Michel Salgado: "Sub-20 é um momento único"
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Recém-penduradas as chuteiras depois de uma trajetória de sucesso em clubes como o Real Madrid (com o qual conquistou, entre outros títulos, duas Ligas dos Campeões e quatro campeonatos nacionais) e na seleção espanhola, Míchel Salgado está iniciando uma nova etapa da sua vida futebolística. O camisa 2 trocou a lateral direita pelo comando de uma escolinha de futebol em Dubai e se prepara para uma carreira como técnico.

Cheio de esperança nos novos projetos, Salgado falou com exclusividade ao FIFA.com sobre os seus novos laços com o futebol de base e a importância dos torneios de categorias inferiores para um jogador no caminho rumo ao profissionalismo. Em 2013, uma das principais competições internacionais será a Copa do Mundo Sub-20 da FIFA, que começa em junho na Turquia. O ex-jogador aproveita e relembra a experiência com a Espanha na edição do Catar 1995.

FIFA.com: Depois de uma carreira esportiva invejável, primeiro no Celta de Vigo, depois no Real Madrid e finalmente com o Blackburn, como você descreveria esta nova etapa da sua vida? 
Míchel Salgado:
As coisas estão indo muito bem para mim. Depois de deixar os gramados, eu não queria iniciar um ano sabático, e sim um ano de estudo, de pensamento, para ver o que posso fazer no mundo do futebol a partir de agora, já que não posso mais jogar em nível profissional. Virei comentarista esportivo (trabalha para a Al Jazeera Sports no Catar) e agora vou começar um projeto novo como diretor, conselheiro e imagem da Dubai Sports City, uma cidade residencial na qual foram construídas instalações esportivas espetaculares, e para onde levarei o tema futebolístico. Quero obter a licença de treinador e, por enquanto, estou fazendo coisas que contribuam para o meu futuro, como o trabalho da escolinha. Passo pouco tempo fora, mas já tenho saudades do verde e do trabalho diário com uma equipe.

Você trabalhou para alguns dos melhores treinadores do mundo, como Fabio Capello e Vicente del Bosque. Imaginamos que eles estarão muito presentes no seu futuro como técnico...
Ao longo da carreira, tive a sorte de trabalhar com treinadores muito bons, mas acho que não se aprende somente com os melhores. Deve-se aprender inclusive com aqueles que não parecem bons, pelo menos para aprender a não fazer o que eles fazem (risos). O fato de ter tido uma boa carreira como jogador de futebol não quer dizer que você vai ser um grande treinador. Ser técnico é muito diferente de ser jogador. É um trabalho muito solitário, no qual é preciso tomar decisões boas e más pelo bem da equipe. Quando você ganha, todos ganham, mas, quando a equipe perde, o responsável principal é você... É um dos trabalhos mais difíceis do futebol, além de ser demorado. Por isso, é preciso estudar todos os métodos e todos os treinadores até que você encontre o seu próprio caminho e as suas próprias ideias.

Com base na sua experiência como jogador e, agora, no seu trabalho de formação de atletas, que diferenças percebe entre as jovens promessas da sua época e as de agora? 
Nos últimos anos as coisas mudaram muito. Agora encontramos garotos de 13 e 14 anos com empresário, algo que na minha época não seria permitido, e meninos de 16 anos já têm chuteiras personalizadas… Acho que seria bom retomar um pouco o passado e saber de onde viemos. Os negócios do futebol estão fazendo com que meninos cada vez mais jovens sejam contratados. Um menino precisa errar mais, respeitar o treinador, e este deve ter o direito de trocá-lo e de ensiná-lo. Para um treinador, hoje em dia, é complicado querer ensinar coisas a um garoto de 19 anos na equipe, e não deveria ser assim. Nesta idade, ainda se pode aprender muito. O futebol está trilhando caminhos drásticos demais. Não estou dizendo que devemos viver no passado, e sim que devemos resgatar o que há de válido nele e chegar a um meio-termo.

Você tem uma grande lista de títulos na carreira profissional, mas com a seleção não foi a mesma coisa. Você conviveu com Casillas, Xavi e companhia, mas o seu último grande torneio com a seleção foi a Copa do Mundo da FIFA Alemanha 2006. Sente alguma inveja saudável dos sucessos recentes da seleção? 
Inveja não, porque tive a sorte de conviver com eles quando estavam começando este grande ciclo. É típico da Espanha ver a parte triunfal como o bom e o passado como se não tivesse servido para nada, mas eu acho que é o contrário. Se o futebol espanhol está triunfando agora é porque muitos no passado, não só na minha época, lutaram e foram fiéis às suas ideias. O fato de não termos mudado de mentalidade nem de estilo de jogo é o que resultou no que vivemos agora. A qualidade de agora é espetacular, mas eu também joguei em seleções que praticavam um futebol maravilhoso. Nos grandes momentos, também é preciso um toque de sorte, e esta seleção, graças a Deus, sempre teve. E digo isto com todo o carinho do mundo, porque, embora não faça parte, me sinto muito próximo dos que ganharam todos estes títulos. Estou maravilhado com o que estão fazendo. Estamos vivendo um momento grandioso.

Você jogou mais de 50 partidas com a seleção principal, mas a carreira com a Espanha começou muito antes, nas categorias inferiores. Ganhou o Europeu Sub-21 na Romênia e também disputou a Copa do Mundo Sub-20 da FIFA Catar 1995. Que lembranças tem daquele Mundial, e qual foi a importância dele na sua formação como jogador? 
Tenho muito boas lembranças do Catar 1995, um torneio do qual me recordo com muito carinho. Estive ao lado de jogadores que depois também jogaram na primeira divisão por muitos anos, como Raúl, Iván de la Peña, Fernando Morientes, Joseba Etxeberría… A nossa equipe era boa o suficiente para ganhar, mas, infelizmente, perdemos nas semifinais da Argentina, que acabou sendo campeã. Fico com a experiência de ter atuado com profissionais que, mesmo naquela época, já jogavam um futebol de enorme qualidade, com quem dividi muitos momentos ao longo da carreira profissional, e dos quais sempre fui muito amigo.

Acho que este tipo de torneio é importantíssimo na vida de um jogador. É uma das primeiras experiências internacionais no mais alto nível, em uma idade intermediária entre o garoto que recebe a primeira oportunidade e o homem, o profissional que pode vir a ser. É uma época preciosa na vida de um jogador, e acho que é importante vê-la e vivê-la como um momento único e inesquecível. Pena que não posso voltar atrás (risos). Sinto falta daqueles anos.

Pensando nessas experiências, e às vésperas da Turquia 2013, o que você aconselharia aos jogadores que vão representar a Espanha no Mundial? 
Diria a eles que desfrutem do torneio como se fosse o último e que tentem seguir o bom caminho trilhado pelas seleções de base há tanto tempo. Estão em um momento-chave da vida, durante o qual devem demonstrar se são bons o suficiente para seguirem carreira profissional. Desejo o melhor e… Que ganhem o Mundial!