
Ao converter sua cobrança de pênalti contra a Inglaterra com toda sutileza, o italiano Andrea Pirlo reeditou neste domingo um dos maiores momentos da história da Euro. A técnica da "cavadinha" pode ser relativamente comum hoje em dia, mas se consagrou no continente europeu quando o checo Antonín Panenka bateu desta maneira na final da edição de 1976 da competição, deixando um profundo impacto no futebol.
Considerada uma das jogadas na qual se demonstra mais autoconfiança em campo, uma cobrança "cavada" – que envolve converter um pênalti com um toque despreocupado, quase displicente, na bola – pode não exigir muita habilidade, mas demanda uma ousadia sem igual. O FIFA.com relembra alguns dos jogadores que conseguiram repetir a proeza e outros que tentaram o mesmo sem sucesso.
A origem?
Este estilo de cobrança tomou conta do imaginário coletivo europeu em um jogo no qual a tensão não poderia ter sido muito maior do que de fato foi. Depois de as extintas Tchecoslováquia e Alemanha Ocidental ficarem no 2 a 2 no tempo normal da decisão do torneio continental de 36 anos atrás, Panenka se apresentou para bater, com a chance de dar o título a seu país.
Diante do goleiro Sepp Maier, o meia correu tranquilamente e acertou a bola com delicadeza, fazendo-a flutuar até o centro da rede, enquanto o alemão mergulhava no canto esquerdo da meta. "Suspeito de que ele não gosta muito de ouvir meu nome, mas nunca quis fazê-lo passar ridículo", disse Panenka à página da UEFA na internet. "Pelo contrário, decidi cobrar assim porque me dei conta de que era a maneira mais fácil de marcar um gol. É uma receita simples."
Aquela, segundo Pelé, foi a obra "de um gênio ou de um louco". Mas, como Pirlo mostrou diante dos ingleses, o lance passou a ser cultuado. E, desde sua estreia em um grande torneio, há 35 anos, esse toque leve e impertinente na bola já deu as caras em outros grandes jogos.
Contra a Itália
A principal ocasião de uma cobrança do estilo foi sem dúvida há seis anos, na final da Copa do Mundo da FIFA, quando o irrefreável Zinedine Zidane executou-a quase à perfeição. A bola corria havia apenas seis minutos no jogo decisivo entre França e Itália, quando o então meia do Real Madrid ganhou a oportunidade de abrir o placar da marca dos 11 metros.
Com sua pose típica, "Zizou" bateu sem esforço por sobre Gianluigi Buffon, fazendo a bola bater na parte de baixo do travessão e tocar o gramado 30 centímetros atrás da linha do gol. Foi assim que o francês pôs sua seleção à frente no placar e deixou claro, em seu jogo de despedida, o dom que sempre teve para feitos com estilo e conteúdo.
Zidane está sem dúvida no lado dos "gênios" da declaração de Pelé. Porém, com um apelido como "El Loco", o atacante uruguaio Sebastián Abreu dificilmente não se encaixaria na segunda categoria definida pelo Rei do Futebol quando cobrou um pênalti da mesma maneira quatro anos depois, no Mundial da África do Sul.
Após o empate em 1 a 1 com Gana no tempo normal, o Uruguai estava a apenas uma cobrança de sua primeira semifinal de Copa do Mundo em 40 anos. Como essa técnica se baseia na suposição de que o goleiro quase sempre saltará para um dos lados, Abreu fez a aposta certa: o arqueiro Richard Kingson mergulhou e os uruguaios se classificaram.
O torcedor do Botafogo não se surpreende. Em 2011, contra o Fluminense em um clássico, ele teve uma cobrança a seu favor e viu o goleido Diego Cavalieri fazer a defesa com facilidade: esperto, apenas esperou a a bola no meio do gol. Não obstante, em um segundo pênalti naquela mesma partida, diante do mesmo arqueiro, o uruguaio adotou a mesma técnica e, dessa vez, converteu. No fim, o Bota venceu uma partida eletrizante por 3 a 2. "Não é algo que você prepara de antemão. Você decide na hora. Tem de analisar como está o goleiro mentalmente e como está o jogo em si. Não é a mesma coisa fazer isso com dez minutos de jogo ou na disputa de pênaltis. De todo o modo, o que conta é a adrenalina de ver a bola ir para a rede, não importa como", disse ao FIFA.com.
