A extraordinária fase da Seleção Brasileira nas temporadas de 2002 e 2003 não poderia ter terminado melhor. O tetracampeonato na Copa do Mundo Sub-20 da FIFA Emirados Árabes Unidos 2003 ratificou o momento vitorioso que o Brasil já vivera na Copa do Mundo Sub-17 na Finlândia, no mesmo ano, e na Copa do Mundo da FIFA 2002. Foi uma campanha dura para os brasileiros, mas, no final, o título da 14ª edição do torneio acabou confirmando a hegemonia sul-americana na categoria.
No geral, a Espanha voltou a mostrar a sua qualidade com o vice-campeonato, mas os outros europeus, assim como os africanos, acabaram decepcionando. Austrália e Canadá, por sua vez, fizeram um bom papel, enquanto a Ásia ganhou força e os Estados Unidos mantiveram o seu progresso evidente no cenário mundial. No entanto, é provável que a lembrança mais marcante do torneio seja o furor que o talentoso baixinho Ismail Matar e os seus companheiros causaram com a seleção anfitriã.
Brasil mostra espírito guerreiro
A trajetória do Brasil até a final esteve longe de ser fácil, a começar pelo sorteio, que pôs a Seleção no complicado Grupo C. Uma boa vitória na estreia contra o Canadá por 2 a 0 foi seguida por um empate em 1 a 1 contra a também favorita República Tcheca. Então, veio um tropeço na última partida, contra a Austrália. A derrota por 3 a 2 deixou os brasileiros à beira da desclassificação, mas o técnico Marcos Paquetá respondeu ao resultado com a frase que repetiria ao longo de todo o torneio. "Ainda não gastamos todos os nossos cartuchos", declarou.
E, de fato, o treinador parecia ter razão, já que o Brasil deslanchou a partir das oitavas, e os seus craques passaram a mostrar um bom futebol. O lateral direito Daniel Alves acabou com as defesas adversárias ao bom estilo de Cafu. Dudu Cearense, um atípico volante-artilheiro, começou a desequilibrar, enquanto o meia-atacante Daniel Carvalho chamava a atenção com a sua técnica e o atacante Kléber mostrava espírito de matador. O auge do grupo chegou nas quartas-de-final, quando os garotos de Marcos Paquetá atropelaram os desafortunados japoneses por 5 a 1. Em compensação, a semifinal contra a arquirrival Argentina foi completamente diferente, e a Seleção precisou de muita paciência e jogo estratégico para avançar com o placar mínimo. A decisão contra a Espanha seguiu o mesmo roteiro, e os garotos do Brasil novamente tiveram de desmentir a fama de sempre jogarem bonito. No fim, foi uma mescla de qualidade técnica e marcação cerrada que levou os brasileiros ao triunfo por 1 a 0.
Espanha morre na praia
A "Fúria" pode não ter sido a seleção mais brilhante nos Emirados Árabes Unidos 2003, mas a habilidade e a regularidade dos espanhóis os transformaram rapidamente em sérios candidatos ao título. Comandados em campo por Andrés Iniesta, meia que deu o que falar nos anos seguintes, os garotos de José Ufarte começaram com o pé esquerdo, com uma derrota de 2 a 1 para a Argentina, mas logo retomaram o caminho. Entre os destaques do selecionado estavam o atacante Sergio García, o goleiro Riesgo, o meia Gavilán e, naturalmente, o capitão Iniesta. O camisa oito da Espanha deixou boas lembranças nos torcedores com a sua visão de jogo, chutes precisos e muita garra.
Na final, entretanto, a difícil tarefa dos espanhóis se tornou quase impossível quando, logo aos quatro minutos de jogo, Melli foi expulso e deixou o Brasil com um homem a mais. Como costuma acontecer, a desvantagem numérica serviu para que a seleção espanhola aumentasse o volume de jogo e segurasse o 0 a 0, mas todo esse esforço acabou indo por água abaixo com o gol de Fernandinho, aos 42 do segundo tempo.
