Uma paixão para a vida toda
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"Você pode mudar de mulher, pode mudar de religião, mas não pode mudar de time de futebol." É assim que o diretor britânico Ken Loach resume a ligação de todo torcedor com o clube do coração no filme À Procura de Eric, dedicado ao ex-ídolo do Manchester United Eric Cantona. Afinal, torcer para uma equipe envolve uma espécie de amor e dedicação permanentes, e os mais apaixonados chegam inclusive a marcar a própria existência com o escudo do time preferido. O FIFA.com se debruça sobre os serviços que os clubes oferecem aos seus mais fiéis simpatizantes para acompanhá-los ao longo da vida — e depois dela, também.

Às vezes é difícil identificar o momento exato em que nos tornamos fãs de uma equipe, mas alguns torcedores do Hannover não têm mais esse problema. Desde 2009, o clube alemão dispõe da sua própria sala de parto! Na clínica de Friederikenstift, situada nas proximidades da AWD-Arena, uma sala inteiramente decorada em verde e branco, as cores da equipe, está à disposição dos papais que desejam trazer ao mundo torcedores oficiais. Os recém-nascidos ganham de presente um body do time e se tornam sócios do Hannover durante o primeiro ano de vida. "As crianças são o futuro, e o projeto pode fazer com que elas se identifiquem com o clube desde cedo", explica o presidente Martin Kind, cujo sobrenome curiosamente significa "criança" em alemão.

Diversas equipes compartilham a visão do Hannover. Na Argentina, por exemplo, embora o recrutamento dos torcedores mirins não comece no berço, os clubes desempenham um papel importantíssimo na educação das crianças. Estudiantes, Lanús e Banfield são apenas alguns exemplos de agremiações que abriram jardins de infância, escolas primárias ou colégios. O pioneiro é o River Plate, que inaugurou o próprio estabelecimento de ensino em 1982.

Originalmente, o objetivo do clube de Buenos Aires era oferecer uma formação escolar geral aos aprendizes de futebolista. "Privilegiamos a prática coletiva do esporte, e não o espírito de competição", garante o diretor do Departamento de Educação Física do Instituto River Plate, Marcos Capurro, em entrevista à revista francesa Foot Citoyen. "Claro que orientamos as crianças mais habilidosas para os esportes nos quais elas se destacam, pois não perdemos de vista que pertencemos a um clube que responde à exigência de resultados. Mas o objetivo principal continua sendo o aprendizado da turma, aprendizado para o qual o esporte constitui uma ferramenta privilegiada."

Da escola ao casamento
Pablo Aimar, Javier Saviola, Gonzalo Higuaín e Javier Mascherano são alguns dos jogadores que passaram pelo Instituto, que conta com mais de mil alunos entre meninos e meninas, dos quais 60% são filhos de sócios do River Plate. Contudo, ser torcedor do clube não é critério para ser admitido na escola. Aliás, determinadas crianças não escondem a preferência por Boca Juniors, Independiente ou Racing, garantindo a rivalidade no pátio do colégio, localizado junto ao Estádio Monumental de Núñez.

Mas a arena do River Plate não é a única a oferecer mais de um ambiente aos seus aficionados. Honrando o dito popular segundo o qual "futebol é uma religião", diversas instituições dispõem também de capela própria. Na Alemanha, Hertha Berlim e Schalke 04 permitem que os torcedores digam sim no palco onde brilham os seus heróis. Contudo, em matéria de casamento dos sonhos, ninguém supera o Eintracht Frankfurt. Além de disponibilizar a Commerzbank-Arena para que os noivos celebrem a união, o clube oferece como convidados — ou testemunhas, talvez — a águia Attila, mascote do Eintracht, ou Charly, mascote do estádio.

Na Inglaterra, o torcedor do Tottenham pode escolher os convidados e as testemunhas, mas o resto fica a cargo do clube. Os pombinhos têm acesso não só ao gramado e aos vestiários dos ídolos, mas também a um wedding planner que organiza todos os detalhes da festa — inclusive uma lista de presentes que podem ser adquiridos na loja do Tottenham. Que tal uma cinta-liga nas cores do time para a noiva? Talvez a equipe londrina tenha se inspirado no Real Madrid, que em 2010 lançou a própria linha de lingerie de luxo. "Estou convencido de que um clube com uma história tão grandiosa e uma torcida tão especial terá muitos compradores para esses produtos", previu na época o zagueiro merengue Pepe.

Na França, os torcedores do Lyon ainda não têm a opção de exibir o time favorito nas roupas íntimas, mas já podem viver a paixão pelo clube nas mais variadas atividades cotidianas. Com o serviço de telefonia do Lyon, eles podem chamar um táxi do time — caso ainda não tenham aprendido a dirigir na auto-escola Lyon —, que os levará ao salão de beleza Lyon para renovarem o visual antes de saírem em férias graças à agência de viagens Lyon. Para pagar tudo isso? O cartão bancário Lyon, claro.

Até o último suspiro
Aliás, inúmeros clubes oferecem cartões de crédito aos seus simpatizantes. Os do Kaizer Chiefs, na África do Sul, contam com o serviço há mais de uma década. E para mantê-los em boa saúde pelo mais longo tempo possível, o time do Soweto disponibiliza um seguro em caso de hospitalização. E como é preciso pensar em tudo, inclusive no pior, o Chiefs propõe ainda um seguro-funeral. Afinal de contas, todo torcedor sabe que permanecemos fiéis ao time até na hora da morte.

O Atlético de Madri levou o fato ao pé da letra, e em 2008 inaugurou um columbário para preservar as cinzas dos sócios cremados em 4.200 urnas instaladas nas paredes do Estádio Vicente Calderón, nas quais estão representadas os grandes momentos da história do clube. A ideia fez tanto sucesso que agora Betis, Espanyol e Manchester City também conservam os restos mortais dos fãs nas suas instalações esportivas.

O Boca Juniors, por sua vez, fez ainda melhor, acompanhando o torcedor até a última morada — literalmente. De fato, o clube argentino foi o primeiro a fundar o próprio cemitério, em 2006. "Diversos fãs deixavam instruções para que os familiares depositassem as cinzas no gramado da Bombonera", explica Orlando Salvestrini, antigo diretor de marketing do Boca, cuja ideia foi copiada pelos alemães Hamburgo e Schalke. "Chegavam com a urna e espalhavam as cinzas no campo." Agora eles podem passar a eternidade ao lado de outros torcedores apaixonados e de alguns ícones do time, como os ex-goleiros Juan Estrada e Julio Elías Musimessi. Evidentemente, o Boca também oferece caixões nas cores azul e amarelo.

A iniciativa foi adotada igualmente pelo Reading, que comercializa esquifes personalizados com as cores e o brasão do clube. "Mas não é um mercado que queiramos desenvolver", pondera o diretor de marketing da equipe inglesa, Boyd Butler. "Os nossos torcedores têm bem mais valor vivos do que mortos", conclui.