inspiração? O título parece fazer referência à torcida são-paulina...
Na verdade, foi uma coincidência. Nem sabia se existia na época a torcida. Era uma coisa que minha mãe sempre falava, botava o “futebol clube” nas frases. Aí, na letra, tem umas coisas de namoro, mas era também um recurso que costumava usar: escrever como se fosse uma namorada, mas falando sobre a ditadura, uma coisa mais anárquica. “Você não manda em mim”. Mas até hoje vejo o pessoal fazendo o gesto da torcida na plateia, e tudo bem. 

Em “Inútil”, uma das frases de protesto, ironia, era a de que no Brasil “a gente joga bola e não consegue ganhar”. De lá para cá, a Seleção ao menos venceu duas Copas do Mundo... Chegou a pensar em adaptar a letra em algum momento, ao vivo em algum show após o tetra?
A gente fez algumas brincadeiras com essa música, se bem que a frase original continua valendo. Foi composta depois de 1982, quando a Seleção perdeu. Era uma equipe maravilhosa, mas ficava aquele sentimento todo de impotência, de que nem no futebol a gente ganha mais. Acho que o Bruno, do Biquíni Cavadão, gravou de forma diferente. Mas, nos períodos de Copa, esse pedaço tinha um peso maior quando não estávamos bem. Eu me lembro de, antes de começá-la, dizer algo como: “Essa vai para a Seleção do Lazaroni” (Copa do Mundo da FIFA Itália 1990, quando foram eliminados nas oitavas de final pela Argentina)

O Ultraje tem suas citações, mas, em geral, acha que o futebol tem uma boa representatividade na produção cultural brasileira? 
Acho que na música até tem. O Jorge Ben fez várias, as próprias músicas de futebol. Na época de 1962, me lembro daquela que fala “Vocês vão ver como é Didi, Garrincha e Pelé”, o  “Frevo do Bi” (de Jackson do Pandeiro). Apesar de ser uma marcha, “90 milhões” é bonita. Até músicas instrumentais, como a “1 a 0”, do Pixinguinha. Cinema é mais difícil. Nos Estados Unidos, é mais fácil fazer, porque eles têm dinheiro, know-how, e aqui é muito fechada a coisa. Se o cara fizer um filme sobre o Botafogo, de repente o flameguista não vai ver. Já de música tem bastante, qualquer jogador ganha a sua música. 

Para fechar, então, qual tipo de música, na sua opinião, mais representa o futebol brasileiro? Como você imagina que deveria ser o tema da Copa?
De maneira geral, o que representa mais o Brasil e o futebol ainda é o samba, e também o futebol, no fundo, é o samba. Aquela música do Skank (“É Uma Partida de Futebol”) ficou muito simbólica pela união do futebol; descreve bem a situação. Não é um rock, não sei bem o que é – porque nem tudo gravado com guitarra é rock. É uma música com um ritmo nordestino. Claro que queria que a música  fosse um rock, mas acho que o que representa mais é alguma coisa puxada para o samba, mesmo. Precisa ser algo mais universal, com uma pegada com um pouco mais de brasilidade, mas que fosse uma música com apelo pop maior.