
Uma alegria incontida tomou conta da África quando presidente da FIFA, Joseph S. Blatter, anunciou que a 19ª edição da Copa do Mundo se realizaria no país mais meridional do continente. No entanto, outro pioneiro do futebol foi o primeiro defensor de que uma competição da entidade que dirige este esporte em todo o mundo deveria ser levada ao segundo maior continente do planeta em 1977.
Harry Cavan, futuro vice-presidente da FIFA, que carinhosamente se referia a Blatter como seu "pupilo", estava ávido por desenvolver as categorias de base do futebol e permitir que países de fora da Europa e da América do Sul também tivessem o direito de organizar torneios. Assim, planejou a criação do Campeonato Mundial Juvenil da FIFA – hoje, chamado de Copa do Mundo Sub-20 da FIFA –, cuja edição inaugural foi outorgada à Tunísia.
E a movimentação em campo não decepcionou nem Cavan nem a torcida local. Também contribuiu para o apelo gerado pela competição a série de zebras que foram ocorrendo ao longo da campanha. Duas das maiores aconteceram nas semifinais, quando o México e a União Soviética superaram respectivamente Brasil e Uruguai, duas potências sul-americanas – ambos em decisões por pênaltis de testar os nervos. Assim, uma inesperada final foi marcada para o dia 10 de julho de 1977, há exatos 35 anos nesta terça-feira.
Mais de 22 mil pessoas compareceram ao Estádio El Menzah, na cidade de Radès, subúrbio da capital do país, Túnis, para testemunhar um desfecho à altura da competição. Depois de um movimentado primeiro tempo, no qual nenhuma das seleções conseguiu abrir o placar, as redes balançaram três vezes em um intervalo de dez minutos logo no início da etapa final. Fernando Garduño pôs os mexicanos à frente, mas o lateral-direito Vladimir Bessonov empatou. Agustín Manzo, porém, voltou a deixar o selecionado norte-americano em vantagem. E tudo parecia dizer que o 2 a 1 se manteria, até que Bessonov subiu ao ataque mais uma vez, já nos últimos instantes, e marcou o gol de empate, fazendo que todos os jogos de mata-mata daquele torneio acabassem sendo definidos nas penalidades máximas – apenas os quatro vencedores dos grupos da primeira fase avançavam. Mesmo assim, este fato ainda não se repetiu em competições da FIFA.
No entanto, pouco antes do apito final do árbitro, o técnico da União Soviética, Serguel Massiaguine, apostou em seu trunfo. Yuri Sivuha, especialista em pegar pênaltis, saiu do banco para substituir seu colega Aleksandr Novikov. A jogada tinha funcionado diante dos uruguaios e voltaria a dar certo: o goleiro, futuro ídolo do Metalist de Carcóvia, da Ucrânia, fez duas grandes defesas e deu o triunfo aos soviéticos por 9 a 8. Foi um ápice emocionante para uma competição que havia empolgado muito e ajudou a colocar o Campeonato Mundial Juvenil da FIFA no mapa do futebol, além de demonstrar a capacidade da África de organizar torneios.
Bessonov foi merecidamente eleito o melhor jogador da Tunísia 1977, enquanto seus companheiros Andrey Bal, Sergei Baltacha e Vagiz Khidiyatullin estão entre os inúmeros graduados daquele campeonato juvenil que acabariam disputando uma Copa do Mundo da FIFA no futuro. Ao lado do futebol de base e da África, esses atletas têm uma dívida de gratidão com Cavan.

