A segunda vez a gente nunca esquece
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"Como não temos nada, faremos de tudo." Estas foram as palavras do presidente chileno da CONMEBOL, Carlos Dittborn, no Congresso da FIFA realizado em Lisboa no ano de 1956 para convencer os delegados de que o Chile deveria sediar a Copa do Mundo da FIFA 1962. A decisão encheu de alegria a nação sul-americana, que, quatro anos mais tarde, seria atingida por um devastador terremoto que destruiu várias cidades-sede, fazendo com que, em tese, a sétima edição do torneio fosse transferida para outro lugar.

Contudo, com a ajuda da FIFA, Dittborn e o povo chileno trabalharam incansavelmente para poder realizar o grande evento. Assim, se completam neste final de semana 50 anos daquele que seria, contra todas as dificuldades, um fantástico e admirável Mundial. Apesar da decepção pela lesão de Pelé logo na segunda partida, a receptividade e alegria da massa local e as apresentações de craques como Florian Albert, Amarildo, Bobby Charlton, Igor Chislenko, Didi, Garrincha, Drazan Jerkovic, Josef Masopust, Leonel Sánchez, Villiam Schrojf e Uwe Seeler acabaram fazendo daquele um evento a ser lembrado por muitos anos.

Somando-se ao orgulho chileno estava o fato de os seus ídolos terem superado todas as expectativas, batendo a Itália por 2 a 0 e conseguindo a segunda vaga do Grupo 2 nas quartas de final, quando eliminaram a poderosa União Soviética. O Chile lutou bravamente na derrota por 4 a 2 diante do Brasil, mas Garrincha, herói da partida, balançou as redes em duas oportunidades e levou o campeão de 1958 a mais uma final. O ponta-direita acabaria expulso no apagar das luzes, o que, pelo regulamento, o deixaria de fora da decisão contra a Tchecoslováquia. Mas o clamor da torcida chilena por poder presenciar a incrível mistura de dribles e contorcionismo do "anjo das pernas tortas" uma última vez garantiu a liberação especial do camisa 7 da Seleção para a disputa, marcada para o dia 17 de junho.

Aos vencedores, os louros
Os comandados de Rudolf Vytlacil, que já haviam segurado o Brasil em um empate sem gols na fase de grupos, saíram na frente aos 15 minutos de jogo com Masopust. A Tchecoslováquia sabia que precisava anular a genialidade de Garrincha, mas, ao deixar dois ou três marcadores em cima do craque, acabou abrindo espaço no lado oposto do campo, o que foi explorado pelo técnico Aymoré Moreira. Amarildo chutou da esquerda para empatar a partida e, já no segundo tempo, cruzou para Zito cabecear para o fundo das redes. A 12 minutos do apito final, Vavá selou a vitória brasileira por 3 a 1, aproveitando falha do goleiro Viliam Schrojf.

Cerca de 69 mil torcedores estiveram no Estádio Nacional para ver o Brasil levantar a taça do Mundial, mas vários nomes chegaram à glória no Chile 1962. Albert, Garrincha, Jerkovic, Valentin Ivanov, Sánchez e Vavá dividiram a Bola de Ouro da adidas; o colombiano Marcos Coll fez história ao marcar um gol olímpico que ajudou a Colômbia a empatar em 4 a 4 uma partida que perdia para a União Soviética por uma diferença de três gols; a Iugoslávia aplicou vitórias por 5 a 0 e 3 a 1 sobre os sul-americanos do grupo e eliminou a Alemanha Ocidental no caminho até as semifinais; e a Tchecoslováquia chegou à decisão pela primeira vez na sua história.

Contudo, à exceção do Brasil, quem saiu mais vitorioso do grande evento foi o Chile, cuja seleção realizou um pequeno milagre ao terminar na terceira colocação e cujo povo realizou um grande milagre ao organizar uma inesquecível Copa do Mundo da FIFA meros dois anos depois do grande terremoto da história do país.

Infelizmente, o maior responsável pela realização do torneio não pôde desfrutar da alegria de receber o mundo em casa. Dittborn faleceu um mês e dois dias antes da partida inaugural. A nós, resta imaginar a alegria que o chileno nascido no Rio de Janeiro teria ao ver o seu país-natal erguer a taça e os seus compatriotas saírem do abismo de um desastre natural para levarem ao planeta um espetáculo tão majestoso.