Derrotada na final da primeira Copa do Mundo da FIFA, a Argentina atingiu o topo 48 anos depois, em casa, conduzida pelo artilheiro Mario Kempes e pelos fervorosos torcedores que lotaram os estádios de Buenos Aires e Rosário com uma chuva de papéis azuis e brancos — imagem que se transformou em símbolo da competição.

Coadjuvante da festa argentina, a Holanda perdeu por 3 a 1 no Monumental de Nuñez a sua segunda final consecutiva. Depois de um gol de Kempes no primeiro tempo e do empate com Dirk Nanninga na etapa final, os holandeses chegaram muito perto do título com uma chance clara de Rob Rensenbrink nos últimos segundos do tempo regulamentar. Mas o destino sorriu para a Argentina e Kempes e Daniel Bertoni conheceram a glória ao marcarem dois gols na prorrogação.

Kempes, único jogador da seleção argentina que atuava no exterior, não balançou as redes nenhuma vez na primeira fase, mas depois desencantou e encerrou a competição com seis gols. Ele não foi o único a ter um começo complicado — o selecionado de Cesar Luis Menotti venceu a Hungria, mas precisou da sorte para derrotar a França por 2 a 1 e depois perdeu a primeira colocação do grupo da primeira fase para a Itália no confronto direto por 1 a 0. Ainda assim, Menotti, que não convocara o jovem Diego Maradona, então com 17 anos, acabaria sendo recompensado por pregar um futebol baseado no talento e na ofensividade, estilo personificado pelo habilidoso meia Osvaldo Ardiles.

Vitória africana e golaço escocês
A fase inicial testemunhou ainda a primeira vitória de uma seleção africana na Copa do Mundo da FIFA, com a estreante Tunísia derrotando o México por 3 a 1. O  também debutante Irã, por sua vez, conquistou um ponto contra a Escócia. Únicos representantes britânicos na competição, os escoceses se recuperaram e venceram a Holanda por 3 a 2 na última rodada da primeira fase em Córdoba com um golaço de Archie Gemmill, mas ainda assim deram adeus à competição e viram os holandeses avançarem graças ao saldo de gols.

A competição, tendo como pano de fundo o opressivo regime militar liderado pelo general Jorge Videla, foi rica em polêmicas. Logo na primeira fase, os jogadores do Brasil não ficaram nada satisfeitos quando o árbitro galês Clive Thomas apitou o fim do jogo contra a Suécia segundos antes de a bola cabeçada por Zico cruzar a linha — com o gol anulado, a partida terminou em 1 a 1. Fora de campo, o atacante argentino Leopoldo Luque optou por continuar jogando apesar da morte do irmão em um acidente de carro. Já o escocês Willie Johnston foi flagrado no antidoping.

Um dos melhores selecionados a voltarem mais cedo para casa, a França chamou a atenção não só pela nada familiar camisa em listras verdes e brancas emprestada pela equipe local do Kimberly para o jogo contra a Hungria depois de uma confusão com os uniformes. Michel Platini, de 21 anos, deu provas da sua impressionante habilidade ao marcar o seu primeiro gol na competição contra a Argentina.

Assim como em 1974, os oito países classificados para a segunda fase foram divididos em dois grupos, e a Holanda conquistou a primeira colocação do Grupo A, avançando à final. Comandada pelo austríaco Ernst Happel, ex-campeão europeu com o Feyenoord, a seleção sentiu a ausência do astro Johan Cruyff, que decidira não disputar a competição, e de Wim van Hanagem, desfalque de última hora. Mesmo assim, o ataque funcionou e Rensenbrink só ficou atrás de Kempes na artilharia.

Depois de vencerem a Áustria e empatarem com a então campeã Alemanha Ocidental, os holandeses derrotaram a Itália na partida decisiva da segunda fase. Ernie Brandt marcou um gol para a Holanda e fez outro contra, mas graças ao chute de longa distância de Arie Haan a Laranja Mecânica avançou à final. No mesmo dia, Hans Krankl levou a Áustria à primeira vitória em 47 anos sobre a eliminada Alemanha Ocidental.

Brasil superado
A Itália de Enzo Bearzot adquiriu na Argentina uma experiência que viria a ser muito útil quatro anos depois na Espanha. Paolo Rossi, por exemplo, fez três gols que foram um aperitivo do que viria em 1982. Mesmo assim, a Azzurra perdeu a medalha de bronze para o único invicto da competição, o Brasil. A seleção brasileira apresentou ao mundo o atacante Roberto Dinamite e o lateral Nelinho, responsável por chutes inimagináveis cheios de efeito, mas teve de se contentar com a disputa do terceiro lugar após ficar atrás da arquirrival Argentina na segunda fase.

Depois de um empate tenso, Brasil e Argentina partiram para a rodada decisiva empatados. Após a vitória brasileira sobre a Polônia por 3 a 1, os argentinos precisavam de um triunfo por quatro gols de diferença sobre o Peru no mesmo dia para chegarem à final. Contando com o astro Teófilo Cubillas, os peruanos haviam batido a Escócia e empatado com a Holanda na primeira fase, mas já estavam eliminados da competição. A Argentina se aproveitou e conquistou a vitória pelo incrível placar de 6 a 0, com dois gols de Luque e Kempes, cujo faro de gol havia retornado depois que a seleção alviceleste passara a jogar em Rosário, sua cidade natal.

Os acontecimentos daquela noite fizeram com que as partidas decisivas das fases de grupos das edições posteriores da Copa do Mundo da FIFA passassem a ser disputadas simultaneamente. A consequência imediata, no entanto, foi a chegada de Argentina e Holanda à final do dia 25 de junho de 1978. "Tulipas nos Pampas?", perguntou o jornal francês L'Équipe na véspera do jogo. Porém, quem riu por último foi a seleção dona da casa. Enquanto os holandeses deixavam o campo às lágrimas mais uma vez, o capitão Daniel Passarella se tornava o primeiro jogador argentino a erguer o troféu mais importante do futebol mundial.