América do Sul, a terra do futebol
Os sul-americanos terminaram o Mundial como a maior força da categoria, classificando três dos seus quatro representantes para as semifinais. Coincidentemente, os semifinalistas foram os mesmos da Copa do Mundo Sub-17 da FIFA, disputada no mesmo ano na Finlândia.
A Argentina caiu diante do Brasil nesta mesma fase, mas antes havia ganhado todas as partidas que jogara, mostrando nervos de aço nos confrontos das oitavas e das quartas, quando bateu o Egito e os Estados Unidos, respectivamente, por 2 a 1 na prorrogação. Na trajetória da seleção albiceleste, Fernando Cavenaghi e Javier Mascherano foram os melhores. Por sua vez, a Colômbia terminou o torneio com uma boa campanha, apesar de não ter feito tanto barulho. O ponto alto da participação colombiana foi a partida das oitavas contra a Irlanda, um jogo de tirar o fôlego que terminou com a vitória dos sul-americanos na morte súbita. Em um grupo bastante coeso, os destaques ficaram por conta do atacante Edixon Perea e do goleiro Hector Landazuri.
Os africanos, por sua vez, melhoraram o desastroso desempenho do Mundial Sub-17, no mesmo ano, quando não classificaram nenhuma seleção para as oitavas-de-final. No entanto, ficaram longe de repetir os feitos das edições anteriores da Copa do Mundo Sub-20 da FIFA. Nenhum dos quatro representantes da África alcançou as quartas, algo que não acontecia desde 1991. A Costa do Marfim levou a campo os dois melhores nomes do continente: Arouna Koné e Antonin Koutouan.
O retrospecto dos europeus tampouco foi muito melhor, e o vice-campeonato da Espanha não conseguiu salvar a atuação dos outros cinco participantes do continente. Apenas Irlanda e Eslováquia também chegaram às oitavas, de onde não passaram.
Um aspecto positivo do torneio foi o progresso dos continentes com menos tradição, tendência que já havia sido observada na Copa do Mundo da FIFA Coreia/Japão 2002. Canadá e Estados Unidos exibiram um futebol de alto nível e só caíram nas quartas, depois de darem muito trabalho à Espanha e à Argentina, respectivamente (ambos foram eliminados na prorrogação por 2 a 1). Japão, Emirados Árabes Unidos e, em menor medida, Coreia do Sul honraram o nome dos asiáticos, enquanto a Austrália foi responsável pela maior zebra da competição ao derrotar o Brasil na primeira fase. Os australianos, no entanto, caíram nas oitavas, vítimas da magia do emiradense Ismail Matar.
Ismail Matar, a estrela do oriente
Poucos tinham ouvido o nome do ganhador da Bola de Ouro adidas antes do início do Mundial, mas, ao final da competição, todos conheciam Ismail Matar. O atacante do Al Wahda e titular da seleção principal dos Emirados Árabes levou o seu selecionado praticamente nas costas até as quartas-de-final. Com muita garra, dribles, passes precisos e chutes perigosos, ele causava sensação toda vez que entrava em campo. Nas oitavas, foi com um arremate seu que os Emirados desclassificaram a favorita Austrália. Contra a Colômbia, nas quartas, Matar não conseguiu repetir o feito, mas certamente deixou uma marca duradoura no mundo do futebol.
As estatísticas
Participantes:
Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Burkina Fasso, Canadá, Colômbia, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Egito, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, Japão, Mali, México, Panamá, Paraguai, República Tcheca e Uzbequistão.
Classificação final:
- Brasil
- Espanha
- Colômbia
- Argentina
Total de gols marcados:
118 (média de 2,27)
Melhor ataque:
Brasil, 14 gols
Artilheiros:
Ed Johnson (USA), Dudu Cearense (BRA), Daisuke Sakata (JPN) e Fernando Cavenaghi (ARG), quatro gols
Estádios e cidades:
Cidade Esportiva Zayed (Abu Dhabi), Mohammad Bin Zayed (Abu Dhabi), Sheikh Khalifa (Al Ain), Al Maktoum (Dubai), Rashid (Dubai) e Sharjah (Sharjah)
Público:
183.616 (55 mil na final)
Média de público:
5.738 por partida