Mas Pirlo não é o primeiro italiano a realizar o feito em uma Euro. No ano 2000, o ídolo da Roma Francesco Totti demonstrou sua típica autoconfiança na semifinal contra a Holanda. Na decisão por pênaltis, ele agravou ainda mais a situação da Laranja Mecânica ao ampliar a série a 3 a 0 para a Squadra Azzurra, batendo sutilmente na esquerda e enganando Edwin van der Sar, que caiu para a direita.
Outra cobrança do estilo abrilhantaria uma Euro em 2004, quando a Inglaterra voltou a ser a vítima – desta vez, diante de Portugal. Os anfitriões da competição perdiam por 5 a 4 na decisão por pênaltis e Hélder Postiga era o último a bater. Carregando nos ombros o peso da expectativa de toda uma nação, ele não se intimidou. Deixou o goleiro David James caído no chão, enquanto a bola flutuava até o fundo do gol. Na sequência, os ingleses falharam, mas os portugueses, não, e foram à final.
Em 2002, o meia Djalminha também marcou sua versão desta arriscada cobrança pelo La Coruña, contra um Iker Casillas de apenas 21 anos. O gol resultante deu início à recuperação do clube galego, que perdia por 2 a 0 para o Real Madrid, mas acabou empatando.
E quando dá errado?
No entanto, apesar de tantos exemplos positivos, a história do futebol está repleta de tentativas que não deram certo e de jogadores que fizeram um papelão. Como se viu, tentar uma cobrança dessas em uma final de campeonato pode catapultar um jogador à condição de lenda – mas isto, é claro, se tudo sair conforme o planejado.
Não foi o caso do goleiro e capitão do Nantes, Mickaël Landreau, que não teve sorte na final da Copa da Liga da França de 2004. Tudo que ele precisava fazer era converter sua cobrança para dar o título a sua equipe, mas seu chute alto foi tranquilamente parado pelo colega Teddy Richert, do Sochaux, que defenderia outras cobranças a seguir e daria a taça a seu clube.
O craque Neymar também teve suas dificuldades na hora de tentar uma "cavadinha". Depois de ter perdido um pênalti assim em um amistoso na pré-temporada do Santos em 2010, o jovem atacante tentaria o mesmo algumas semanas depois, na final da Copa do Brasil. No jogo de ida da decisão contra o Vitória, em casa, tentou bater com estilo, mas acabou apenas levantando a bola e mandando-a nas mãos do goleiro Lee. Nem é preciso dizer que a torcida santista não gostou nada. Porém, para a sorte do atacante, o Santos acabou vencendo esse jogo por 2 a 0 e levando o título com um 3 a 2 na soma dos placares.
Um ano depois, um cobrador de pênaltis brasileiro ainda mais prestigioso perdeu uma cobrança também na copa nacional. Mundialmente famoso por sua habilidade nas bolas paradas, a tentativa do goleiro Rogério Ceni ficou nas mãos de seu colega do Santa Cruz, na segunda fase do torneio. Ao tentar levantar a bola no centro do gol, o são-paulino viu como Tiago Cardoso, mesmo caído, ainda teve tempo de saltar e desviar o chute para fora. Ainda assim, o Tricolor paulista seguiu adiante na competição, vencendo por 2 a 1 na soma dos placares.
Quem também teve muito a agradecer à sorte foi o sérvio naturalizado ucraniano Marko Devic, que por pouco não acabou com as chances de o Metalist de Carcóvia chegar às quartas de final de um torneio continental pela primeira vez. Na Liga Europa de 2011-12, ele desperdiçou um pênalti com uma "cavadinha" mal executada, que não enganou o goleiro Balázs Megyeri, quando faltavam apenas 15 minutos para o fim do jogo e sua equipe perdia por 2 a 0 para o Olimpiacos grego. No entanto, duas bolas na rede nos últimos dez minutos de partida – uma delas, do próprio Devic – classificaram o clube ucraniano no critério dos gols fora de casa.
Mesmo quando o jogo não é decidido por um erro em uma cobrança "cavada", passar por esta situação é algo que nenhum jogador deseja. O inglês Peter Crouch estava prestes a marcar seu terceiro gol em um mesmo jogo pela primeira vez com a camisa da Inglaterra, em um amistoso contra a Jamaica, preparatório para a Alemanha 2006, quando teve que enfrentar essa humilhação.
O placar marcava 5 a 0 para os ingleses. Foi quando, de forma embaraçosa, o atacante do Stoke City exagerou na força e chutou por cima do travessão. Mesmo consertando a situação mais tarde, marcando mais uma vez, aquilo serviu de aviso: cobrar um pênalti assim não é tão fácil quanto parece.



