A praia não é mais aquela
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Já é tentador dizer que os tempos são outros no mundo do beach soccer apenas pelo resultado final de Ravena. Afinal, fazia simplesmente seis anos, 30 jogos, que a Seleção Brasileira não perdia e, na decisão do título, não apenas isso aconteceu como da forma mais veemente possível: numa derrota incontestável por 12 a 8. E não diante do antigo rival Portugal ou de qualquer outra equipe que já houvesse estado perto do título da Copa do Mundo de Beach Soccer da FIFA, mas da Rússia.

Mas o que aconteceu na final de domingo não foi simplesmente um resultado diferente, ou a prova da ascensão de uma nova equipe. A goleada dos russos, com sua organização precisa, sobre os talentosos brasileiros é o ponto mais alto de um processo geral de desenvolvimento, que foi visto desde o primeiro dia de torneio. Para vencer, no beach soccer, claramente já não basta ser mais talentoso que o adversário. Todas as equipes, sem exceção, dominam no mínimo os conceitos táticos no campo defensivo, e os dias de goleadas estrondosas vão ficando para trás.

“É incrível como o jogo se tornou tático”, conta ao FIFA.com o técnico do Brasil, Alexandre Soares. “Basta observar os placares e a maneira como as partidas se desenrolaram: ficou muito mais difícil encontrar espaços”, completou ele, que viveu de perto um dos exemplos mais claros desse equilíbrio: a Seleção, acostumada a vitórias tranquilas ao longo de seu tetracampeonato, não venceu nenhum jogo por mais de três gols de diferença até chegar à final. E, então, a equipe que nunca havia perdido uma partida no tempo regulamentar, sucumbiu diante da força coletiva da Rússia, a equipe que leva essa primazia tática ao extremo.

“Sou feliz de ter uma equipe assim: em que todos os 12 jogadores dominam os fundamentos, conhecem nosso sistema de jogo e têm qualidade. Para mim, é como um esporte coletivo deve ser”, comentou o treinador campeão Mikhail Likhachev, que, apesar disso, viu um de seus jogadores ser reconhecido com a Bola de Ouro adidas como melhor jogador da competição, o capitão Ilya Leonov, a engrenagem-mestra da perfeita máquina russa. “Muito do que fazemos gira em torno dele e, pela campanha que tivemos, acho que foi um prêmio merecido”, concluiu Likhachev, que ainda viu outro jogador seu, Andrey Bukhlitskiy, receber a Luva de Ouro adidas como melhor goleiro da competição.

Vitórias históricas
Mas a mudança de patamar, claramente, não ficou restrita aos primeiros colocados. Logo no segundo dia de competição, Ravena 2011 começou a ver história sendo feita quando o Taiti, que se iniciou na modalidade há apenas quatro anos e que receberá a edição de 2013, contagiou o público ao conquistar sua primeira vitória na competição diante de outro estreante, a Venezuela, por 5 a 2. O outro debutante no torneio, Omã, fez a partida de abertura do torneio diante da Argentina, uma derrota por 3 a 1, e se despediu com mais duas lições duras de engolir: derrotas para Portugal e El Salvador.

E é aqui que chegamos ao grande conto de fadas do torneio. Claro que muita gente se emocionou com os senegaleses e seu enorme e dançante contingente de fãs que os acompanhou até a eliminação nas quartas diante de Portugal, nos pênaltis, mas nada se compara àquilo que viveu El Salvador ao longo de seus onze dias passados no Stadio del Mare. Sim, onze dias, porque os vice-campeões da CONCACAF continuavam em ação até o último dia do torneio – algo que nem o mais otimista de seus torcedores seria capaz de esperar antes de a competição acabar ou, pior, após sua primeira jornada.

Em suas duas participações anteriores, Marselha 2008 e Dubai 2009, os salvadorenhos somavam seis derrotas e nenhuma vitória. Em seu sétimo jogo, a estreia em Ravena, a equipe levou uma goleada constrangedora por 11 a 2 diante de Portugal. A fama de saco de pancadas começou a se apagar com o primeiro triunfo em Copas, diante de Omã, e se transformou em passado com a classificação para as quartas após eliminar a Argentina. Quando o time bateu os anfitriões italianos e foi à semi, então, despontou de vez como sensação: atraiu uma multidão de salvadorenhos de outras partes da Itália para os últimos jogos e forjou um novo ídolo, o baixinho e habilidoso Frank Velasquez – apelidado de “Romário" quando passou pelo Brasil –, que levou a Bola de Bronze adidas e o troféu Artilheiro de Bronze adidas.

Tudo isso para dizer que algumas coisas continuam e não vão mudar: o talento brasileiro nos pés de gente como André, Artilheiro de Ouro adidas depois de marcar nada menos que seis gols na decisão; a eficiência de Madjer e Portugal, que, pela terceira vez seguida, ficou com o terceiro lugar; o ambiente eletrizante dentro do estádio graças à músicas, às cheerleaders e aos muitos gols. Tudo continua. Mas, agora, o que rodeia isso é melhor, mais acirrado e, pelo menos até 2013, tem novo dono: a Rússia.

Países participantes
Argentina, Brasil, El Salvador, Irã, Itália, Japão, México, Nigéria, Omã, Portugal, Rússia, Senegal, Suíça, Taiti, Ucrânia e Venezuela

Classificação
1. Rússia
2. Brasil
3. Portugal
4. El Salvador

Total de gols marcados
269 (média de 8,4 por jogo)
Artilheiros
André (BRA), 14 gols
Madjer (POR), 12 gols
Frank Velasquez (SLV), 9 gols
Prêmios
Bola de Ouro adidas: Ilya Leonov (RUS)
Luva de Ouro adidas: Andrey Bukhlitskiy (RUS)