O encontro da Fúria com a história
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No dia 16 de junho, os jogadores da Espanha saíram do vestiário do Estádio de Durban prontos para enfrentar a imprensa e explicar como os atuais campeões europeus tinham perdido dos modestos suíços na partida de estreia. Mas nenhum deles — nem o articulador Xavi, nem o jovem Pedro, nem o experiente Puyol — tinha o olhar assustado e acuado que geralmente acompanha uma estreia desastrosa em uma Copa do Mundo da FIFA. "Foi um jogo estranho", disse o artilheiro David Villa ao FIFA.com, em uma avaliação tranquila da situação.

Participando da competição pela 12ª vez, os espanhóis já estão acostumados a conviver com altas expectativas e decepções. A derrota por 1 a 0 para a retrancada Suíça de Ottmar Hitzfeld parecia ser a continuação perfeita da história de frustrações da Espanha na Copa do Mundo da FIFA. No entanto, a seleção se recuperou de modo espetacular, exibindo o estilo de jogo e o brio que havia mostrado ao conquistar a Euro 2008. Os espanhóis superaram rivais como a Alemanha, o Paraguai e Portugal na sonhada corrida até a final e espantaram, assim, os fantasmas do passado.

"A derrota para os suíços nos deu mais força", disse Fernando Llorente, o jovem camisa 19 da seleção, que dava os primeiros passos no Atlético de Bilbao há quatro anos, quando a Espanha se classificou na fase de grupos da Alemanha 2006 como uma das favoritas e acabou caindo contra a França nas oitavas de final após fraca atuação.

Um dos nomes essenciais para a renovação da confiança espanhola é o zagueiro Carles Puyol, de 32 anos. O jogador do Barcelona conhece bem as dores da Espanha na competição. Ele jogou em 2002 quando a seleção liderada por Raúl e Fernando Hierro, astros do Real Madrid, foi eliminada nos pênaltis em uma partida de quartas de final muito disputada com os anfitriões sul-coreanos.

A conhecida capacidade de entrega e sacrifício de Puyol faz com que a Espanha seja mais do que apenas um amontoado de jogadores habilidosos. O seu fantástico gol de cabeça, que assegurou a vitória contra a Alemanha na semifinal, ajudou a aliviar as agonias do passado.

David Villa também tem tido um desempenho excelente nesta competição. Os cinco gols que fez em seis jogos o colocaram na disputa pela artilharia do torneio. O atacante nasceu em Langreo, nas Astúrias, a mesma região do compatriota Luis Enrique, que teve o nariz quebrado em um choque com o italiano Mauro Tassotti nas quartas do Mundial de 1994, perdendo quase meio litro de sangue e a própria partida.

Quatro anos depois, na França, a seleção espanhola chegou novamente cercada de expectativas, que foram desfeitas logo na estreia contra a surpreendente Nigéria. Depois de perder por 3 a 2 em Nantes, os espanhóis empataram com o Paraguai em 0 a 0 e se despediram da competição com uma goleada inútil de 6 a 1 sobre a Bulgária.

Fernando Torres, Pedro e Cesc Fàbregas nem eram nascidos quando a Espanha sediou a Copa do Mundo da FIFA 1982. Após só terem chegado entre os quatro primeiros uma vez, no Brasil 1950, os espanhóis viram crescer as expectativas sobre a seleção naquele torneio. O técnico José Santamaría, que integrara como jogador o plantel último colocado no seu grupo no Chile 1962, convocou um elenco extraordinário. Mas as antigas inseguranças minaram o grupo, e a confiança desapareceu. Uma derrota para a Irlanda do Norte na fase de grupos abriu caminho para uma dura eliminação na segunda fase.

Em 1986, os espanhóis contavam com a famosa dupla formada por Emilio Butragueño e Míchel e se prepararam novamente para conquistar o mundo no México. Depois de massacrar a Dinamarca com uma goleada de 5 a 1, com quatro gols de Butragueño, a Espanha mostrou irregularidade uma vez mais e foi eliminada nos pênaltis nas quartas de final pela resistente Bélgica de Enzo Scifo. Em 1990, na Itália, não foi diferente. Depois de se classificar em primeiro lugar no seu grupo, voltou a frustrar as expectativas e perdeu nas oitavas de final diante da inspirada Iugoslávia de Dragan Stojkovic.

Teorias de todos os tipos já foram formuladas para explicar os fracassos da Espanha na Copa do Mundo da FIFA, inclusive cisões e panelinhas no grupo causadas pela rivalidade entre Real Madrid e Barcelona. A história espanhola de forte regionalismo também é uma causa possível muitas vezes citada. Mas talvez seja apenas uma combinação recorrente de nervosismo e azar.

Nenhum desses fatores, no entanto, parece ter abalado a atual seleção espanhola. Humildes, brilhantes com a bola e aparentemente imperturbáveis diante de todos os tipos de adversários, eles podem muito bem ter encontrado a resposta. "Mostramos que, nos grandes momentos, estamos à altura dos acontecimentos", disse Villa, pensando apenas em gols e enfrentando indiretamente a difícil relação da Espanha com a história.