Celeste Olímpica cala o Maracanã
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O Brasil construiu o maior estádio de futebol do planeta para sediar a Copa do Mundo da FIFA 1950, mas a esperança de consagrar o gigantesco Maracanã com o primeiro título mundial foi destruída após uma das maiores surpresas da história da competição.

A Copa do Mundo da FIFA 1950 não teve final, pois foi decidida em um quadrangular. Mesmo assim, Brasil e Uruguai fizeram justamente na última rodada da fase final a partida que decidiu o torneio. Precisando de somente um empate, a seleção brasileira abriu o marcador com Friaça aos dois minutos do segundo tempo, mas o Uruguai conseguiu a virada com gols de Juan Schiaffino e Alcides Ghiggia. Um silêncio ensurdecedor de 200 mil vozes foi ouvido no Maracanã, e o pequeno país vizinho comemorou no Brasil o seu segundo título mundial.

O Uruguai, campeão mundial em 1930, só precisou disputar uma partida (goleou a Bolívia por 8 a 0) para chegar ao quadrangular final. Na fase decisiva, o selecionado saiu perdendo todas as três partidas, mas conseguiu na última a virada que entrou para a história como o Maracanazo.

A competição no Brasil foi a primeira Copa do Mundo da FIFA após a Segunda Guerra Mundial. Durante todo o conflito, o cobiçado troféu ficara escondido em uma caixa de sapatos sob a cama do italiano Ottorino Barassi, vice-presidente da FIFA. Com o retorno da paz, ele ganhou o nome de Taça Jules Rimet para comemorar o renascimento da competição.

Treze participantes
Apenas 13 seleções disputaram o título no Brasil devido à ausência de países do Leste Europeu e a uma série de desistências de peso, especialmente de Argentina e França — esta última em protesto contra um itinerário que envolveria uma viagem de 3.500 km entre uma partida e outra.

A Inglaterra estava presente pela primeira vez depois de vencer um torneio entre os países das Ilhas Britânicas. Por outro lado, a Escócia, que teria o direito de viajar depois de ficar em segundo lugar, recusou a oportunidade. Quem também se classificou, mas não quis jogar, foi a Turquia. Já a Índia disse não porque a FIFA não permitiria que seus atletas jogassem de pés descalços. Os cinco participantes sul-americanos não precisaram disputar nenhuma partida nas eliminatórias.

O torneio teve uma primeira fase bastante incomum, com as seleções divididas em dois grupos de quatro países, um grupo de três e ainda um grupo com somente Uruguai e Bolívia.

O Maracanã era um monumento à ambição brasileira, e os homens comandados por Flávio Costa superaram a expectativa na estreia e abriram a campanha com uma goleada de 4 a 0 sobre o México.

Porém, o empate em 2 a 2 com a Suíça deixou o Brasil precisando de uma vitória no último jogo diante da Iugoslávia. Na partida que decidiu o grupo, os brasileiros tiveram um pouquinho de sorte quando o atacante iugoslavo Rajko Mitić machucou a cabeça ao subir as escadarias para o gramado do Maracanã. Ele ainda estava sendo atendido quando Ademir abriu o placar para o Brasil, que definiu o marcador com Zizinho no segundo tempo.

Enquanto o Brasil avançava, a campeã Itália era eliminada ao ser derrotada pela Suécia por 3 a 2. Os escandinavos, todos amadores, haviam perdido Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm para a Série A italiana após o título olímpico em 1948. Mas os jogadores dirigidos pelo inglês George Raynor ainda tinham o suficiente para superar a Itália, que perdera muitos dos seus principais atletas no ano anterior em um terrível acidente aéreo que tirara a vida de 19 jogadores do Torino.

Surpresa norte-americana
Com o terceiro lugar da Suécia, Raynor foi o único inglês a comemorar algo no Brasil. A seleção do país que inventou o futebol moderno fez muito feio na sua primeira participação na Copa do Mundo da FIFA. A Inglaterra chegou mal-preparada e pagou caro em Belo Horizonte com uma derrota por 1 a 0 para os Estados Unidos. Treinados pelo escocês Bill Jeffrey, os americanos haviam estreado com derrota para a Espanha, mas tinham aberto o marcador e permanecido na frente do placar durante a maior parte do jogo contra nesse revés. No entanto, contra a Inglaterra, tiveram a ajuda da sorte para manter a vantagem assegurada com um gol de Joe Gaetjens no primeiro tempo.

Na Inglaterra, alguns jornais acharam que o resultado era um erro de digitação e publicaram que a partida havia terminado em 10 a 1. No fim, a seleção inglesa voltou para casa bem mais cedo do que esperava após outra derrota por 1 a 0 para a Espanha, com um gol de Zarra. Entre os homens que escreveram uma das páginas mais lamentáveis da história do futebol inglês estava o lateral-direito Alf Ramsey, que se redimiu como treinador ao conquistar o título mundial em 1966.

No quadrangular final, o Brasil estreou com tudo ao golear a Suécia por 7 a 1 com quatro gols de Ademir, artilheiro da competição anotados. Com uma nova goleada por 6 a 1 diante da Espanha, os brasileiros ficaram com uma mão no troféu. Só precisavam empatar na última rodada com o Uruguai, que vinha de um empate em 2 a 2 com a Suécia e uma vitória por 3 a 2 sobre a Espanha, em ambos os casos chegando ao intervalo em desvantagem.

Embora o Uruguai tivesse vencido um dos três amistosos entre os dois países dois meses antes da competição, a confiança era tanta no Brasil que o jornal Gazeta Esportiva trouxe a manchete "Venceremos o Uruguai". O prefeito do Rio proclamou o Brasil campeão do mundo antes do pontapé inicial, e poucas almas em uma torcida estimada em 174 mil espectadores — mas que pode muito bem ter superado a marca dos 200 mil — imaginavam qualquer coisa diferente.

O Brasil abriu o placar com tranquilidade em uma jogada armada por Zizinho e Ademir e concluída por Friaça. Mas o Uruguai, comandado pelo capitão Obdulio Varela, empatou aos 21 do segundo tempo depois de Gigghia passar por Bigode pela ponta direita e cruzar para Schiaffino marcar. Então, faltando apenas 11 minutos, veio o imponderável: Gigghia deixou Bigode mais uma vez para trás e chutou entre Barbosa e o poste, levando a Celeste Olímpica ao paraíso — e o Brasil ao desespero.